Um presente chamado chuva, que resgata a fé

abr 19, 2017 Comentários desativados por

19.04

 

Estatísticas que apontam além de 1 milhão de pessoas no estado sofrendo efeitos da estiagem dão uma trégua.

Luce Pereira (texto)
Greg (arte)

Numa visita ao interior, outro dia, conversava com dona Sebastiana, que já tinha “encomendado” o presente de aniversário de 85 anos a Deus, embora hesitante sobre se seria atendida, porque “Ele deve estar muito desgostoso depois de tanta desgraceira no mundo”. Nem suponha que o desejo dela passa pelo terreno da longevidade, pois há muito vem se declarando satisfeita com o tempo vivido. Queria mesmo era ver (de novo) a chuva, que considera uma das maiores bênçãos para os viventes, e botou na cabeça que a escassez de água seria um reflexo muito claro do “desgosto” do Altíssimo. Seis anos de seca medonha, inclemente, nem acreditava mais que pudesse ser surpreendida com um aguaceiro daqueles que dão vontade de dançar no meio da rua, como nos tempos de juventude “vigiada severamente por pai e mãe”. Concordei que a saudade dos adolescentes, hoje, nada tem a ver com essas memórias e juntas refletimos sobre se, de fato, sobra-lhes tempo e espaço para sentimentos assim, mergulhados que estão no universo virtual. Na Páscoa, voltei a encontrá-la. Estava exultante, interpretando que Deus havia resolvido “antecipar o presente” e, talvez, a raiva pudesse estar minguando na proporção das privações. Choveu, na quinta-feira, em municípios do Agreste como Brejo da Madre de Deus, Toritama, Caruaru e Belo Jardim, mais um pouco no fim de semana e até ontem as nuvens não queriam mais saber de frustrar: ficavam pesadas e depois derramavam mesmo o “milagre”.
Nesta Páscoa, dona Sebastiana rezou com mais gosto, repetiu a palavra “aleluia” tantas vezes quantos foram os cafés servidos durante a conversa. Parecia uma menina que a mãe retirou do castigo num tempo inferior ao da pena – e assim me arrastou para ver a terra molhada do jardim que quase já não havia. Para completar, “até tanajura caiu”, me disse, os olhos brilhando. Ganhou um punhado, já prontas, comeu escondido do povo da casa, porque, afinal, a idade avançada depõe contra certas trelas gastronômicas. “Se eu soubesse, teria guardado umas para você”, e riu-se como quem não se importa em ser pego numa mentirinha boba. Gargalhamos quando eu disse que, também, havia ganho pequena porção, mas que nem sonharia em dar uma a ninguém. Os 85 anos só serão no próximo mês, mas ela já parece satisfeita além da conta com o “presente” inesperado. Ponderei que nem tão inesperado assim, pois a meteorologia já previa um enfraquecimento do fenômeno El Niño e, consequentemente, um ano menos ruim do que 2016, em termos de escassez de água. Neste ponto da conversa, dona Sebastiana me chamou de “inocente”, pois El Niño não existe, o que existe é “a bondade de Deus”. Ah, a fé dos nordestinos … E eu não tinha mesmo motivo para misturar encantamento com ciência.
Sei agora que nossa ligação com a chuva – a minha e a dela – revela muito mais de memória do que de necessidade, porque, afinal, estamos fora das estatísticas que apontam além de 1 milhão de pessoas em Pernambuco sofrendo direta ou indiretamente os efeitos da dramática estiagem. Vivo no Recife e ela, cercada de cuidados e necessidades plenamente atendidas. No entanto, o fato de termos empatia tão grande com o social não nos permite apreciar o espetáculo sem esse incomensurável sentimento de alívio. Imaginamos a alegria nos casebres das comunidades rurais, sobretudo, a fé sendo recobrada no silêncio das orações, e tudo isso faz um bem imenso. Pertencendo a gerações distantes, nós duas somos tão iguais na maneira de sentir dificuldades e o sofrimento dos verdadeiramente desassistidos pelo poder público que, talvez, nem valha a pena recorrer à ciência, mas ao divino, para chegar às respostas. Ou, talvez, nem haja mesmo necessidade de entendimento algum, bastando apenas alegrar-se na alegria do outro. Isto é humanidade – e sobra.

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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