Hoje tive vergonha de morar no Recife. Tive mesmo. A cidade, mais uma vez, fez jus ao nome de Veneza Brasileira. Só faltaram as gôndolas. Mas o romantismo da cidade italiana passa longe daqui.
Depois de não conseguir sair de casa para ir trabalhar pela manhã (o trabalho foi feito de casa mesmo), li relatos de colegas que passaram a manhã inteira “boiando” de um lado para outro até chegar no jornal. Três, quatro, cinco horas depois.
As redes sociais deram o retrato do dia de chuva. Ruas transformadas em rios, ratos e baratas dividindo os locais secos com quem tentava se abrigar. Um jacaré capturado na Avenida Caxangá. Arrastão na Agamenon Magalhães.
Estou agora no aeroporto, onde só consegui chegar por causa da destreza de seu Luiz, um taxista que quase teve um treco quando eu disse meu destino. Mas foi em frente. E foi ao lado, de marcha à ré.
“Agora estou respirando sem a ajuda de aparelhos”, disse seu Luiz, com bom humor, depois de passar pelo Pina, com a Avenida Domingos Ferreira completamente alagada.
O carro anfíbio do taxista já tinha passado por um sem número de rios e riachos causados pela chuva. Já tinha desviado de alguns engarrafamentos e ficado preso em outros. Procurei os homens da CTTU. Vi uns três ou quatro em todo o trajeto.
Vi o metrô parado em Joana Bezerra. O mesmo metrô que será o único meio de transporte para quem quiser acompanhar o jogo de estréia da Arena Pernambuco, na próxima quarta, entre Náutico e Sporting.
No aeroporto eu ouvi. Ouvi relatos de gente daqui e de fora sobre o caos. Um passageiro de fora disse que jamais moraria aqui. Lembrou que não existem rotas alternativas para chegar ao aeroporto. Outra passageira concordou. “Deus me livre desse trânsito”. Ela não estava falando só sobre o dia de chuva.
Fiquei com vontade de retrucar. De falar das coisa bonitas que o Recife tem. Não fiz. Hoje concordei com tudo o que eles falaram. Só quero ver o que as “autoridades” vão dizer.
Senhor prefeito, será que o senhor vai me fazer mudar de idéia? Vai me fazer não sentir vergonha da minha cidade toda vez que chove? Ou vai ficar repetindo aquele velho discurso de que foi um dia atípico?

