Que haja amor para recomeçar, como eles

dez 28, 2017 Comentários desativados em Que haja amor para recomeçar, como eles por

28.12

Às vésperas da virada do ano, a mensagem de um casal improvável que reencontrou a felicidade.

Silvia Bessa (texto)
Arquivo pessoal (foto)

Nas ruas do Recife, andam com mãos entrelaçadas na cintura um do outro. Se, ao passar por uma calçada irregular, um dá uma topada, o outro ri. Se erram o trajeto combinado, gargalham. E seguem, felizes, para visitar um museu da cidade. Em casa, assistem a filmes no Netflix e aguentam firme até o final, ainda que o roteiro seja dos mais chatos e uma ligação telefônica quebre por instantes a magia da exibição. Nada de amor antigo, vindo da adolescência. Eles são fruto do inesperado, da surpresa para a qual se pensa não haver mais espaço na vida. Entre os dois, não há beijo de artista, mas “é extraordinário e bom”, como definem.
“Não foi e não é uma paixão daquelas dos 18 anos. O que temos é uma relação revestida de tranquilidade, paz de espírito, sossego e a certeza de que como está vai continuar”, diz Zélia Correia de Araújo sobre o seu encontro com Zacarias Bezerra Cavalcanti. Ele, aos 84 anos; ela aos 75 anos. Juntos são o exemplo daquela máxima que se respeita nesta época do ano: a de que nunca é tarde para recomeçar porque a sorte do amor tranquilo pode estar na esquina. Ou no departamento de frutas e verduras do supermercado.
Com eles aconteceu assim, há seis anos: “Foi realmente bucólico. Gosto muito de conversar e puxei assunto sobre os defeitos da batata doce e da macaxeira. Uma conversa besta. Descobri que o nome dela é o mesmo da minha ex-mulher, de quem sou viúvo”. No relato, não tem só a graça do trivial mas o cotidiano de todo mundo.
“Eu me arrumava, gostava de festa, de carnaval, mas não esperava mais que me olhassem. Fiquei espantada porque tinha alguém olhando para mim com deslumbramento. Pensei: Oxente! É comigo? O que eu poderia fazer? Facilitar e acenar”, brinca dona Zélia com a lembrança.
Foi só o começo. Com carrinhos do supermercado se esbarrando e atrapalhando outro clientes, o jeito foi trocar papeis com número de telefones.
Então, viúvo de um casamento de 28 anos de Zélia 1, seu Zacarias já sabia até o perfil da mulher que procurava. Encontrou em um dia qualquer. Dona Zélia, depois denominada por ele de Zélia 2, viúva também e com algumas desilusões amorosas, nem acreditou que o amor daqueles vividos por amigas da juventude finalmente havia chegado para ela. E foi sem aviso prévio. “No dia seguinte ao encontro do supermercado estava cheio de coisa e não liguei. No outro, ela me ligou e marcamos de nos ver. Ela foi logo dizendo que tinha um filho, três netos e que moravam em Petrolina. Falou dos gostos e eu pensei: ‘Encaixou a mão na luva porque eu não queria alguém cuidando de netos o tempo todo e com aquela confusão’”, relata o todo honesto vovô Zaca.
Resolveram passar um período “probatório” de dois meses para se conhecerem. Até hoje. Quase todos os anos o casal viaja em uma lua-de-mel sem fim. No primeiro Natal, os dois foram para Gramado, no Rio Grande do Sul, ver as luzes do espetáculo. Nos seguintes, Europa Central, Amsterdã (Holanda), Budapeste (Hungria), Eslovênia. Em seguida, Lisboa (Portugal), Canadá… “Zélia é uma excelente companhia de viagem”. Ele, um engenheiro aposentado que desde a juventude não viajava para o exterior, encontrou o par perfeito na companhia de Zélia, formada em serviço social e que depois se realizou como geógrafa. No tempo em que passam no apartamento onde moram, na Beira Rio, bairro da Madalena, completam seus interesses. Ele, estudando inglês online. Ela, francês.
Os filhos de seu Zacarias, sete de dois casamentos anteriores e respectivos netos, se juntaram ao filho de dona Zélia e aos outros netos. Formam agora uma única família. “Tenho filha que liga mais para ela do que para mim hoje em dia, de tanto que gostam dela”. Dona Zélia tomou para si todos. Ela usa o termo “nossa família” para descrever o conglomerado que os rodeia e no qual partilham amor de Natal a Natal. Talvez por este motivo quis que a foto do casal que flertou na correria do cotidiano fosse a da casa “onde tudo começou”. O que, para Zélia, faz sentido.
Dona Zélia garante que a história deles não é de cinema. Desconfia-se. Seu Zacarias me lembrou de um filme assistido por eles (sob o título Elsa & Fred) que narra o encontro de uma viúva e um viúvo de meia idade que se esbarram no trânsito. E, olha que coincidência, mesmo bem cansados – como diz a canção – ainda têm amor para recomeçar.

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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