Para o amor maduro

jun 12, 2017 1 comentário por


12.06

Neste Dia dos Namorados, salvo do esquecimento esta crônica para os casais de todas as idades.

Urariano Mota (texto)
Greg (arte)

Assim como nas sucessões do tempo de toda a natureza, da flor que fenece e cai e se ergue em outra a partir dos grãos derramados, assim como a onda do mar que se espraia e se desfaz e se refaz dos seus restos em nova onda, assim também o amor se faz um sentimento de marcas e rugas que entranham à vista o sol que se foi e se organiza em nova pele. Tem um sabor íntimo do vinho de que se aprendeu a gostar, uma cumplicidade de lições apreendidas ao toque sem palavras, que o primeiro fogo não poderia construir.
Pois não é próprio do fogo o consumo e o autoconsumo voraz no incêndio, mas lento depois até as brasas que por fim esfriam? Pois sendo próprio do fogo a destruição inexorável, linear e de sentido único, do começo para o fim e sempre, é no entanto mais próprio da pessoa humana o guardar semelhança com os fenômenos naturais, mas sem se deixar reduzir ao que não tem o salto e a qualidade da gente.
Se os primeiros anos de amor são um fogo sem medida, e ao dizer isto guardamos apenas uma aproximação, pois não são exatamente um fogo a loucura e a impulsividade e o não ter limites os atos e ações dos primeiros tempos, este amor guarda correspondência com o amadurecimento, e, portanto, faz sua casa nas rugas do rosto, e por rugas lembrarmos sempre os efeitos do sol ao longo do tempo na matéria que é couro do semblante.
As perdas na vida organizam um novo ser, porque a vitória não é bem um metódico e unidirecional fazer a coisa certa. A vitória é um fazer inúmeras coisas erradas, que ao receberem uma reflexão iluminam o fazer a coisa menos errada. A vitória sobre as trevas é um labirinto que oculta o caminho secreto até a maravilhosa saída. Mas ainda aí, nessa tradução de perdas, o amor amadurecido ainda não é alcançado. Pois para ele, para esse amor que sofreu mudanças ao longo dos anos, o que há e o que houve não são bem perdas.
O amor maduro evita caminhos precários, enquanto o verde segue às cegas até uma satisfação sempre insatisfeita.
É claro, o amor que amadurece não nos deixa menos carnais, mais virtuosos ou santos. De um ponto de vista menos prático, ele é a transformação daquele sentimento juvenil que só desejava a própria satisfação. Que em vez de abrigar buscava urgente abrigo. Agora, em lugar da busca de formas perfeitas, e sabe-se lá o que a carência idealizava como perfeitas, se coxas, busto, ventre, rosto, perfume ou fetiches, esse amor maduro compreende que a estação das formas não se guarda nua em mármore. Que aquela pedra é forma oca de experiência. Mas que nem por isso esse amor transformado é um sentimento outonal, do ocaso. Ele não é o sentimento de alguém que vê a chuva batendo na janela, e aconchegado no calor da sala se diz, “para a rua não poderei mais sair”. Ele é apenas, talvez, uma doce intimidade sujeita a trovoadas, tempestades, pois a vida não é de paz, dentro e fora do sentimento. Mas sem aquelas soluções terminativas, definitivas, dos arroubos sectários dos primeiros anos: “ou isto ou nada”.
Esse amor maduro diz melhor, fala melhor às sístoles e diástoles do coração velho. Dele fala melhor o que não é conceito, ao que é essencial encarnado no destino de toda a gente. E o essencial é que as rugas, as gorduras, os ossos frágeis do objeto que se ama se revelam uma fortaleza. O amor que amadurece ama a pessoa exatamente nesse tempo de aparente decadência física, e por causa mesmo dessas formas frágeis. As fragilidades físicas se tornam uma qualidade, pois remetem a uma história comum. Esse amor apenas deseja dizer, “saiba que aprendi muito a amar as suas rugas”. O que quer dizer, ele, esse novo amor, não quer vê-la sozinha, ele a quer a seu lado nos próximos, poucos e infelizmente poucos anos que lhes restam.
Como flores açoitadas na praia pelo vento. Até que venham as ondas e tudo cubram.

Destaque_capa, Em Foco

Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001

Uma resposta to “Para o amor maduro”

  1. Urariano Mota says:

    Grato ao editor e ao artista Greg