O sobrenome de Esther é solidariedade

mar 13, 2017 Comentários desativados por

13.03

 

A história da mulher considerada até hoje a pessoa com mais tempo de voluntariado no Brasil.

Marcionila Teixeira (foto)
Arquivo pessoal (foto)

As passadas de Maria Esther já não eram mais as mesmas. O corpo andava frágil, debilitado pelo avanço da idade. Seu caminhar sempre firme agora exigia o apoio de uma bengala. Aqueles eram os últimos dias de Esther. Mas ela parecia não querer desistir da vida. Duas vezes por semana, aos 92 anos, ainda cruzava os portões do Hospital do Câncer, em Santo Amaro. Buscava algo iniciado seis décadas antes. Depois de tanta resistência, definitivamente aquela não era a hora de parar. Esther escolheu servir às pessoas com câncer. Essa era sua forma de amar. Foi assim até morrer, em 2009.
Maria Esther Souto é considerada até hoje a pessoa com mais tempo de voluntariado no Brasil. Tem uma rara história de vida. Se viva estivesse, completaria 100 anos na última terça-feira. Sua memória foi celebrada em uma missa organizada por uma de suas cinco filhas, a procuradora federal aposentada Eliane Souto Carvalho. Na noite anterior à homenagem, Eliane preparou um bolo com nozes para repartir com a família.Também fez bolinhos de goma. Uma forma doce de acariciar quem já não pode mais ser tocado.
Maria Esther tinha 28 anos e uma vida confortável quando foi convidada para atuar com voluntariado. Junto com 13 amigas, criou, em 1945, a Liga de Assistência ao Indigente Hospitalizado, três anos depois transformada na Sociedade Pernambucana de Combate ao Câncer. “No começo elas atuavam com qualquer pessoa doente, mas depois minha mãe percebeu que o paciente com câncer era quem mais precisava de ajuda. Eles não tinham apoio, passavam por muita dificuldade”, lembra Eliane.
As tarefas das voluntárias e voluntários eram diversas. Passavam principalmente pelo levantamento de recursos para fazer o Hospital do Câncer seguir adiante. Entre as campanhas, havia uma chamada Salário mínimo, onde as pessoas com mais posses eram convidadas a doar até cinco salários mínimos para a causa. Maria Esther era de família rica, casada com Adelmar da Costa Carvalho, um empresário bem-sucedido do Recife. A empreitada sempre funcionava. E o voluntariado seguia. Da velha liga criada lá atrás, Esther foi a única integrante a seguir firme com o objetivo do grupo 64 anos depois. Doar-se ao outro sem qualquer espécie de remuneração é desafiador diante de outras prioridades ao longo da vida.
Certa vez, perguntei ao empreendedor social Fábio Silva quais vagas de voluntariado são menos procuradas na capital pernambucana. Fábio, então, contou que muitas pessoas mostram interesse em cuidar de crianças e idosos, mas não desejam atuar em presídios, junto a moradores de rua ou a pacientes com HIV. Experiente na área de voluntariado, Fábio, que também tem mestrado em teologia, logo acendeu a luz na escuridão do preconceito e da falta de informação. Algo que Esther conheceu muito antes dele: “A gente sabe que o mundo que mais transforma nosso mundo é o que não faz parte da gente. Quando vamos vivê-lo, muda nosso olhar sobre a vida, sobre o próximo”.
Esther experimentou essa tal mudança de vida. Não precisava ter feito esse mergulho no desconhecido, mas escolheu fazer. E o mais surpreendente: fez em um tempo onde jovens ricas e cercadas de luxo, como ela, não enxergavam tal atitude como prioridade em suas vidas. Hoje, ter no currículo um trabalho voluntário conta até mesmo pontos na hora da contratação no competitivo mercado de trabalho. Esther abraçou sua história com paixão verdadeira. Somente deixou o Hospital do Câncer para trás no dia de seu sepultamento, depois de um velório comovente realizado no lugar que mais amou.

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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