
O presidente Lula, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e os simpatizantes do governo petista (incluindo uma penca de jornalistas) insistem em dizer que o caos americano ainda não teve reflexos no Brasil. Então tá. Acho que estou em outro país. Ou talvez na Terra do Nunca de Peter Pan.
O dia de hoje foi um marco. Negativo. O Congresso dos EUA rejeitou o plano de US$ 700 bilhões para salvar os bancos. Era o que faltava para derrubar de vez as bolsas mundo afora e causar ainda mais inquietações nos mercados. Henrique Campos, diretor da consultoria BDO Trevisan, saiu-se com esta:
“Com o plano do Bush, havia uma luz no final do túnel. Sem o plano, ainda há uma luz, só que o trem vem no sentido contrário“.
Quem teve a curiosidade de dar uma espiadinha na internet ou assistir a algum jornal viu que a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encerrou o pregão de hoje com uma queda de 9,36%, a maior desde 1999, quando a queda chegou a 9,97% (na ocasião, o câmbio voltava a ser livre no país).
As negociações chegaram a ser interrompidas pouco antes das 15h, quando a queda atingiu os 10%, fazendo disparar o chamado circuit breaker. As operações pararam por meia hora. Quando voltaram, a queda continuou. Chegou a passar a barreira dos -13%, mas aos 45 minutos do segundo tempo voltou ao patamar de “apenas” um dígito.
Enquanto a Bovespa ficou “na chon”, para usar o bordão da dona Armênia, de Rainha da Sucata, o dólar disparou. Fechou cotado a R$ 1,964. A alta foi de 6%. Aumento assim, em um único dia, só em 2002, na véspera da eleição presidencial (todo mundo tinha medo de Lula e do que ele poderia fazer com a economia do país).
Esses foram os efeitos imediatos. Mas já existem outros. Os índices de inflação, que depois da alta do primeiro semestre vinham apresentando queda, voltaram a subir. Isso acontece por causa da alta do dólar. O economista André Braz, da Fundação Getúlio Vargas, diz que o preço da carne de boi pode voltar a subir. Já a nossa gigante Embraer anunciou que vai adiar a entrega de quatro aviões, a pedido dos clientes, que estão com mais dificuldade de conseguir crédito para pagar as encomendas.
O dólar alto também deve atrapalhar quem tem planos de viajar para fora ou comprar produtos importados ou aqueles que tenham itens cotados em dólar (como os computadores). O crédito pessoal também ficará mais difícil (e caro). As empresas poderão investir menos. A economia poderá crescer menos, menos empregos serão gerados. Bem, mas se nosso presidente (que tem quase 80% de aprovação) diz que a crise não vai nos atingir…