A arte e a cultura como refúgio contra a realidade

mar 17, 2017 Sem comentários por

17.03

 

Para esquecer, nada como literatura e cinema, onde é possível se aproximar da história de gênios como Lota.

Luce Pereira (texto)
Reprodução/internet (foto)

O autor de Assim começa o mal (Companhia das Letras), considerado por um número razoável de críticos como o melhor livro de ficção de 2014, é de um país que está longe de viver a violência vista nas ruas do Brasil e, mesmo assim, diz em entrevista recente que a pior hora do dia é o despertar. Javier Marías acorda atordoado e demora a assimilar a ideia de que precisa se pôr de pé novamente para reassumir o leme da própria vida, pois pensa no cotidiano cada vez mais hostil gritado através dos jornais que vai ler dali a pouco. No entanto, a Espanha nem de longe se aproxima do Brasil neste quesito, o que faz crer que do outro lado Atlântico o mundo reclama de barriga cheia. Nem tanto, pois, afinal, existe o terrorismo – mas, convenhamos, o ar aqui anda quase irrespirável, porque ninguém aguenta seguir ouvindo falar do saldo que a insegurança produz e do quanto tudo piora com a incapacidade do poder público de segurar o monstro. Homicídios, assaltos, estupros, gente insana, tudo isso transformado em números dá a impressão de que as guerras lá fora são menos sangrentas. Então, o jeito é ousar substituir as tintas feias da realidade pelo colorido da arte e da cultura. Foi o que o Google tentou fazer ontem ao celebrar, com um doodle, os 107 anos de nascimento de Lota de Macedo Soares, a arquiteta que projetou o Aterro do Flamengo, no Rio.
Ah, os misóginos e homofóbicos que infestam o país devem ter torcido o nariz, pois interessa menos a eles o importante legado da inquieta Lota, nascida Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, do que a vida sexual dela, lembrada pela parceria de 14 anos (1951-1965) com a mundialmente reconhecida poeta inglesa Elizabeth Bishop, Prêmio Nobel de Literatura. E então voltamos às formas possíveis de abstrair um pouco a dureza na qual todos mergulhamos, com o trabalho incansável da classe política. Se a senhora, o senhor, está longe de fazer coro ao preconceito, pode conhecer esta história com menos de meia dúzia de apertos em botões do controle da TV a cabo ou do Netflix, que dispõem do título. Se Glória Pires virou um vexame nacional ao comentar, para o canal mais questionado da atualidade, no Brasil, a edição do Oscar 2016, merece ser perdoada pela atuação como Lota, três anos antes, em Flores raras, de Bruno Barreto, que tenta desenhar os principais recortes da relação, mesclando a história com o envolvimento da arquiteta na obra do aterro e nos empreendimentos políticos do então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, de quem foi colaboradora e amiga muito próxima. Devo dizer que o livro no qual o filme se baseou – uma biografia romanceada escrita por Carmen L.Oliveira, que chegou às livrarias em 1995 – dá margem a muito mais panos para as mangas, porque é natural que assim seja: o tempo, no cinema, desafia os roteiristas, enquanto as páginas dos livros deixam os autores muito sossegados para descer a detalhes.
Na verdade, a história da vida de Lota, para além do viés amoroso, merecia mesmo ser revelada pelos canais da arte e da cultura, duas formas deliciosas de se conhecer mais de perto personagens marcantes da vida nacional. A filha do militar da Marinha José Eduardo de Macedo Soares, depois fundador do jornal carioca O imparcial, nasceu, na verdade, em Paris, quando o pai era primeiro-tenente, e nos primeiros anos da década de 1940 morou em Nova York, onde fez curso no Museu de Arte Moderna. Era autodidata, paisagista emérita, e talvez aí esteja uma das maiores razões para admirá-la: sem ter frequentado faculdade, valia-se do arrojo, do talento e da personalidade empreendedora para criar projetos transformadores. A própria casa no meio da mata de Samambaia (Petrópolis), feita em parceria como o então jovem arquiteto Sérgio Bernardes e onde as duas viveram até Bishop voltar para Nova York, é um exemplo acabado do potencial de lota. Não está aberta a visitação, mas encontra-se preservada como referência de uma época e de um gênio criador que só de curvou ao “demônio do meio-dia”. Lota acabou se suicidando com uma dose excessiva de comprimidos no primeiro dia em que chegou à casa da companheira, em Nova York. Fora vencida pela depressão.

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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