O Brasil nunca esteve tão apaixonado por Portugal

mar 18, 2017 Comentários desativados por

18.03

 

 

Setor imobiliário dá pulos de alegria ao ver investidor brasileiro, depois da crise econômica, trocar Miami por Lisboa.

Luce Pereira (texto)
Jarbas (arte)

Pode não ser a gastronomia, a poesia de Fernando Pessoa e o rio da paixão dele, o Tejo, tampouco o fado ou o fascínio pelas compras. Pode ser apenas o desejo de fazer um investimento mais rentável e seguro, comprando um imóvel, ou simplesmente estar com os dois pés no continente europeu, mas a verdade é que Portugal nunca esteve tão próximo dos brasileiros. Transformou-se em opção por qualidade de vida, motivo que figura na cabeça da lista de justificativas para uma aproximação maior com o país, seja morando permanente ou esporadicamente. E se os habitantes ainda olham a consolidação deste cenário com alguma desconfiança – temendo, sobretudo, o aumento da violência, que segue sendo a pior propaganda sobre o Brasil -, o mercado imobiliário dá pulos de alegria. Desde 2016, Miami (EUA) deixou de ser o “amor estrangeiro” da nação, trocado sem cerimônia pela graça de cidades como Lisboa e O Porto, ambas já eleitas pela crítica especializada em turismo como melhores destinos da Europa. Nas 7 horas e 18 minutos de voo para percorrer os 5.842 quilômetros que separam os dois países, não se fala mais em cansaço, só em pernas para o ar e vida que se pediu a Deus, embora Portugal não seja exatamente o paraíso na terra e também enfrente problemas de ordem social, econômica e política. Quem não? A diferença é o grau.
Pelas ruas de Lisboa, os dois sotaques da mesma língua são tão comuns que fica fácil notar razoável equilíbrio na mistura. Significa dizer que a rede hoteleira não tem do que reclamar e menos ainda construtoras e imobiliárias. No segundo trimestre do ano passado, brasileiros já superavam chineses na aquisição de imóveis na capital do país, pelos cálculos do Gabinete de Estudos da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (Apemip). Hoje, franceses dominam os investimentos estrangeiros no setor com 25% do total e são seguidos de perto pelos ingleses (19%), mas os brasileiros (10%) tendem a encostar em ambos, caso a crise econômica por aqui dê sinais de não esmorecer tão cedo. Há imobiliárias na cidade, inclusive, que já têm mais clientes brasileiros do que portugueses, seduzidos por alguns argumentos irresistíveis: a valorização do euro protege o patrimônio e lá compra-se o segundo metro quadrado mais barato dos países da UE, já que a Grécia ocupa o primeiro lugar.
Naturalmente, o governo português olha com muito carinho para esta movimentação na economia, provocada pela onda de investimentos brasileiros no setor imobiliário, e se apressa a oferecer um visto de cinco anos para quem empregar 500 mil euros na compra de imóveis. Se a preferência do investidor for por uma construção em bairro antigo, que precise ser reabilitada, o valor cai para 300 mil euros. Não só isso: neste caso, é concedida isenção de impostos no ato da escritura, algo equivalente a 6% do valor da propriedade, e de cobrança, por cinco ou seis anos, do que seria aqui o IPTU. Ao lado de tanta empolgação caminha, claro, a procura pela nacionalidade portuguesa. O Ministério da Justiça, lá, diz que foram concedidas 87.033 cidadanias a brasileiros no período de seis anos (2010-2016) e o governo estuda a flexibilização das regras para ampliar este número. Entre as vantagens de se ter um passaporte luso estão livre acesso aos países que fazem parte da UE e dispensa de visto para ir a 170 outros, incluindo Japão e EUA.
O mundo de vantagens, no entanto, se resume essencialmente a uma: poder viver sem o fantasma da violência comprometendo a qualidade de vida. Afora isso, Lisboa e arredores estão cheios de bons motivos para celebrar a vida, com o bônus de isso poder ser feito na língua-mãe. É o máximo. Se não bastasse, a Estação Oriente – belíssimo projeto do arquiteto espanhol Santiago Calatrava – leva à Espanha e de lá a todos os países da Europa, um continente que se diferencia pela arte, cultura, modernidade e exuberância natural. O que sei, particularmente, é que a cada ida a Portugal me sinto cada vez mais em casa. E isso não tem preço.

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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