As coisas que só mesmo no Recife

fev 09, 2017 Sem comentários por

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Em 1930, com 400 mil habitantes, o Recife era uma cidade que queria ser cosmopolita. Seu porto era movimentado, descarregando cerca de 150 vapores por mês. Marinheiros dos sete mares aproveitavam a parada para procurar uma namorada ou se embebedar nos bares próximos aos cais. A preferência dos ingleses era o Ship Chandlers. Os alemães, um estabelecimento que tem uma tabuleta informando “Man Spricht Deutch”. Em comum entre eles, a cerveja gelada.

Entre os estrangeiros, um norte-americano observava tudo com interesse. O jornalista Frederick Simpich, da National Geographic Society, aproveitou a temporada forçada na capital pernambucana – seu hidroplano foi atingido por uma embarcação e perdeu uma asa – para traçar um perfil curioso da Veneza dos trópicos, ou melhor, uma Amsterdam.

Para Simpich, o Recife realmente parecia uma cidade holandesa. “Há qualquer coisa nos canais, nas ruas sombrias e nas muitas pontes que recordam a Holanda, ou melhor, a Bremen (cidade alemã) decadente”, escreveu em seu relato que foi publicado no Diario de Pernambuco de 11 de dezembro de 1930 com o título “O Recife visto por um jornalista norte-americano”. Conduzido por Mário Melo, diretor do jornal, ele percorreu ruas congestionadas, visitou a área portuária, museus, foi ao Jiquiá (ver o ponto de atracação do Zeppelin) e até conheceu Boa Viagem. O que lhe interessava mesmo eram as pessoas. E, entre elas, os carregadores de piano, uma atividade nunca vista em seu país.
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“Um piano oscilava na cabeça de seis homens de igual altura, aproximando-se com rapidez. Os carregadores marchavam de cabeça erguida, pescoço rijo e mãos aos lados, a passo certo. Qualquer vacilação significaria desastre. À frente vinha o guia, abrindo caminho e dando ordens. Faziam as curvas nas esquinas como uma companhia militar. Esses homens só carregam piano”, descreveu Simpich, que registrou a passagem dos homens negros com sua câmera fotográfica. Ainda da época dos escravos, descrita por Gilberto Freyre, a arte de carregar piano na cabeça no mesmo passo para não desafinar o instrumento não resistiu por muito tempo após a visita do norte-americano. Os caminhões passaram a fazer o serviço.

Nas andanças de Simpich pelo Recife pode-se perceber elementos que permanecem ainda hoje, como a necessidade de seguir a moda vigente e se deixar influenciar pelo que vem de fora: “Muitas senhoras compram nas livrarias figurinos americanos e magazines que ensinam a construir e mobiliar casas modestas. Poucas leem inglês, mas ainda assim os desenhos interessam-nas e nota-se a influência americana nos vestidos e no arranjo da casa. O cinema também exerce influência sobre a moda e as diversões. Nestas, predominam o futebol e as corridas de cavalos”.

O jornalista norte-americano também faz um relato sobre Boa Viagem, que já evidenciava não ter mais espaço para pescadores e gente simples: “Voltamos por uma praia semelhante a Riverside Drive – a famosa e aristocrática praia conhecida por Boa Viagem”. A um lado, o mar, ao outro as suntuosas mansões de pedra vermelha dos senhores de engenho e outros ricaços.

Por fim, parece que Simpich gostou do Recife, apesar dos carros malcheirosos por conta da mistura de gasolina e querosene: “Isto aqui é uma cidade de Romeus e Julietas”.

A foto colorizada manualmente dos carregadores de piano que ilustra esta postagem é um cartão-postal impresso na Inglaterra, sem data de produção, mas que deve ser, no máximo, da década de 1920. A imagem que integra hoje o acervo da Fundação Joaquim Nabuco pertence à coleção Josebias Bandeira.


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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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