Oh, my God!

Oh, my God

E agora, gente?

Tudo bem que o governo quer que o povo compre para a roda da economia girar. Mas também não vamos exagerar, né. A Caixa Econômica ampliou nesta segunda-feira o prazo do parcelado com juros no cartão de crédito de 36 para 48 meses.

Sim, 48 meses: 4 anos.

O pagamento pode ser feito em locais que aceitem as bandeiras Mastercard e Visa. As  taxas são de 0,89% ao mês para o cartão Azul Caixa e 1,9% ao mês para os demais cartões.

Imagina só você comprar uma geladeira e pagar em 4 anos.

O vice-presidente de Pessoa Física da Caixa, Fábio Lenza, disse, em nota divulgada para a Imprensa, que “esta é mais uma ação que vem ao encontro do Programa Caixa Melhor Crédito, que tem por objetivo facilitar o acesso do consumidor ao crédito, estimular o consumo de forma consciente e alavancar a competitividade do mercado”.

E a inadimplência do povo, como fica?

“A chave da sobrevivência é o equilíbrio”

Gustavo Cerbasi

Entrevista com Gustavo Cerbasi

Especialista em educação financeira, o gaúcho Gustavo Cerbasi já vendeu mais de um milhão de cópias do livro Casais inteligentes enriquecem juntos. Mas ele dá dicas não apenas para os casados. E fica feliz porque o brasileiro está mais consciente da necessidade de poupar.

Poupar já não é mais pecado?

Poupar é associado a atos sovinas, a ser pirangueiro, como vocês falam aqui. Aquelas pessoas que antes poupavam, preocupadas com o futuro, se sentiam intimidadas de falar sobre isso porque estavam fora da realidade. Mas hoje o brasileiro está consciente de que poupar não é uma oportunidade, é uma necessidade. Trabalharemos menos do que viveremos. Ganhamos dinheiro não para pagar as contas do mês, mas as contas da vida. Uma parte tem que ser poupada.

Mas é para ser pirangueiro ou existe um meio termo?

Ter uma atitude realmente pirangueira, de pensar muito mais no futuro que no presente, não é saudável. Tem que haver um meio-termo. Não devemos trocar nosso presente pelo futuro. A chave da sobrevivência nas finanças é o equilíbrio. É você adotar um estilo de vida que seja sustentável. Poupar demais é tão perigoso quanto gastar demais. Pode se tornar um hábito depressivo, frustrante. A pessoa pode chegar num ponto de ter muito dinheiro, mas não cuidou da saúde, não desenvolveu hábitos de lazer que a estimulem a conhecer o mundo, viajar, desfrutar com os amigos.

Estamos finalmente vivendo o momento da educação financeira?

Sim. É o momento da consciência de perceber que rico não é aquele que tem mais dinheiro, mas aquele que vive feliz e tem segurança, e que a segurança não será perdida no futuro. Hoje os brasileiros sabem que o dinheiro que é poupado para comprar uma viagem de férias à vista vai resultar num poder de barganha maior. Pagar à vista significa mais desconto. Não tem sentimento pior do que sair de férias, desfrutar e, quando voltar, ter uma conta enorme para pagar. Essa inversão da oportunidade de poupar antes para comprar depois tende a ser mais crescente no Brasil.

Por conta do atual momento vivido pelo país?

Melhor que fosse dez anos atrás, quando multiplicar dinheiro era mais fácil. Mas esse assunto educação financeira não atingia as pessoas da maneira generalizada. Hoje, a consciência fica pesada, como a pessoa que depois do jantar pede um docinho exuberante. Vai comer com consciência pesada. A prática é difícil porque faltam exemplos. A maioria dos brasileiros ainda tem dívidas, lida mal com o dinheiro, não poupa para o futuro.

Mas a gente vai ver isso na nova geração?

A juventude está preocupada com a poupança. Não diria a juventude em idade, mas a juventude em experiência com o dinheiro. A nova classe C. A gente percebe nas estatísticas que existe uma propensão maior de compra à vista pela classe C do que pelas classes A e B. Essa classe C está mais preocupada com a estabilidade, em manter esse status que conseguiu. Então a consciência financeira está acontecendo. Conversa-se sobre dinheiro hoje no Brasil. Estamos vivendo um bom momento.

* Entrevista publicada na edição de 04/06/12 do Diario de Pernambuco

No caminho certo

No caminho certo. Crédito: Silvino/DP

O empreendedor João Ramos já foi chamado de louco pela própria mãe porque vivia com a metade do salário (e poupava o restante). Também já cansou de ser chamado de pirangueiro, mão de vaca e outras denominações usadas para estigmatizar quem se propõe a poupar. “Sempre fui econômico”, defende-se. Ele já se incomodou com isso. Mas hoje em dia nem liga. Tem orgulho de ser assim e agora percebe que sempre esteve certo. Outros tantos econômicos/previdentes devem estar se sentindo da mesma forma depois que a educação financeira começou a ganhar mais força no país.

“É muito difícil ser minoria, receber crítica e acreditar que está certo. Percebi que muita coisa que eu fazia escondido era o correto. Aproveitar a promoção no supermercado. Esperar até o produto baixar”, conta João. Depois que saiu do último emprego e virou empreendedor (na área de informática e internet), ele passou a estudar finanças e investir melhor o dinheiro. Hoje sai dando conselhos. Um mês atrás, disse à esposa que ela deveria aguardar um pouco mais para comprar o carro. Aí o governo baixou o IPI. E agora o carro que ela pretende comprar está 10% mais em conta.

Para o economista Luis Carlos Ewald, o Sr. Dinheiro do Fantástico, João está mais do que certo. “Para fazer sobrar é só não gastar mais do que ganha. Simples.” E para quem ainda se sente deslocado ao seguir os passos da educação financeira, Ewald é direto: “Os outros é que são burros”. Segundo ele, quem vive no cheque especial ou no rotativo o cartão de crédito está errado. “Passar uma emergência na vida, tudo bem. Mas quem vive a vida toda assim é burro. Quando falo que quem fica no cheque especial está dando dinheiro a um cafetão, as pessoas ficam com raiva. Mas devem acordar para a realidade”, diz o Sr. Dinheiro.

Já o consultor Augusto Sabóia reforça que quem fica enlouquecido, achando que nunca vai conseguir poupar, deve aprender a fazer a coisa certa. Pode começar fazendo uma lista de tudo o que pretende comprar ao longo do ano (incluindo os presentes do Natal) e buscar as promoções para economizar. É preciso aproveitar as chances. Para quem já adotou princípios da educação financeira e consegue poupar e investir, Sabóia diz que a estratégia deve ser mantida. Mas a pessoa deve ficar quietinha. “Você precisa esconder dos seus amigos e parentes, senão eles vão querer o seu dinheiro.”

* Matéria publicada na edição de 04/06/12 do Diario de Pernambuco