Adotada numa esquina, ela agradece ao destino

jan 03, 2017 Comentários desativados por

03-01

 

 

Esta é a história de Jakyele de Souza Carvalho, que serve de inspiração para o ano novo.

Silvia Bessa (texto)
Igo Bione (foto)

Naquele dia, tinha uma mulher aflita com uma bebê miúda no colo, sem ter como criá-la. Parou ali, na ponta da Borrazópolis. Cinco passos de largura, casinhas coloridas tipo vila, a rua era e é assim até hoje, ali no bairro de Setúbal, no Recife, numa transversal mais que afetiva da Barão de Souza Leão. A mulher, acompanhada por um menino de alguns poucos anos, esperou somente o sinal vermelho e bateu no vidro do primeiro carro que refreou. Pensava-se que se tratava de uma pedinte. “A senhora tem filhos?”, perguntou. Antes que a resposta fosse dada, emendou: “Não quer ficar com esta bebê?”. Dona Maria José, a Jô, saíra de casa somente para buscar a filha Valquíria, de 13 anos, na aula de piano no Colégio Maria Tereza e era ela quem estava no volante quando ouviu o som do vidro tilintar. “Quantos anos a menina tem?”. Três meses. Nasceu dia 19 de março. O ano era 1977. “Foi registrada?”. Não.
Pela janela, pegou a bebê no colo. “Ela deu uma pisadinha leve e sorriu para mim. Meu corpo adormeceu e eu decidi”, lembra. “Eu fico com a garotinha”, afirmou Jô, numa decisão solitária que a emociona de forma constante. “Peço somente que, quando a menina crescer, não diga que eu dei porque quis. Diga que dei porque não pude ficar com ela”, apelou encarecidamente a mulher para, então, dar meia volta no carro, segurar por dois segundos e beijar a mão pequena da criança e virar as costas em prantos após dizer “Graças a Deus”. Jô havia concordado que cumpriria a promessa. Também chorou pela dor alheia. Passou na primeira farmácia que viu, contou que tinha ganhado um bebê de presente, comprou mamadeiras e fraldas e foi para casa, louca por querer bater às portas dos vizinhos do prédio inteiro onde morava para partilhar a boa nova. Jô passou a noite admirada com o espreguiçar do bebê e acordando o então marido, Aderbal, para ele curtir aquela emoção.
Ao bebê, deu o nome de Jakyele, hoje com 39 anos. “Sei da minha história desde pequenininha. Lembro de quando eu tinha 5 anos ou 6 anos. Perguntava à mamãe (ela fala de dona Maria José, Jô) como eu me alimentava se eu não nasci da barriga dela. Mamãe me respondia e sempre contou tudo igualzinho”, recorda, incluindo nesse relato o local onde foi levada pela mãe biológica, da qual não sabe sequer o nome. “Rezo para ela e sempre pensei o quanto deve ter sido triste e dolorido ter de me dar. Sempre compreendi o ato dela”. Para mim – frisa Jakyele, “o gesto de minha mãe biológica foi um gesto de amor”. A Jakyele, todo mundo pergunta: “Você tinha ou tem vontade de descobrir quem é sua mãe?”. Jakyele responde: “Nunca tive”. O amor que a cercava a completava e a deixava feliz. “Mas quem sabe dos desígnios de Deus é ele”, completa, deixando a porta entreaberta.
Esta era para ser uma história de adoção e de amor, daquelas que se guarda para o início do ano. Elas costumam agradar o leitor, ansioso para cumprir a jornada do ano novo com notícias humanas e reconfortantes. Mas, no meio do caminho, esta história ganhou outro rumo. A conversa com Jakyele (hoje mãe de Davi e com nome de casada Jakyele Afonso de Souza Carvalho) só girava em torno de como ela via a vida. Não tinha como fugir.
Ouvi-la durante algumas horas fez-me deparar com a caracterização do agradecimento. Jakyele agradece o que viveu, exatamente como foi, sem lamentações, mágoas, tristezas ou frustrações por desejos não realizados. Quem a conhece e convive com ela, diz que é exatamente assim todos os dias, não apenas numa entrevista rápida e supostamente banal. Jakyele, a bebê que foi entregue com um único vestido do corpo, só fala em agradecimento pelo seu destino. Pela alegria de ter encontrado uma família amorosa, por ter ganho uma irmã (Valquíria), um irmão (Davison), ter tido a oportunidade de viver em comunhão, por poder ter hobbies que lhe dão prazer, como o que a leva a escrever sobre a maternagem (mammavida.com.br/blog/), poder comemorar natais e anos que se findavam e se iniciavam durante quatro décadas.
Enfim, era essa a história que eu gostaria de deixar nos primeiros dias de 2017: o relato de alguém que olha a metade do copo como sempre cheio, que olha para frente e que é positivista por opção.

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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