A franqueza é uma característica marcante do povo norueguês. Se não gostam de algo (ou se gostam), eles dizem na hora. Não poderia diferente, portanto, com a embaixadora da Noruega no Brasil, Turid Bertelsen Rodrigues Eusébio. Ela fala sem meias palavras sobre o que vem dando certo no país onde nasceu. A mesma franqueza aparece na hora de falar sobre os problemas enfrentados, especialmente com o aumento da imigração. Achou o sobrenome dela aportuguesado demais? É que a embaixadora é casada há 26 anos com o português Manuel Rodrigues Eusébio. Turid é mãe de quatro filhos: dois nascidos em Portugal e dois no Brasil, quando trabalhou como diplomata nos anos 1980. Deve ter sido um tantinho complicado assistir ao jogo entre as duas seleções na Copa.
A Noruega tem a melhor qualidade de vida do mundo, segundo a ONU. Mas o que é qualidade de vida para os noruegueses? Apenas bonssalários, educação e saúde de graça? Ou existe algo mais?
Uma pesquisa dessa natureza nunca será exata. Acaba por excluir muita informação valiosa e não deve ser confundida com um padrão de felicidade. Para os noruegueses em geral, valores como paz, autodeterminação e igualdade são muito importantes. É importante aproveitar a natureza em sua plenitude. Atividades ao livre, como esqui, escalada, caminhadas, são muito valorizadas. Sistemas de saúde e previdência bem desenvolvidos, em caso de doenças e perda de renda, também são muito importantes. Bons salários são, obviamente, relevantes. Mas acredito que ter um trabalho interessante e satisfatório é ainda mais importante.
Por ser um país rico, a Noruega também convive com um movimento de imigração, especialmente na região de Oslo…
A Noruega enfrenta um fluxo elevado de cidadãos estrangeiros, incluindo África e Ásia. A maioriaé por motivo de asilo político, refugio ou razões humanitárias. Atualmente, o fluxo imigratório tem aumentado por motivos de reintegração familiar, ou casamentos em famílias de imigrantes na Noruega.
Como o país lida com os imigrantes, especialmente os que não têm alta capacitação profissional?
É claro que é muito difícil integrar uma sociedade de alta tecnologia como a Noruega, onde há poucos empregos para pessoas sem qualificações e competências linguísticas. As autoridades fazem muito para integrar estas novas populações. A população em geral está ajudando os novos vizinhos. Grupos da sociedade civil também. Mas não tenho certeza se estamos sendo tão bem sucedidos como gostaríamos. Um grande número de imigrantes parece nunca se integrar, permanecendo toda a sua vida sob o benefício social, nunca aprendem o idioma norueguês. Eles acabam por não permitir que seus filhos se encaixarem à forma de vida norueguesa.
Quais as razões para isso?
Dentre as várias possíveis razões, acredito que sejam as expectativas muito irrealistas sobre vida na Noruega. O clima é duro, com invernos longos e frios. Os noruegueses são pessoas fechadas. Os salários são altos, mas as pessoas têm muitos anos de escolaridade e a disciplina de trabalho é elevada. A renda familiar na Noruega é baseada em dois salários. O marido e a esposa contribuem igualmente. Mulheres norueguesas se orgulham de ter o direito de determinar sua própria vida. Tudo isto pode representar um desafio para muitos imigrantes.
O Brasil é a “bola da vez” no mercado mundial do petróleo. Como o país deve agir para que a riqueza que será obtida no setor seja mais bem distribuída?
Eu não posso responder pelo Brasil. Seu país é abençoado com enormes recursos energéticos e naturais, terras para agricultura. Espero que as novas descobertas do pré-sal sejam uma bênção e que o governo esteja preparado para fomentar o desenvolvimento social e econômico.
* Entrevista publicada na edição de 18/07 do Diario de Pernambuco
