Maluquices antes da ditadura militar

maio 28, 2012 Comentários desativados em Maluquices antes da ditadura militar por

No início da década de 1960, os leitores do Diario sabiam que, aos domingos, poderiam aproveitar uma página inteira de humor, um sopro de inteligência em meio a futuras notícias de chumbo. Redigida inicialmente pelo humorista cearense A.G. Melo Júnior – daí o trocadilho que dava origem à seção – a página poderia tratar de assuntos quase tabus na época, como a guerra fria e críticas diretas à administração pública. O pernambucano Luís Queiroga entrou depois para reforçar a equipe, com uma verve mais local. Vale lembrar que Queiroga, criador do personagem Coronel Ludugero, era também compositor, função exercida atualmente pelo seu filho mais velho, Lula Queiroga. A Melokisses era uma herdeira direta de outra página de humor publicada pelo Diario alguns anos antes. Batizada como Demogracinhas, a seção era pilotada por feras que brilharam no rádio pernambucano da época, como Aldemar Paiva, colega de Chico Anysio quando este atuava na Rádio Clube. A Demogracinhas será objeto de outro post no futuro.

Cabia de tudo na Melokisses. A página fugia visualmente daquele visual entulhado da época, já “respirava” no jargão dos designers de hoje. Valia falar de qualquer assunto, desde que a tirada funcionasse em poucas palavras. Claro que algumas piadas iriam esbarrar no politicamente incorreto. Mas censura por censura, vivíamos coisa pior. Leia alguns exemplos abaixo e veja se não concorda com as Melokisses.

* Para o repórter policial, cada ladrão representa duas manchetes:

Hoje: “O monstro assassino continua em liberdade e assaltando a população”

Amanhã: “O pobre coitado foi preso e barbaramente espancado pelos monstros da polícia”

* Nos EEUU,  se você tem a pele negra, o dono do colégio não deixa entrar. No Brasil, o dono do colégio deixa, mas não antes de tirar a sua pele…

* Além da fortuna que ela me tira da carteira para deixar no cabeleireiro, ela ainda me obriga a ouvir as “histórias” de lá…

* Kennedy esrá muito preocupado com a pequena exportação de Cuba. – De açúcar? – Não! De russos!

* Como dizia aquele guarda: – O nosso salário é um caso de polícia!

* O mais engraçado é que quando chove, o trânsito do Recife se desafoga: sim, três mil táxis ficam parados.

* Estão chamando o relógio dos Correios de prefeito: figura decorativa!

 

 

 

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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