Até tu, Charles?

The Veg Shed-1O príncipe Charles fechou a loja de produtos orgânicos The Veg Shed, que mantinha há oito anos perto de seu palácio de campo Highgrove, em Gloucestershire, no sudoeste da Inglaterra.

O motivo? Não foi a proximidade de virar vovô. Foi a crise mesmo. As vendas despencaram.

“Esta foi uma decisão difícil de ser tomada por nós, e gostaríamos de pedir desculpas pelo inconveniente que isso vai causar. Gostaríamos de agradecer a todos os nossos clientes por seu valoroso apoio”, disse um comunicado no site da Veg Shed.

Uma porta-voz do príncipe informou que a loja fechou depois de não conseguir lucrar. Ela já não era mais financeiramente viável.

Principe CharlesOs produtos estavam invariavelmente mais caros do que os comercializados nos supermercados locais.

O príncipe havia transformado o palácio em uma fazenda de agricultura orgânica em 1986. As frutas e vegetais orgânicos têm formatos diferentes, que seriam normalmente rejeitados pelos supermercados.

Mas o cultivo seguirá. As vendas também. Só que apenas pela internet, com menos custos.

Meu país, vou-me embora!

Portugal FuturoNão, eu não estou indo embora. São os europeus que estão arrumando as malas. Cerca de um milhão deles já deixaram seus países de origem desde 2008 por causa da crise. Saem em busca de trabalho, de melhores condições de vida. Situações que a gente costumava ver nos países do terceiro mundo.

Em Portugal, 240 mil foram embora nos últimos dois anos, segundo dados do governo. A taxa de desemprego é de 17%. Parte desse povo está indo, vejam só, para Angola. Foram 30 mil só no ano passado. Nem na época em que Angola era colônia havia tantos portugueses.

A música “Meu país”, do cantor de rap Valete, conta justamente a história de um sujeito que decide deixar Portugal e ir para Luanda. “Levo quase tudo, até o meu kimodo de judô”. “Minha volta é um ponto de interrogação.” “Quanto há trabalho, são sempre temporários.”

No vídeo abaixo você confere a letra forte e triste do rap, que virou um símbolo por lá:

No último dia 1º de maio, os trabalhadores foram às ruas protestar contra os cortes e as políticas de austeridade do governo. Protestaram na capital, Lisboa, nas cidades do Porto, Coimbra, Évora, Faro, na Ilha da Madeira, nos Açores.

Em 2011, Portugal assinou um resgate financeiro de 78 bilhões de euros. O cinto foi apertado. Mas o crescimento não foi retormado. O Produto Interno Bruto caiu perto de 7%. Só no ano passado a queda foi de 3,2%.

Lá vem a turma do barril

Espanhois barrilOs espanhóis saíram às ruas para protestar no 1º de Maio. E os protestos continuaram nesta quinta-feira. Um trio usou fantasias de barris na cidade de Bilbao para mostrar que os cortes na área social estão deixando o povo até sem as calças.

Os rapazes ficaram parados, segurando cartazes, em frente à sede do Partido Nacionalista Basco (PNB). A Espanha sofre com o desemprego de quase 30%. O PIB caiu 1,37% no ano passado. E no primeiro trimestre de 2013 caiu mais 0,5%.

Um relatório divulgado há duas semanas pelo FMI deve ter deixado o povo ainda mais pra baixo. Segundo o documento, esta será a década perdida para a economia do país europeu.

O relatório do FMI aponta que a economia espanhola não voltará a crescer a um índice acima dos 2% anuais até pelo menos 2019 (a previsão para este ano é de queda de 1,6%). Já o desemprego ficará sempre acima dos 20%.

A situação não está nada fácil por lá. Para completar, Real Madrid e Barcelona foram eliminados nas semifinais da Liga dos Campeões por Borussia Dortmund e Bayern de Munique.

E o todo-poderoso Barça, então? Levou de 7 a 0 do Bayern (no agregado dos dois jogos). Angela Merkel deve estar pensando: “Estão vendo que a Alemanha é quem manda na Europa? Na economia e no futebol.”

No lugar das crianças, os bichos

Pedinte com gatosUma prática comum, infelizmente, no Brasil são adultos usando crianças como “adereço” para pedir esmola. Colocam bebês ou crianças um pouco maiores no colo e vão atrás de “um trocadinho”. Isso quando não fazem as próprias (as maiores) saírem pelas ruas pedindo.

Nas férias, na Europa, notei um aumento do número de pedintes nas ruas. Reflexo, naturalmente, da crise econômica que castiga o Velho Mundo. Mas duas coisas me chamaram atenção: a quantidade de gente jovem e o uso de bichos de estimação com “escada”. Ou coadjuvantes, como preferirem. Amuletos, talvez?

O que eu vi em Bruxelas, Paris, Madri e Barcelona foi que, quem estava com animais, recebia mais trocados do que quem estava sozinho (jovem ou velho). As duas fotos que ilustram este post foram tiradas em Barcelona.

Queria saber de vocês se: 1º costumam dar esmola, 2º ficariam sensibilizados e dariam esmola a quem estivesse pedindo acompanhado por cães ou gatos.

Pedinte jovem

O que pensar da Europa

O pensadorComo fiz nos últimos anos, juntei dinheiro para passar umas semanas na Europa nas férias, que infelizmente acabaram na última terça-feira (snif, snif, snif). Pude acompanhar de perto novos capítulos da crise que grudou no continente como música de gosto duvidoso e que não quer ir embora.

A bola da vez é o Chipre, ilha no Mar Mediterrâneo com pouco mais de um milhão de habitantes. Para que o país receba um empréstimo de 10 bilhões de euros, valores acima de 100 mil euros depositados nos bancos foram confiscados pelo governo. Isso parece familiar? Pois é. Vivemos isso aqui com o Plano Collor.

Eu não estive no Chipre durante as férias. Mas fui à Bélgica, sede da União Europeia, onde milhares de pessoas foram às ruas num protesto contra as ações de austeridade econômica. O protesto foi justo no dia em que os chefes de Estado e Governo dos países membros estiveram reunidos no Parlamento.

PedinteHoje, há mais de 26 milhões de desempregados na Europa. Conversei com pessoas que disseram que o desemprego entre os  jovens é o que mais assusta. Também fui à França, que só parece glamourosa com chuva num filme de Woody Allen. São Pedro foi malvado comigo.

Paris continua linda, claro, mas achei a cidade mais suja e com mais gente pedindo dinheiro nas ruas do que da primeira vez, em 2010. De Paris fui para a Espanha (Barcelona e Madri), onde a crise ainda está estampada nos cartazes de “aquiler” e “venta” dos imóveis.

Entre 2007 e o primeiro semestre de 2012, houve no país cerca de 400 mil execuções hipotecárias. Quem não consegue pagar os financiamentos vai para a rua. Dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) mostram que entre 5 milhões e 6 milhões de moradias no país estão vazias. É muita coisa.

Prédio em BarcelonaEm Barcelona, conversei com dois taxistas bem simpáticos que falaram um pouco (na verdade, falaram muito. Como eles gostam de falar!) da crise por lá. Um disse que gostaria muito vir ao Brasil para a Copa, mas como os bancos cortaram bastante o crédito e aumentaram os juros, ele vai acompanhar os jogos da Fúria pela TV.

O outro taxista, quando soube que eu era brasileira, falou que Brasil e Chile é que estão bem. Contei a ele do Pibinho de Mantega do ano passado. “Ah, mas isso não é nada. Vocês estão bem.” É, pode ser. Melhor que eles, pelo menos. Minha viagem acabou com uma parada vapt-vupt em Lisboa.

Fábrica dos Pastéis de BelémSeu João, taxista e guia a quem sempre recorro quando vou para lá, também me falou sobre a crise. “Não melhora nada neste ano.” Fizemos um giro rápido pela capital portuguesa e pude constatar pelo menos em um local a crise passa a léguas de distância: a fábrica dos deliciosos Pastéis de Belém.

Havia fila para quem queria comprar no balcão. E os salões estavam lotados. Esperamos uns 15 minutos por uma mesa. Além dos pastéis de nata, pedi bolinhos de bacalhau. Eles chamam de pastéis de bacalhau. Mas são bolinhos! Deliciosos também, mas são bolinhos e não pastéis. Será que é piada de português?

Pastéis e Bolinhos

Obama corta na própria carne

Barack Obama, presidente dos States, ganha um salário de US$ 400 mil (pouco mais de R$ 800 mil) por ano. Mas em 2013 ele vai ganhar um pouco menos, segundo o jornal “The New York Times”.

Uma reportagem publicada pelo jornal mostra que Obama deve devolver cerca de 5% dos rendimentos ao Departamento do Tesouro. Bondade? O presidente diz que é solidariedade com os funcionários públicos.

Por conta da crise e do corte no orçamento federal – de US$ 85 bilhões – muitos servidores terão as jornadas de trabalho e os salários reduzidos.

A redução do salário de Obama será retroativa a 1º de março, quando entraram em vigor os cortes. Será equivalente a US$ 16,6 mil no ano.

Parece pouco? Pode ser. Mas acho que o gesto é válido.

Final da crise

Torcida da espanha. PIERRE-PHILIPPE MARCOU/AFP

Espanha e Itália fazem a final da Eurocopa, neste domingo, em Kiev, na Ucrânia. Os jogadores da Alemanha, cotadíssimos para levantar a taça, estarão só assistindo (ou não). Angela Merkel, a primeira-ministra, deve estar pensando agora: “Mas eles estão em crise e nós não. Como é que vamos salvar o euro se não conseguimos nem ganhar a Eurocopa?”

Pois é, dona Merkel. Que coisa, hein? A senhora deve ter ouvido um monte de piadinhas durante a reunião dos 27 chefes de Estado e de governo da União Europeia, ontem e anteontem, em Bruxelas. Principalmente porque os debates da quinta-feira foram interrompidos para que todos assistissem à semifinal entre Alemanha e Itália. Ui.

A crise no país da bota está grande. O governo italiano aprovou o resgate do banco mais antigo do mundo em atividade, o Banca Monte dei Paschi di Siena (fundado em 1472). Quando visitei Siena (cidade belíssima, por sinal), no ano passado, percebi como o pessoal de lá falava com orgulho do banco. Agora ele vai fechar 400 agências e demitir cerca de 4,6 mil empregados.

A Itália está em recessão, como a Espanha, que passou o pires e pediu oficialmente ajuda esta semana para recapitalizar seus bancos. Logo em seguida, 28 deles foram rebaixados pela agência de classificação de risco Moody’s. No começo do mês, outra agência, a Fitch, desceu em três níveis a nota soberana da Espanha. Baixou de A para BBB. Já pode chamar o Pedro Bial e mandar todo mundo para o confessionário.

Outro dado ruim: a Espanha tem a maior percentagem de “nem-nem” entre os 34 países que formam a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os “nem-nem” não são bebês. São os jovens de 15 a 24 anos que “nem” estudam, “nem” trabalham. De acordo com a OCDE, eles são 38% da massa jovem espanhola. Complicado.

Parece que só o esporte vem dando alegrias aos espanhóis. Além da seleção de futebol, o país tem Rafael Nadal, o rei dos reis do saibro no tênis, sete vezes campeão em Roland Garros. Na Fórmula 1, o bicampeão Fernando Alonso chorou de alegria no último domingo, ao vencer o GP  da Europa, em Valência. E destacou a superação do povo local frente à crise econômica.

Enquanto isso, na Alemanha sem crise, Angela Merkel declarou – antes das semifinais da Eurocopa – que as reformas estruturais dos países em dificuldade estão “em primeiro lugar na ordem do dia”. Então talvez ela não esteja se sentindo mal, como falei no início do texto. Deixar Itália ou Espanha ganhar o título pode ser o começo da luz no fim do túnel para a Europa. Tomara.

Torcida da Itália. CHRISTOF STACHE/AFP

Bundas, obras, tortas e a crise do euro

Vista de Praga

Eu quase comprei uma bunda nas minhas férias. Infelizmente não achei uma que encaixasse com o meu corpo. Teve outra coisa: os preços das bundas que vi não eram tão atrativos. Decidi que a minha ainda dá para o gasto. Vou dar um trato para usar nas próximas férias. Antes que você me acuse de blasfemar em plena Semana Santa ou ache que eu endoidei de vez, quero deixar bem claro: bunda é jaqueta. Em tcheco.

Preços em PragaPraga foi uma das cidades que incluí no roteiro das férias. Claro que não dá para entender nada do que eles falam ou escrevem. Mas a cidade é linda. A gente ri com coisas como a bunda. E conhece pessoas de todo o mundo como o búlgaro de nome impronunciável que falava um pouco de português e tão logo soube que eu era brasileira saiu-se com esta: “Sua presidente é metade do meu país”, lembrando que o pai de Dilma Rousseff nasceu na Bulgária.

Não gastei minhas korunas (a moeda local) na loja dele, mas muito turista gastou. A República Tcheca faz parte da União Europeia, mas não está na Zona do Euro. E eles não parecem muito interessados em mudar tão cedo. O presidente Vaclav Klaus já lembrou mais de uma vez que o governo só tem de tomar uma posição sobre o euro em 2014. O país também foi o único, ao lado da Grã-Bretanha, que não assinou o pacto orçamentário europeu, apertando as regras fiscais.

Obras em Berlim 1Ao menos em Praga não percebi situações como as que vi em Madri, onde a crise aparece escancarada nas esquinas. Também passei por cidades da Holanda, da Áustria e da Alemanha. Os dois primeiros países foram um pouco mais contaminados pela crise. Mas também não vi ninguém reclamando ou protestando nas ruas. A Alemanha segue como o motor da região. “Crise? Só se for na Grécia”, me disse o brasiliense León, que mora em Berlim há um ano e meio.

A capital alemã é praticamente um canteiro de obras. E ainda precisa? “Berlim sempre está em obras”, respondeu a moça do ônibus turístico. Eles fazem obras, mas gastam dentro do possível, ao contrário dos vizinhos. Por isso ficam incomodados. Não sem razão. Coleta – holandesa que conheci no trem entre Berlim e Dresden – falou sobre o que a maior parte dos alemães, holandeses e austríacos pensa da ajuda financeira dada a países como a Grécia.

“Há questionamentos. Por que dar tanto dinheiro para a Grécia? Ninguém acha que, hoje, o país vai sair do euro. Mas poderia ter saído antes. Será que vale a pena?” A percepção é que tanta ajuda financeira vai pesar depois nos ombros de quem costuma fazer tudo certinho (com o aumento de impostos). Coleta mora há cinco anos em Viena, capital austríaca. Quando falei que iria passar por lá também, ela disse para eu aproveitar os doces do país. Nos cafés definitivamente não há crise.

Pelo meu formato arredondado, Coleta deve ter imaginado que gosto muito de doce. Acertou! Fui comer a tal Sachertorte no Hotel Sacher, onde essa torta de chocolate foi criada no século 19. Servida com chantilly, ela não é muito doce. Acho que por isso não me apaixonei por ela. Mas matei um monte de gente de inveja ao postar a foto no Face. Agora as férias acabaram. Tchau, Europa. Olá, trabalho.

Sachertorte de Viena

Sobrou para os bichanos

Gatos de RomaCom a crise econômica e financeira que engoliu a Itália, acabou sobrando até para os gatos de rua de Roma.

Os bichanos começaram a ficar sem comida, que é dada pelas associações protetoras dos animais. O dinheiro ficou curto depois de cortes no orçamento da prefeitura.

São cerca de 180 mil gatos de rua na capital romana. Muitos vivem em colônias como a do sítio arqueológico da Torre Argentina, no centro.

Quando estive em Roma, no ano passado, vi esta “Gatolândia” e fiquei impressionada. Os felinos têm até calendário.

De acordo com uma reportagem da Agência de Notícias EFE, associações como a Earth vêm advertindo desde junho de 2011 que o Escritório de Bem Estar Animal já não abastece as colônias de gatos da cidade com ração.

Dez anos do euro

Dez anos do euro. Crédito: BCE/Divulgação

Um criança completa dez anos neste 1º de janeiro de 2012. É o euro, a moeda única de – atualmente – 17 países da União Europeia.

Estes dez anos são da moeda física. Na verdade, o euro começou a existir em 1999 em 11 países: Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda e Portugal.

Em 2001, a Grécia aderiu (tem gente hoje no Banco Central Europeu que deve estar arrependido desta inclusão).

Portanto, em 2002, 12 países trocaram suas moedas pelo euro. De lá para cá, houve mais cinco inclusões: Eslovênia (2007), Chipre (2008), Malta (2008), Eslováquia (2009) e Estônia (2011).

Antes de aparecer para o mundo como moeda palpável, foi preciso começar a produzir cédulas e moedas. Isso aconteceu em julho de 1999. Em dois anos e meio, 15 fábricas produziram 14,9 bilhões de notas e 52 bilhões de moedas.

De acordo com o Banco Central Europeu (BCE), hoje, o euro é utilizado por 332 milhões de pessoas nos 17 stados-membros. Em meados de 2011, havia em circulação 14,2 bilhões de notas e 95,6 bilhões de moedas. Somando todos os valores de face, o montante total em circulação era de 847 bilhões de euros em notas e 22,8 bilhões em moedas.

Em 2011, o que mais a gente ouviu foram previsões catastróficas para o fim do euro. Espero que isso não aconteceça. “O fim do euro seria o fim da Europa”, afirmou o presidente francês, Nicolas Sarkozy.

Concordo com o marido de Carla Bruni. Vamos torcer para que a crise seja resolvida. Mas acho uma ironia o BCE ter divulgado a foto acima. Faz a gente pensar que o euro está com o pires na mão.

O site do BCE traz tudo sobre a história da moeda. Basta clicar aqui. Está em português (de Portugal).

O BCE também produziu um vídeo sobre os dez anos (também em português). Segue o vídeo: