“Comprei meio quilo de farinha pra fazer farofa, pra fazer farofa-fá.”
Se o clássico de Mauro Celso, de 1975, fosse composto agora em 2013, talvez ele tivesse de fazer esta pequena adaptação. Ok, nem tão pequena assim. Mas fazer o que, com o quilo da farinha de mandioca custando os olhos, os ouvidos e o nariz da cara? Mainha voltou da feira, anteontem, escandalizada. Pagou R$ 6 pelo quilo. Pudera. Segundo o IBGE, o produto aumentou 189,94% nos últimos 12 meses na Região Metropolitana do Recife.
“Está tudo caro, minha filha. Não é só a farinha. A batata está cara, a cenoura”, ela me disse. E o tomate? Ela não comprou. Deve comprar na próxima semana. E vai voltar reclamando dos preços novamente. A inflação dos alimentos continua firme e forte. E vai continuar por mais algum tempo. Com o tempo os preços vão cair. Mas, antes de melhorar, deve piorar mais um bocadinho. Não sou eu que estou dizendo. É o povo que entende de economia.
Conversei com o economista Luiz Maia, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Para ele, o mais provável é que esse pico de preços do setor de alimentos ainda dure mais alguns meses. “Essa tendência não é permanente, mas estamos chegando no meio do ano. E não é um período fácil para o setor agrícola. Mas essas elevações de preços têm efeito cíclico. A tendência é que dê um alívio no segundo semestre.” Ao menos isso.
Tomate e farinha vão dividir espaço terça e quarta com outra palavrinha: Selic. É que tem reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). O povo só tem uma pergunta na cabeça. E agora, Banco Central? O estouro da manada, ou melhor, o estouro do teto da meta da inflação (que é de 6,5% e fechou em março em 6,59% ao ano) pode fazer o BC mexer na Selic. Luiz Maia acredita que o BC não pode mais segurar a alta.
A equipe de Alexandre Tombini vem pagando para ver nos últimos meses e deixando a Selic em 7,25% ao ano, o menor nível da história da taxa básica de juros do país. “Eles falam que as pressões são temporárias. Não querem gastar bala. Só que, a partir do momento em que estoura o patamar de tolerância, tem que mexer. Agora já não tem como ficar torcendo para a inflação cair”, afirma Luiz Maia. Subindo ou não subindo, os impactos para os preços serão relativamente pequenos.
O X da questão é saber se a mágica de Tombini, as loucuras de Mantega ou a torcida da presidente Dilma farão a economia crescer. O sonhado “pibão grandão” ainda parece distante. O objetivo do governo para este ano é crescer 4%. “Como um ano de recuperação não vai ser muito próspero, não. Talvez no quarto trimestre a inflação esteja mais próxima da meta, os empresários mais otimistas”, acredita Luiz Maia. Sei não. Acho que é bom a gente começar a cruzar os dedos desde já.



Tá certo que tinha gente que achava que o Copom poderia ter baixado até um pouquinho mais a taxa Selic. Mas o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, exagerou. Vejam só o comentário dele após a divulgação da queda de 1 ponto percentual da taxa: