Os excessos, a balança e um palpite infeliz

dez 27, 2017 Sem comentários por

27.12

O grande incômodo era ver o aumento da língua se mostrar inversamente proporcional ao da fé.

Luce Pereira (texto)
Jarbas (arte)

Olhando casualmente, de longe, concluí que o movimento na única farmácia do bairro amanheceu maior e imaginei que os excessos de Natal seriam o grande motivo. Eu mesma uma vítima deles, resolvi ir em busca de sal de fruta ou de algo mais eficiente, seguindo o conselho de alguém da casa. Encontrei dona Corina, a dona, parecendo mais gorda do que de costume e sentada a um canto numa cadeira um pouco estreita para sua abundância física. Enquanto observava a desenvoltura de Josias no atendimento e mal a cliente dando as costas, tecia comentário nada natalino sobre a desventura de quem acha de cometer o pecado da gula justo quando deveria, num exemplo de solidariedade com os pobres de Cristo, beber pouco e comer de maneira apenas frugal na noite do dia 24.
Surpreendentemente, não era por remédio para aliviar azia e outros problemas digestivos que procuravam, mas por um milagre apontado pela balança. Aqui e ali uma mocinha subia, como quem pisa num cadafalso, e fazia cara de desapontamento com os gramas de gordura adquiridos. Uma dupla saiu da farmácia prometendo mais controle, até o fim do Réveillon, ao que dona Corina deu uma risada nada discreta. “Agora veja você esse ‘povo novo’: pensa mais na balança do que na salvação. Não tem dois tostões de juízo, vive somente para cultivar as aparências, como se no dia do Juízo Final Jesus fosse absolver somente quem veste do 40 para baixo”. E diante da razoável procura pela balança, ordenou a Josias que afixasse uma placa no equipamento anunciando a cobrança de R$ 0,50 pelo uso, além de indicar, ao lado, a existência de caixinha com uma abertura na parte superior para a colocação da moeda.
Ressaltar aqui que dona Corina é evangélica irredutível, não é algo feito com a intenção de afiar as espadas usadas por seguidores das maiores religiões para duelar incessantemente, nos dias de hoje, mas apenas pela necessidade de ilustrar um incômodo que cresce de forma vertiginosa – o de ver o aumento da língua se mostrar inversamente proporcional ao da fé. No ápice desse incômodo, disse a ela que achava normal a preocupação de pessoas muito jovens em manter as medidas, pois os padrões de beleza da época impõem certas regras que devem ser levadas a sério, sob pena de o infrator pagar com uma queda brutal na auto-estima. Afirmei que reconhecia aquilo de forma pesarosa, pois o cuidado estava longe de ser o mesmo com a cabeça, no entanto, assistia a tudo sem espanto algum. “Não, minha filha, isso é falta de Deus na causa, pode acreditar”. Nesta hora Josias piscou o olho para mim, como se não acreditasse em uma vírgula do discurso.
De repente, uma senhora aparentando pouco mais de cinquenta anos e muitos quilos além do necessário, faz um gesto de desaprovação ante a cobrança dos R$ 0,50, mas deposita a moeda na caixa. “Essa eu não conheço, deve ser nova por aqui, mas, coitada, vê-se que está num desgosto só com as extravagâncias que fez”, alfinetou ela. A mulher, no entanto, eufórica como o resultado, exclamou “menos dois!” e foi embora, comemorando. Dona Corina ficou desconfortável com aquilo, porém deu um jeito de não entregar os pontos: “Tem gente que finge tão bem que engana até o capeta, já pensou?!” Balancei a cabeça, desistindo de levar a conversa adiante, paguei o frasquinho de sal de frutas e fui embora. No mesmo dia descobri que a mulher era de São Paulo e tinha vindo passar as festas na casa de seu Antenor, o dono da padaria. Também, que estava vencendo luta atroz para fugir da ameaça de se submeter a um agressivo procedimento de redução de estômago. Aquilo mudou completamente meu dia. Dona Corina que aguarde minha próxima visita à farmácia.

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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