Como fiz nos últimos anos, juntei dinheiro para passar umas semanas na Europa nas férias, que infelizmente acabaram na última terça-feira (snif, snif, snif). Pude acompanhar de perto novos capítulos da crise que grudou no continente como música de gosto duvidoso e que não quer ir embora.
A bola da vez é o Chipre, ilha no Mar Mediterrâneo com pouco mais de um milhão de habitantes. Para que o país receba um empréstimo de 10 bilhões de euros, valores acima de 100 mil euros depositados nos bancos foram confiscados pelo governo. Isso parece familiar? Pois é. Vivemos isso aqui com o Plano Collor.
Eu não estive no Chipre durante as férias. Mas fui à Bélgica, sede da União Europeia, onde milhares de pessoas foram às ruas num protesto contra as ações de austeridade econômica. O protesto foi justo no dia em que os chefes de Estado e Governo dos países membros estiveram reunidos no Parlamento.
Hoje, há mais de 26 milhões de desempregados na Europa. Conversei com pessoas que disseram que o desemprego entre os jovens é o que mais assusta. Também fui à França, que só parece glamourosa com chuva num filme de Woody Allen. São Pedro foi malvado comigo.
Paris continua linda, claro, mas achei a cidade mais suja e com mais gente pedindo dinheiro nas ruas do que da primeira vez, em 2010. De Paris fui para a Espanha (Barcelona e Madri), onde a crise ainda está estampada nos cartazes de “aquiler” e “venta” dos imóveis.
Entre 2007 e o primeiro semestre de 2012, houve no país cerca de 400 mil execuções hipotecárias. Quem não consegue pagar os financiamentos vai para a rua. Dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) mostram que entre 5 milhões e 6 milhões de moradias no país estão vazias. É muita coisa.
Em Barcelona, conversei com dois taxistas bem simpáticos que falaram um pouco (na verdade, falaram muito. Como eles gostam de falar!) da crise por lá. Um disse que gostaria muito vir ao Brasil para a Copa, mas como os bancos cortaram bastante o crédito e aumentaram os juros, ele vai acompanhar os jogos da Fúria pela TV.
O outro taxista, quando soube que eu era brasileira, falou que Brasil e Chile é que estão bem. Contei a ele do Pibinho de Mantega do ano passado. “Ah, mas isso não é nada. Vocês estão bem.” É, pode ser. Melhor que eles, pelo menos. Minha viagem acabou com uma parada vapt-vupt em Lisboa.
Seu João, taxista e guia a quem sempre recorro quando vou para lá, também me falou sobre a crise. “Não melhora nada neste ano.” Fizemos um giro rápido pela capital portuguesa e pude constatar pelo menos em um local a crise passa a léguas de distância: a fábrica dos deliciosos Pastéis de Belém.
Havia fila para quem queria comprar no balcão. E os salões estavam lotados. Esperamos uns 15 minutos por uma mesa. Além dos pastéis de nata, pedi bolinhos de bacalhau. Eles chamam de pastéis de bacalhau. Mas são bolinhos! Deliciosos também, mas são bolinhos e não pastéis. Será que é piada de português?
