
Com a incontinência verbal que lhe é tão peculiar, o presidente Lula desatou a falar sobre carga tributária nesta semana. Durante um seminário promovido pelo Conselho Federal de Contabilidade, em Brasília, na quarta-feira, Lula fez a seguinte declaração:
“Em todos os países que têm políticas sociais, em que os trabalhadores têm todos os dentes na boca, almoçam, jantam e tomam café, pegam ônibus de qualidade e têm salário de qualidade, a carga tributária é elevada, mais do que a nossa”.
É mais elevada, sim. Mas a população normalmente sabe para onde está indo a montanha de dinheiro que paga (e tem acesso aos números), além de receber serviços de qualidade. Ao contrário do Brasil.
Temos problemas com segurança, saúde, educação, infraestrutura rodoviária. Só para ficar em quatro exemplos. E a gente paga imposto pra caramba. De acordo com cálculos do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), a carga tributária deve chegar a 37,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no fim de 2010.
Ainda segundo o IBPT,a arrecadação de impostos federais, estaduais e municipais deve fechar o ano na casa de R$ 1,3 trilhão. O Brasil arrecada como um país de primeiro mundo. Mas retorna os serviços para a população como um país de terceiro mundo.
No mesmo dia em que Lula falava sobre a relação entre carga tributária e dentes, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) divulgou o estudo Impactos dos Tributos sobre a População.
A pesquisa ouviu 2.842 pessoas em seis capitais brasileiras (Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo). Um dos dados: 72,7% dos entrevistados não fazem ideia do montante de tributos incidente sobre o seu salário.
Se não sabem o básico, imagina só o resto. Para conscientizar a população sobra a alta carga tributária, a falta de transparência do sistema e o baixo retorno nos serviços prestados, a Firjan lançou a campanha Dieta do Impostão.
O slogan: “Menos impostos. Mais dos impostos”. Bem oportuno, especialmente em um períodoeleitoral. Quando são candidatos, os políticos dizem que vão fazer e acontecer e prometem reduzir a carga tributária. Depois de eleitos, o discurso muda.
No mesmo seminário da quarta-feira, Lula disse que não aprovou em seu governo a reforma tributária porque deve haver “inimigo oculto” travando as coisas.
“Deve ter algum inimigo oculto, que embora concorde de fora com a política tributária, por dentro não deixa ela sair”.
Pronto. Não faltava mais nada. Baixou o caboclo de Jânio Quadros no Lula. “Inimigo oculto”? Conta outra, presidente.
