Outra vez, a França entrou no caminho do Brasil. Como boa freguesa que é, nossa Seleção perdeu na última quarta-feira por 1×0 no Stade de France. E daí? Daí que isso me fez lembrar dos dias em que passei de férias em terras francesas no ano passado. Não fui ao estádio. Também não me esbaldei bebendo champanhe. Mas fiz uma coisa bem típica entre os franceses: percorri algumas feiras de antiguidades no Interior do país.
Os franceses adoram as feiras. Não apenas pelo fato de pechinchar, mas de conseguir verdadeiras “pérolas” entre coisas que aparentemente não têm valor. Minhas aventuras pelas brocantes e vide-grenier (esvazia sótão, numa tradução direta) aconteceram na região de Gironde, em cidadezinhas próximas a Bordeaux. “Velharia”, muitos devem estar pensando. Sim. Mas muitas dessas “velharias” são bem interessantes.
O mais legal é a própria feira. É um clima bem família. Vi crianças negociando seus próprios brinquedos. Outras brincando com seus cachorrinhos (ou cachorrões), bem quietinhas. Vi a vovozinha se desfazendo do conjunto de cristais. Vi uma bóia do Titanic à venda (!?!?!). Vi uma máquina de escrever que deveria ter a mesma idade do navio. O rapaz só pedia 5 euros. Fiquei com vontade de comprar, confesso. Só que iria ser meio difícil de trazer a dita cuja na mala.
Mas não saí de mãos vazias, não. Comprei uma matrioshka, aquela bonequinha russa que vem com várias menores, uma dentro da outra. Preço na feirinha: 2 euros (menos de R$ 5). Maravilha! Na nossa Fenearte, achei uma boneca igualzinha custando mais de R$ 50. Tá vendo que dá mesmo para fazer economia? Nessas andanças pelas feiras de antiguidade tive como guia um pernambucano radicado na França há mais de dez anos.
Paulo Ricardo Pessoa nasceu em Santa Maria do Cambucá, município do Agreste com pouco mais de 12 mil habitantes. Hoje, mora em Aillas, município com menos de mil habitantes, uma igreja secular, uma pizzaria, uma rua principal e muito ar puro. Ele trabalha em uma cidade maior, La Reóle (deve ter umas 5 mil pessoas). É dono de uma loja chamada La grotte du verre (A gruta do vidro), especializada em vidros, cristais e objetos de coleção.
Quando fui na loja dele, só conseguia pensar na expressão “elefante em loja de cristais”. Pense num medo de quebrar alguma coisa. Antes de montar a loja, dois anos atrás, Paulo negociava nas feiras. E até hoje percorre as cidades atrás das preciosidades para comercializar em sua grotte. Com olho clínico, sempre acha coisa boa para levar, vender e ganhar dinheiro. Um cristal conquistado por 1 euro pode ter o valor multiplicado por dez fácil, fácil.
“Pode pechinchar. É pra pechinchar mesmo”, dizia Paulo, com o sotaque nordestino ainda bem apurado e uma caixa cheia de aquisições. Em uma das cidades que fomos – Targon – estava rolando uma espécie de quermesse. As barraquinhas todas enfeitadas e com seus produits du terroir (produtos da fazenda). Tinha pernil de porco gigante. Tinha linguiça apimentada. Também tinha crepe e barbe à papa (algodão doce).
Comi a linguiça e depois um crepe para arrematar. Terminei o dia com o estômago forrado e bem satisfeita com minha matrioshka de 2 euros.

