Guernica, a obra-prima de Picasso, chega aos 80 anos

mar 15, 2017 Comentários desativados por

15.03

 

Quadro que traduziu os horrores do ataque à cidadezinha de mesmo nome tem admiradores no mundo inteiro.

Luce Pereira (foto)
Pablo picasso/reprodução (foto)

Em 2014, eu era um dos milhares de visitantes anuais do museu Reina Sofia (Madri), com a ansiedade em último grau para ver, sobretudo, a obra com que o espanhol Pablo Picasso firmou-se definitivamente como um dos maiores nomes das artes plásticas em todos os tempos. Se a senhora, o senhor, não tem o mesmo apreço que eu pelo assunto, não vai entender minha emoção diante da obra. Vai achar até ridículo que eu haja chorado pelo canto do olho ao me ver diante de Guernica, que agora completa 80 anos. Para chegar até o painel, que tem dos dois lados funcionários dispostos a impedir o acionamento de flashes em máquinas e telefones celulares, passa-se, logo na entrada da ala dedicada ao artista, por uma sala semiescura onde começa a exposição. Pressente-se que a ideia é promover uma atmosfera oscilando entre o sagrado e o incógnito, para dar ao visitante a impressão de que depois vai-se revelar uma arte iluminada por sensibilidade e consciência. E de fato, pois assim era a arte de Picasso.
Se a senhora, o senhor, não for como eu, que cresci interessada em pintura e outras expressões artísticas, pode se sensibilizar ao menos com a história do nascimento da tela, feita para retratar as atrocidades sofridas por uma cidadezinha basca de mesmo nome, com pouco mais de 6 mil habitantes. Depois de um acordo entre Hitler e o general Franco, que lutava contra o estabelecido Governo da Frente Popular, Guernica seria bombardeada sem piedade, antecipando o horror que se abateria sobre outros lugares da Europa. Era uma segunda-feira, 26 de abril de 1937, dia em que os agricultores chegavam para vender seus produtos na feira do povoado quando antes das cinco da tarde os sinos começaram a badalar anunciando a iminência de um ataque aéreo dos soldados de Hitler. Pacatos, sem supor que do céu pudesse cair algo além de estrelas e chuva – apesar de assistir à eventual passagem de aeronaves de guerra em direção a cidades importantes do país – estavam longe de imaginar a destruição, decretada em segundos. Mais de 300 quilos de bombas atirados e rajadas incessantes de metralhadoras determinaram a morte de cerca de 40% dos civis.
Naquele período, Picasso – um dos maiores amigos e compadre do pintor pernambucano Cícero Dias – estava radicado na capital francesa e aceitou a incumbência dos republicanos de retratar a carnificina em um quadro, com o objetivo de arrecadar fundos destinados à causa depois de visto na Exposição Internacional sobre a Vida Moderna em Paris, cidade para onde convergiam todas as tendências artísticas da época. O mundo estava atônito com o massacre de que foi vítima o lugarejo espanhol e Picasso levou cinco meses a traduzir com suas tintas aquele momento. Mas antes de expor o painel, que mede 3,49 metros de altura por 7,76 metros de comprimento, foi logo avisando: “Não, não é uma pintura de bom gosto para decorar apartamentos. Ela é uma arma de ataque e defesa contra um inimigo terrível chamado fascismo”.
Como justificando uma das máximas de Giulio Argan, que diz que “a arte não é efusão lírica, é problema”, o quadro construído em branco, preto e cinza, mostrando a dor sem economizar realismo, não deixou confortável o público da exposição. Simbolizou, ainda e tristemente, uma espécie de premonição histórico-estética, pois o ataque a Guernica seria o primeiro de muitos que viriam, inclusive a Hiroshima e Nagasaki. Ali, de frente para os grandes animais apavorados que representam a destruição, mães clamando aos céus com filhos no colo, homens esquartejados e mulheres clamando pela vida, sob a luz sombria de um olho-lâmpada, é impossível, para quem ama pintura, não se render à genialidade do artista. Mas se ainda assim a senhora, o senhor, não se sentir minimamente disposto ao menos a conhecer a obra, cujos 80 anos o mundo saúda com programação em vários países, vale a pena conhecer Madri e o Museo Reina Sofia. Picasso (1881-1993) já se sentiria minimamente homenageado com o gesto.

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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