O poeta acusado de ser xexeiro

jun 04, 2015 Comentários desativados em O poeta acusado de ser xexeiro por

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Na edição do dia 26 de janeiro de 1866, o Diario de Pernambuco trouxe um anúncio curioso. Na verdade, tratava-se de uma ameaça em quatro linhas. Se o acadêmico Antonio de Castro Alves não pagasse o aluguel da casa em que morou na Rua dos Coelhos, no Recife, veria o seu nome exposto continuamente no jornal. Não seria de bom alvitre para um futuro bacharel ter o nome sujo na praça. Ainda mais para quem seria, no futuro, patrono da cadeira nº 7 da Academia Brasileira de Letras.

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O baiano Castro Alves teve o seu nome impresso no Diario muitas outras vezes, mas longe da pecha de xexeiro. Em 6 de agosto de 1861, antes mesmo de fixar moradia no Recife para se tornar advogado, registrou no jornal, na seção Publicações a pedido, com assinatura completa e data, o poema em oito sextilhas de sete sílabas, A partida do meu mestre o coração, o Exmº Sr. D. Antônio Macedo Costa, bispo do Pará. Estava longe de ser o “condoreiro” que insuflaria as massas e incomodaria as elites ao se posicionar contra a exploração dos trazidos d’África. Na verdade, o texto era seu cartão de visita para o mundo artístico e literário da época.

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O estudante da Faculdade de Direito do Recife, colega de Rui Barbosa, outro dos novos baianos do momento, tornou-se poeta renomado. Sua obra ficou para a história pela denúncia contra a escravidão. No anúncio de 1866, inclusive, ao lado da ameaça ao poeta havia a procura por negros de boa conduta e a oferta de recompensa pela captura dos fugidos.

Castro Alves retornaria a Salvador em maio daquele ano. Conseguiu depois se formar em São Paulo (Faculdade de Direito do Largo do São Francisco) e fez umas andanças pelo Rio, sempre atrás de amores. Ainda assim, continuou publicando peças no Diario. Em 17 de janeiro de 1868, o jornal traz uma tradução dele para poema de Victor Hugo, o francês autor de Os Miseráveis. Mais tarde, daria o titulo de Perseverando.

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Na capital baiana, em 1870, publica em vida o seu único livro, Espumas Flutuantes. Em 6 de julho de 1871, três anos depois de ter amputado o pé esquerdo por causa de um ferimento causado por tiro acidental de espingarda em uma caçada, morre vitimado pela tuberculose. O romântico dava o último suspiro, mas havia deixado sua marca. Como poeta, não como xexeiro.

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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