Não bote fé no velhinho

Taro Aso“O problema não tem solução, a não ser que os deixemos morrer (os idosos), e depressa”.

A frase acima é de Taro Aso, ministro das Finanças do Japão. Para ele, a morte seria a solução para os gastos do país com a saúde pública.

Conhecido por suas polêmicas, Aso, de 72 anos, desta vez passou dos limites. E teve de pedir desculpas após a repercussão negativa da declaração, feita durante reunião do Conselho Nacional de Reformas da Segurança Social, que estuda propostas de reforma do sistema.

Com a delicadeza e a desenvoltura de um elefante em uma loja de cristais, o ministro defendeu que os idosos doentes devem “morrer rapidamente” para aliviar o Estado do pagamento de cuidados médicos: “Deus queira que eles não sejam forçados a viver até quando quiserem morrer.”

Taro Aso também afirmou que ele próprio, se fosse portador de doença terminal, se recusaria a receber qualquer tipo de tratamento que pudesse prolongar a sua vida e onerar o Estado.

O Japão possui quase 130 milhões de habitantes. Cerca de 25% da população têm mais de 60 anos de idade; 40% estão na casa dos 50. O país tem a maior expectativa de vida do mundo, média de 86,4 anos, segundo dados de 2011 da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A declaração foi dada ontem e o pedido de desculpas foi feito hoje. Aso reconheceu que seus comentários foram “inapropriados” e que refletiam sua opinião pessoal e não a do governo.

Acho que ele já pode acrescentar um “n” no sobrenome, entre o “s” e o “o”.

* A dica do post foi de Ana Luiza Machado

Mussalém

Josué Mussalém

Mal tinha aberto os olhos, hoje pela manhã, quando minha mãe anunciou, de sopetão: “Josué Mussalém morreu”.

Como assim? Sério?

“Foi. Eu vi na TV”.

A semana começou triste.

Josué Mussalém era a “fonte” de todas as horas. Minha e de qualquer jornalista de economia de Pernambuco. Ele falava sobre qualquer tema. E o melhor: fazia questão de dizer tudo “bem explicadinho”, sem economês. Tinha uma paciência de Jó.

Mas ele era mais do que isso. Era um sujeito bem-humorado, educado, gente fina mesmo.

Falei com Mussalém pela última vez há três semanas. A pauta era sobre emprestar ou não dinheiro para parente. “Eu não empresto de jeito nenhum”, disse ele. Logo depois soltou uma de suas tradicionais gargalhadas. A conversa seguiu por mais ou menos meia hora.

Agradeci, desejei uma boa noite (sim, Mussalém atendia a gente pela manhã, à tarde, à noite) e pedi desculpas por aperreá-lo mais uma vez.

“Você não aperreia. Pode ligar quando quiser. Até a próxima”.

Infelizmente não haverá mais “uma próxima”. Mas obrigada por todas as outras. De coração.

A sete palmos

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Clientes não faltam. A cada três segundos, uma pessoa morre no Brasil. De morte morrida ou matada. E elas estão lá, esperando. São as empresas do setor funerário, que movimentam por ano R$ 7 bilhões. Um negócio como qualquer outro. Ou cada vez mais um negócio como qualquer outro, com oferta, demanda e, claro, lucro. Bem-vindos à era da convergência, onde um mesmo grupo oferece “soluções completas” para os clientes. Desde o plano funerário ao enterro ou cremação. Que pode ter chuva de pétalas de rosas ou revoada de pombos. E velório on-line, porque tecnologia é tudo.

Desde a última quinta-feira está rolando na bela cidade de Natal o 13º Encontro Nacional de Cemitérios e Crematórios. Pelo menos 200 empresários de todo o país marcam presença no evento, que termina hoje e discutiu temas como o futuro dos planos funerários, o paisagismo nos cemitérios, a divulgação do segmento na mídia. Há pelo menos 300 cemitérios privados no país, gerando algo em torno de 50 mil empregos. O próprio presidente do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, Ercy Soares, destaca esse aumento da convergência.

O Grupo Vila, dono do Morada da Paz, na cidade de Paulista, é um dos mais notórios representantes dessa nova era. Este mês, o grupo inaugurou o primeiro crematório do estado, com direito a forno importado dos Estados Unidos, capaz de transformar em cinzas até nove entes queridos por dia. O pacote básico cremação + urna custa R$ 2,5 mil. O Vila já tinha sido pioneiro no estado em 2003, com a própria inauguração do Morada da Paz, quando lançou o velório virtual, com imagens transmitidas ao vivo direto das salas.

funeral-homeEm São Paulo, a empresa Funeral Home oferece desde o ano passado serviços funerários “diferenciados”. São 26 ambientes instalados em um casarão da década de 1920 e seis salas para velório. Só aluguel da mais barata custa R$ 2,5 mil. A família pode contratar também serviços de manobrista, escolher entre três tipos de buffet, encomendar um vídeo com imagens do morto para ser exibido durante o velório nas TVs de plasma espalhadas pela sala. Se quiser a exclusividade do casarão, o cliente tem que desembolsar, no mínimo, R$ 40 mil.

Há também as lembracinhas. Para não ficar apenas no tradicional santinho, a família pode encomendar o “bem-velado”. O nome é esse mesmo e foi descaradamente inspirado no docinho-símbolo dos casamentos. Por último, a música ambiente, ao gosto do freguês. O morto era fã do Sepultura (com o perdão do trocadilho)? Então a família pode sugerir uma seleção de clássicos do heavy metal para embalar o velório. Taí. Gostei da ideia. Quando eu morrer, vou querer só disco music no meu velório. Com I Will Survive encabeçando a lista. Mas não me venham com Disco Inferno. O Coisa Ruim pode pensar que está sendo convidado.

Disneylândia dos mortos

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Era para ser hoje. No dia do aniversário de 51 anos, o corpo de Michael Jackson deveria finalmente descansar em paz. Mas a família decidiu que precisava de mais tempo para organizar o enterro. Como se dois meses não fossem suficientes. Os pais e irmãos de Michael concordaram em pagar todo o custo do “evento”, incluindo a hora extra dos policiais da cidade de Glendale, onde fica o cemitério Forest Lawn Memorial-Park, e a segurança adicional. Deve ficar tudo em US$ 150 mil (cerca de R$ 277 mil).

O valor pode até ser considerado pouco diante da figura do Rei do Pop. Mas, conhecendo a fama da família, é bem capaz de “papa” Joe estar quebrando os cofrinhos de Prince Michael, Paris, e Blanket para levantar a grana. Apesar de deixar a coluna meio mórbida, resolvi pesquisar mais sobre a futura casa de Michael, onde já residem muitos famosos. O cemitério é de 1906. Abriga, entre outros, os atores Humphrey Bogart, Clark Gable, Spencer Tracy, Carole Lombard e Jean Harlow.

Ao lado da calçada da fama, é um dos lugares mais visitados hoje da região. Fazendo uma comparação com algo mais perto, ir até Los Angeles e não visitar Forest Lawn é como ir a Buenos Aires e não dar uma espiadinha no túmulo de Evita na Recoleta. Tem até site que ensina como chegar aos túmulos. O Find a Grave é um deles. O Seeing Stars também mostra.

O Forest Lawn de Glendale é apenas um dos vários cemitérios do grupo. São dez ao todo. O site detalha cada um deles. Entre as informações sobre a futura morada de Michael, vemos que uma das igrejas já recebeu mais de 70 mil casamentos e batismos desde 1923. O grande mausoléu, que é para onde o corpo do cantor será levado, é descrito como a “Abadia de Westminster do Novo Mundo” (a abadia original, em Londres, é palco das coroações da nobreza desde 1066). Chiquérrimo. Um vitral com a reprodução da Última Ceia de Da Vinci – importado da Itália – e de peças de Michelangelo também estão por lá.

Os turistas são convidados a “conhecer esse trabalho espetacular nos 365 dias do ano”. Existe também um museuno cemitério e, claro, uma loja com uma penca de lembrancinhas para ninguém esquecer “das belas coisas que viu durante a visita a Forest Lawn”. Nada parece estranho em um local que também é chamado de Disneylândia dos mortos. Pensando bem, não poderia haver melhor lugar para Michael, aquele que nunca quis deixar de ser criança.

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