
Philadelphia Freedom
Em janeiro do ano passado, contei aqui um pouco da história do jovem Thiago Porto. Em plena crise financeira internacional, ele topou ir trabalhar nos Estados Unidos. Não teve medo de recusar a oferta para atuar na matriz de uma multinacional da área eletrônica. Foi morar na Filadélfia com a esposa. Passados quase dois anos, quis saber como está a vida de Thiago nos States. Mandei um e-mail com algumas perguntas e ele respondeu. Falou não só sobre a própria vida, mas também sobre como estão as coisas por lá no governo Obama. Confiram trechos da entrevista:
Quais as principais diferenças entre os norte-americanos e os brasileiros?
Fazer comparações entre duas culturas tão plurais é difícil, mas posso dizer que o norte-americano é mais reservado e individualista, possui um ´espaço individual` físico que geralmente não se deve ultrapassar se não houver intimidade. O brasileiro, por outro lado, é mais informal e costuma se inclinar mais ao contato físico, assim como pessoas de outras nacionalidades com quem convivo aqui nos EUA. Israelenses, indianos e até russos se assemelham mais ao brasileiro neste quesito.
A vida (especialmente a econômica) está muito diferente da que você encontrou quando chegou?
Não muito. A atual situação foi acarretada por fatores que se arrastam há anos. Assim, dois ou três anos é pouco para que haja uma reversão no quadro macroeconômico, que dirá na vida das pessoas. Na época da posse do Obama, o país vivia o momento mais crítico da crise. Era um momento de muita incerteza. Houve uma queima abrupta e brutal de riqueza. A ordem do dia era sobreviver. Agora, os EUA precisam mudar o modelo que vigorou por muitos anos, de consumidores mundiais de última instância, para uma economia mais baseada em investimento, principalmente em tecnologia e educação.
O que você está achando do governo de Obama?
Penso que ele concentrou muita energia na reforma do sistema de saúde, retirando um pouco o foco da economia, que deveria ser a prioridade nº 1. Além disso, na minha opinião, ele cometeu outro erro. Deu pouca atenção aos negócios. Com isso, deu a impressão de que se distanciou da realidade. A própria equipe dos dois primeiros anos teve pouquíssimos ou nenhum representante do mundo corporativo.
E o que os norte-americanos estão achando do presidente? Acabou mesmo a lua de mel?
As eleições para o Senado e a Câmara deram o tom do que está acontecendo. Foi uma lua de mel muito rápida. As coisas viraram totalmente em muito pouco tempo. A aprovação a Obama já é baixa há alguns meses. Por outro lado, as pesquisas também apontam que muita gente acha que ele está ao menos tentando fazer algo. Contudo, boas intenções não bastam. Vão ser dois anos muito difíceis para Obama com a maioria republicana. E será difícil uma mudança grande nesse período. Os EUA continuam sendo a maior economia do planeta e possuem a unidade de reserva mundial, o dólar. É a hora de se discutir o longo prazo. Como vão lidar com a ascensão da China? Como vão investir em tecnologias orientadas para o desenvolvimento sustentável? Como vão balancear a matriz energética para outras fontes renováveis?
Quais as suas perspectivas para o futuro? Pretende ficar ainda muito tempo nos Estados Unidos?
No momento, não estamos fazendo planos de voltar ao Brasil. Estamos bem aqui, trabalhando e estudando. Há sempre possibilidade de ir para outros países. O importante é fazer o que se gosta e manter as possibilidades sempre abertas.