
Hoje é dia de São Cristóvão, protetor dos motoristas. Dos profissionais e acredito que de todos os amadores também. Pelo que a gente observa nas ruas, o santo anda tendo um trabalhão. E nem estou falando dos buracos e da falta de sinalização. O meu espanto mesmo é com quem está atrás do volante. Quanta agressividade, quanto despreparo e, principalmente, quanta falta de educação. Gente inteligente, culta e calma no dia a dia parece que volta à época das cavernas quando está dirigindo um carro.
Vou contar só um exemplo que presenciei ontem pela manhã. Eram 9h15 e havia um engarrafamento básico na Zona Norte do Recife. Dois carros, um azul e um vermelho, saíram da Rua Doutor José Maria para entrar na Avenida Norte e quase se chocaram. O azul estava por fora e acabou fechando o vermelho. Talvez sem querer, por desatenção do motorista. Talvez não. Alguns metros adiante, já na avenida, na esquina com a Rua 48, os dois carros pararam. O azul na frente. O vermelho atrás.
Do banco traseiro do carro vermelho saiu uma mulher enlouquecida, guarda-chuva em punho. Daqueles tradicionais, de ponta. O trânsito parou. A louca do guarda-chuva avançou para cima do carro azul. Deu umas batidas no para-brisa traseiro. O motorista, um senhor de cabelos brancos, calvície bem acentuada, desceu e quase apanha da mulher. O motorista do carro vermelho saiu também. Pensei que ele fosse segurar a ensandecida. Mas não. Ele também avançou sobre o motorista.
Pelo que vi não houve agressão física. Por pouco. Uma senhora que também estava no carro vermelho desceu e interveio. Não sem antes dizer alguns desaforos ao motorista do carro azul. Depois todos entraram em seus carros. O motorista do vermelho ainda seguiu fazendo ameaças. Eu virei rapidinho na Rua 48, aliviada por não ter sobrado pra mim. Mas fiquei pensando naquilo. O motorista do carro azul foi imprudente ao fechar o carro vermelho, claro. Mas não justifica o barraco que se seguiu.
Por que as pessoas agem assim? O estresse da cidade grande não pode ser usado como desculpa. Talvez se as infrações cometidas por esses mal educados fossem punidas, a situação seria diferente. Vejam o exemplo da Lei Seca, que completou um ano no final de junho e é desprezada por grande parte dos motoristas, que insiste em beber e dirigir. Foi diminuir a quantidade de blitz para eles ficarem mais afoitos. O medo de uma punição mais rigorosa faz as pessoas se comportarem diferente no trânsito.
A venda de carros novos bateu recorde no primeiro semestre de 2009. Graças à redução do IPI, quase 1,4 milhão de automóveis deixaram as lojas entre janeiro e junho. Parcelados, na grande maioria das vezes. Só no último mês foram quase 290 mil. Outro recorde. Muitas dessas compras foram de pessoas que estão rodando com o primeiro carro. Para elas, é um sonho que se realiza. Para Cristóvão, o santo à beira de uma estafa, é a certeza de muito mais trabalho pela frente.