Pouco a pouco, o mercado de ações começa a fazer parte da vida dos brasileiros. Mesmo quem nunca investiu, ao menos já ouviu falar. Ou viu na TV um daqueles gráficos que mais parecem um eletrocardiograma. O site Quer ser $ócio? – criado para incentivar os brasileiros a investir na Bolsa de Valores e que tem Pelé como garoto-propaganda – é um sucesso de público. Registrou mais de 600 mil acessos desde que foi lançado, em agosto do ano passado. O rei do futebol também vem aparecendo em propagandas na TV. Parece mesmo tudo lindo e maravilhoso. Parece. O número de investidores individuais vem caindo mês a mês. Em setembro de 2010, foram contabilizadas 630.895 contas, o recorde. Mês passado havia 596.571.
A saída de quase 35 mil pessoas pode ser reflexo do atual momento da Bovespa, que acumula queda de 10% no ano. Também confirma que as pessoas vão à Bolsa quando a tendência é de alta e quando são feitas ofertas de empresas mais conhecidas. Mas será que vale a pena sair do mercado de ações neste momento de baixa do mercado? Os especialistas dizem que não. “As pessoas que entram no mercado de capitais sem nenhuma orientação encontram um movimento contrário e acabam se afastando. Mas é preciso ter um planejamento, uma estratégia. Não é porque caiu que a pessoa deve sair”, garante Lúcio Aguiar, gerente de investimentos da área Recife da TOV Corretora.
Ele recomenda que, antes de investir, o candidato a acionista procure orientação profissional (pode ser alguém do banco ou de corretora). Depois é preciso estabelecer um planejamento. De preferência para o longo prazo. Lúcio compara o mercado de ações a um plano de previdência privada, onde é preciso fazer depósitos mensais. “A Bolsa não vai ficar só caindo. Voltará a subir e a pessoa terá o retorno desejado”, afirma. Para Geraldo Soares, superintendente de relações com investidores (RI) do Itaú Unibanco, a redução está diretamente relacionada à subida da taxa de juros, iniciada pelo Banco Central para combater a inflação. “As pessoas tiram da Bolsa e investem em títulos públicos, sem risco.”
Através de nota, a direção da Bovespa respondeu que “a Bolsa não se prende a uma queda pontual no número de pessoas físicas”. Ela acredita que isso não reflete a tendência de crescimento iniciada em 2002, quando teve início o programa de popularização. Naquele ano, havia apenas 85.249 pessoas inscritas. Quem também não se abala com as recentes quedas da Bovespa é o estudante de economia Adamo Vasconcelos, 24 anos. Ele começou a investir em ações há sete meses. Hoje tem cerca de R$ 5 mil aplicados. Prefere administrar tudo pessoalmente. “A queda é normal. Uma coisa que a pessoa deve ter em mente é que o risco na renda variável é maior. Deve estar preparada, consciente, seguir o planejamento e não se desesperar.”
Adamo já fez cursos sobre como investir na Bolsa e lembra que o acionista não deve concentrar as aplicações apenas nas ações. É preciso deixar dinheiro nos investimentos tradicionais, como a poupança. Ele planeja montar uma carteira de investimento para o longo prazo. Diz também que, quando tiver um filho, vai montar uma carteira só para ele. O plano de ser pai não é para agora. Mas Adamo está no caminho certo.
* Matéria publicada na edição de 30/05 do Diario de Pernambuco
