
Eu quase comprei uma bunda nas minhas férias. Infelizmente não achei uma que encaixasse com o meu corpo. Teve outra coisa: os preços das bundas que vi não eram tão atrativos. Decidi que a minha ainda dá para o gasto. Vou dar um trato para usar nas próximas férias. Antes que você me acuse de blasfemar em plena Semana Santa ou ache que eu endoidei de vez, quero deixar bem claro: bunda é jaqueta. Em tcheco.
Praga foi uma das cidades que incluí no roteiro das férias. Claro que não dá para entender nada do que eles falam ou escrevem. Mas a cidade é linda. A gente ri com coisas como a bunda. E conhece pessoas de todo o mundo como o búlgaro de nome impronunciável que falava um pouco de português e tão logo soube que eu era brasileira saiu-se com esta: “Sua presidente é metade do meu país”, lembrando que o pai de Dilma Rousseff nasceu na Bulgária.
Não gastei minhas korunas (a moeda local) na loja dele, mas muito turista gastou. A República Tcheca faz parte da União Europeia, mas não está na Zona do Euro. E eles não parecem muito interessados em mudar tão cedo. O presidente Vaclav Klaus já lembrou mais de uma vez que o governo só tem de tomar uma posição sobre o euro em 2014. O país também foi o único, ao lado da Grã-Bretanha, que não assinou o pacto orçamentário europeu, apertando as regras fiscais.
Ao menos em Praga não percebi situações como as que vi em Madri, onde a crise aparece escancarada nas esquinas. Também passei por cidades da Holanda, da Áustria e da Alemanha. Os dois primeiros países foram um pouco mais contaminados pela crise. Mas também não vi ninguém reclamando ou protestando nas ruas. A Alemanha segue como o motor da região. “Crise? Só se for na Grécia”, me disse o brasiliense León, que mora em Berlim há um ano e meio.
A capital alemã é praticamente um canteiro de obras. E ainda precisa? “Berlim sempre está em obras”, respondeu a moça do ônibus turístico. Eles fazem obras, mas gastam dentro do possível, ao contrário dos vizinhos. Por isso ficam incomodados. Não sem razão. Coleta – holandesa que conheci no trem entre Berlim e Dresden – falou sobre o que a maior parte dos alemães, holandeses e austríacos pensa da ajuda financeira dada a países como a Grécia.
“Há questionamentos. Por que dar tanto dinheiro para a Grécia? Ninguém acha que, hoje, o país vai sair do euro. Mas poderia ter saído antes. Será que vale a pena?” A percepção é que tanta ajuda financeira vai pesar depois nos ombros de quem costuma fazer tudo certinho (com o aumento de impostos). Coleta mora há cinco anos em Viena, capital austríaca. Quando falei que iria passar por lá também, ela disse para eu aproveitar os doces do país. Nos cafés definitivamente não há crise.
Pelo meu formato arredondado, Coleta deve ter imaginado que gosto muito de doce. Acertou! Fui comer a tal Sachertorte no Hotel Sacher, onde essa torta de chocolate foi criada no século 19. Servida com chantilly, ela não é muito doce. Acho que por isso não me apaixonei por ela. Mas matei um monte de gente de inveja ao postar a foto no Face. Agora as férias acabaram. Tchau, Europa. Olá, trabalho.
