A hora da virada – um conto econômico

Dinheiro

Jéssica Carla levantou-se da cama às 7h. Contrariada, como sempre. Horrível ter de acordar praticamente de madrugada para ir trabalhar. Dois ônibus. Engarrafamento. Calor dos infernos. Duas horas até chegar ao shopping. Vida de emergente da nova Classe C ainda não é tão fácil como aparece na TV. Pelo menos o expediente é no ar-condicionado.

Mas só tem isso de bom. Anda faltando paciência para agüentar a frescurite das clientes. “Não gosto de estampa”, diz uma. “Essa roupa me engorda”, diz outra. “Esse modelo me deixa feia”, reclama a madame vestida de Lady Gaga. Pense numa vontade de dizer para a criatura que, no caso dela, talvez só a plástica resolva. E olhe lá. Mas isso vai mudar. Ah, vai.

Amanhã à noite, ela será uma nova Jéssica Carla. Ela será rica! Rica, não. Milionária! Da Classe C para a Classe A+. Vai ter grana para comprar o alfabeto inteiro, se assim desejar. Já pode ver as manchetes: “Mega da Virada sai para um apostador do Recife”. Apostadora, isso sim. Vai ficar três vezes mais rica que a Griselda da novela. Mas sem bigode ou macacão.

Os bilhetes estão bem guardados na gaveta das calcinhas. Para dar sorte. Fez 20 jogos simples e gastou R$ 40. Encarou como um investimento necessário. Para isso, abriu mão de sair com Roberta Kelly, Leide Dái e Keyla Christiny sexta-feira passada. As amigas de todas as horas não entenderam. Como assim a baladeira das baladeiras não vai para a balada?

Na vida, você tem de fazer escolhas. Ao menos foi isso o que ela leu em um livro de auto-ajuda financeira que comprou na promoção. Jéssica escolheu ficar rica. E já tem todos os planos para a vida pós-periferia. Vai morar na beira-mar. Isso é certo. Acordar todos os dias olhando para a areia da praia é bem mais chique do que abrir a janela e dar de cara com o Canal do Arruda.

Mas não vai mudar de time. Isso não. Tricolor até morrer. Se bem que, quando estiver passeando com Britney Spears, a cachorrinha mais linda do mundo, e encontrar os rapazes no calçadão, vai dizer que acha o Messi um craque de bola. E que Neymar um dia chega lá. Aprendeu como impressionar.

Jéssica Carla já planejou tudo. Sabe exatamente em qual agência vai se apresentar como a mais nova milionária do Brasil. Só não pode ser na de Reginaldo, o ex-namorado cabra safado que a trocou pela vizinha dez anos mais nova. Praticamente uma criança. Nunca pensou que isso poderia acontecer com ela, na flor dos 28 anos.

Chorou tanto quando soube da traição. Perguntou o que havia de errado. Reginaldo parecia um homem tão apaixonado. Jurava amor eterno. Dizia que iriam se casar quando ele terminasse a faculdade de relações públicas. Largou a faculdade. E a namorada. Mas ele ainda vai saber o que perdeu.

Jéssica não vai à agência logo na segunda-feira. Quer esperar pelo menos um mês. Difícil se segurar. Mas a idéia é manter o mistério. Ela também não vai sumir do emprego na loja. Quer continuar trabalhando durante janeiro e cumprir o aviso prévio. Uma jogada de mestre. Assim ninguém vai desconfiar. Muito menos a metida da Dilma.

Só porque tem o nome da presidente, ela acha que pode passar por cima dos outros. Cretina. Vive babando o chefe para conseguir sair mais cedo, sem terminar de arrumar as roupas que as madames reviraram na loja. O que é dela está guardado. O dos outros também. Mais de uma vez, Jéssica pensou em se vingar dos desafetos do trabalho.

A vingança envolvia contratar alguém para gritar umas verdades na porta da loja. Com um megafone na mão, claro. Todo mundo iria conhecer Dilma, a babona. E Roberval, o gerente preguiçoso. E Ana Amélia, a fofoqueira. Depois pensou melhor e decidiu que não valia o esforço. Melhor se concentrar em ser uma milionária.

A primeira coisa a fazer é marcar a viagem para a Europa. E daí que eles estão em crise? Depois de amanhã, crise é uma palavra que não fará mais parte do dicionário de Jéssica Carla. Ela quer começar a viagem por Lisboa. Ouviu tanto a colega Carmem falar sobre a capital portuguesa depois que ela voltou da viagem de quatro dias, parcelada em dez vezes no cartão.

Jéssica bem que queria visitar primeiro os States, mas ficou com preguiça de ir ao consulado e responder as perguntas para tirar o visto. Também ficou com medo de ser barrada se dissesse que ainda não tinha passagem ou dinheiro para a viagem, mas que tudo se resolveria na noite de 31 de dezembro, quando ela ganhasse na Mega da Virada.

Ah, a Mega. Olhou na gaveta das calcinhas para ver se os bilhetes estavam lá. Todos juntos, presos por um clipe rosa chiclete, fashion até dizer basta. Como ela será. Fechou a gaveta, pegou a bolsa e saiu para o penúltimo dia de trabalho antes de se tornar milionária. Amanhã à noite, Jéssica Carla vai acertar os seis números da loteria. Sozinha.

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