Elis Regina e suas várias possibilidades de inclusão

fev 10, 2017 Sem comentários por

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Ela é a primeira aluna do curso de recepcionista para pessoas com Down a atuar em um evento.

Marcionila Teixeira (texto)
Arquivo pessoal (foto)

Elis Regina, 24 anos, a jovem com nome de estrela da MPB, ama cerimônias de casamento. No domingo passado, esteve em uma delas. Não como convidada. Elis, na verdade, sentiu-se em uma posição bem mais privilegiada. Trabalhou na recepção dos parentes e das pessoas amigas dos noivos. Era a primeira vez da jovem em tal função. E seu desempenho emocionou. Uma das cenas mais marcantes ficou eternizada em uma foto. A delicadeza de seu gesto ao segurar o véu da noiva. Elis não parou por aí. Na mesma cerimônia, fez questão de tranquilizar uma garota chamada Lua, com 6 anos, responsável por levar as alianças até o altar.
Elis tem paixão por casamentos a ponto de assistir com frequência a vídeos dessas uniões. Busca entender cada detalhe do cerimonial. O convite para trabalhar em um deles surgiu da empresária do ramo de festas Ana Góes. Nada por acaso. Ana apoia uma iniciativa chamada Empreendedor parceiro da inclusão. E Elis precisa muito ser incluída.
Elis, a filha mais velha de Simone Araújo, 43, nasceu com Síndrome de Down. Depois de terminar o ensino médio, seu maior desejo é cursar administração de eventos e abrir o próprio escritório. Entre 24 e 27 de janeiro, começou a dar mais alguns passos em direção ao seu sonho. Participou do curso de recepcionista de eventos para pessoas com Síndrome de Down. As aulas foram gratuitas e promovidas pela Empresa Pernambucana de Turismo (Empetur) em parceria com a D & A Consultoria. Elis é a primeira egressa do curso a ser chamada para participar de um evento.
Esse não foi o primeiro trabalho de Elis. Em 2015, depois de participar de um curso de informações turísticas, também promovido pela Empetur, a jovem foi contratada para passar um ano no setor de visitação do Palácio do Campo das Princesas. “Quando recebi o diagnóstico de minha filha, há 24 anos, o médico disse que ela era diferente sim, mas seu desenvolvimento iria depender de nosso estímulo. Por isso ela nunca teve mais privilégios que a irmã mais nova nem foi superprotegida. Sempre incentivamos muito nossa filha”, lembra Simone. Esse parece ser o ingrediente mais precioso da fórmula.
Desde 1991, a lei 8.213, prevê cotas nas empresas para pessoas com deficiência. A empresa com 100 ou mais funcionários é obrigada a preencher um percentual que varia de 2% a 5% dos seus cargos com pessoas nessas condições. A lei visivelmente não é cumprida. Elis e outras pessoas como ela terminam de fora do mercado de trabalho. E esse, por sua vez, parece ser o maior obstáculo para tornar pessoas como Elis cada vez mais independentes e felizes.
Sócia da D & A Consultoria, Adriana Cavalcanti entende que o curso por si só não basta. Se não há contratação dos alunos, de nada vale, raciocina. Por isso ela está em busca de parceiros interessados em mostrar a capacidade das pessoas com Down através do Empreendedor parceiro da inclusão. “Quem tem a síndrome tem a afetividade aflorada e esse é o grande diferencial na hora de recepcionar convidados. São pessoas com muita paixão nos olhos”, reflete Adriana.
As empresas interessadas em fechar parceria nesse sentido podem procurar a Unidade de Projetos Especiais da Empetur, no Centro de Convenções, ou ligar para o número 3182.8174. Já quem tem familiares com Down e deseja dar um pontapé na inclusão dessas pessoas no mercado de recepção de eventos, um novo curso está agendado para acontecer este mês, entre os dias 14 e 17. Porque a delicadeza do gesto de Elis ao segurar o véu naquele domingo é simbólica. Diz muito da afetividade transbordante das pessoas com Down.

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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