O reino de pedra que Ariano não viu

Quase possível ouvir os pífanos e rabecas soarem ao adentrar o grande portão vermelho de um castelo encravado no coração de São José do Belmonte, no Sertão Central de Pernambuco. O museu não-oficial da cidade é a maior apropriação do movimento armorial para a arquitetura que se tem notícia e foi concebido com incentivo e opiniões do escritor Ariano Suassuna, ao longo de quase uma década. Nas paredes, gárgulas e colunas gregas cedem espaço para a poética nordestina, com traços que reproduzem formas de argila trajada de azul ou vermelho, em alusão às cruzadas que dividiam mouros e cristãos, numa Idade Média não vivida mas reverenciada pelo imaginário local.

 

“É uma obra mítica e poética do movimento armorial nordestino”, resume, com orgulho, o comerciante Clécio de Novaes Barros, 49. A pedra fundamental da empreitada foi colocada em junho de 2007 e a inauguração do local, 90% concluído, foi realizada em 2013. São três andares que comportam xilogravuras de J. Borges, fotografias raras, incluindo o projeto para a urbanização do município, de José Pires Ribeiro, do ano 1900, e até uma cidade cenográfica em argila, do artesão vitoriense Zezinho de Tracunhaém.

“Eu ouvia Ariano. Ele dizia ‘No castelo das pedras sertanejas briha o sonho do povo brasileiro’. Eu segui o meu. Certa vez ele me disse ‘o povo me chama de doido também, nem por isso eu deixo de fazer as coisas’”, garante Clécio. A tal “loucura” sempre foi motivo de desavenças familiares, que aceitaram, ainda que sem concordar, com o investimento de cerca de R$ 3 milhões na obra, jamais aberta ao público. “O pessoal prefere pegar dinheiro assim, comprar de voto e multiplicar em quatro anos. Esse é o dinheiro jogado fora, não o aplicado em cultura. Para abrir, teria que contratar gente, moro no Recife… Ninguém se interessou ainda e preciso do poder público porque isso aqui foi feito para o povo. Mas cultura não deve ser cobrada. Para pedir entrada, prefiro manter fechado”.

Particular, o castelo-museu pode até ser para o povo, mas carrega mais que o lirismo de Ariano nos detalhes que ornam cada coluna, sendo um pedaço do próprio Clécio, “o louco”, para alguns. O projeto veio de um esboço num caderno, hoje perdido. Admirador confesso do Centro de Artes e Comunicação, da UFPE (onde ensina-se letras e arquitetura), inspirou-se no prédio para conceber o seu: arriscava um cálculo e arredondava os resultados para cima, usando doses extras de ferragens. Colunas, batentes e para-peitos foram sendo talhados à luz da mitologia sertaneja, em vez da grega, como imagina ser o comum. “Agride, para algumas pessoas, mas é um belo diferente. É nosso”, explica.

A localização do imóvel, a 474 km do Recife, passa longe de por acaso, já que o pequeno município de 34 mil habitantes sedia, na Serra do Catolé, a Pedra do Reino, espécie de santuário a céu aberto repleto de esculturas em alusão ao movimento sebastianista, cuja liderança, no final da década de 1830, coube a João Antônio dos Santos, que se autoproclamou rei. O local, imaginado por Suassuna, deu origem a uma de suas obras mais reconhecidas, A Pedra do Reino, e tornou a cidade capital de cultura armorial do movimento criado em 1974.

Com 1.026 m², o imponente castelo faz uma grande sombra na principal avenida de Sao José do Belmonte. É também uma das poucas construções acima dos 15m de altura. Não há como se manter indiferente. E no entanto, segundo o criador, não foi “achado” por quem pode fazê-lo um patrimônio tão pernambucano quanto ele, de anseios e visões superlativas. A cultura nele guardada, literalmente a várias chaves, segue como realização pessoal de um homem só, tal qual reino sem reinado. “Sinto que meu dever foi cumprido. O tempo se encarrega da obra ter finalidade ou não”, diz, com uma certeza bem distinta de um armorial “só sei que foi assim”…

Distância do Recife

Início da construção

Três andares de pura cultura no interior

Ao longo de três amplos andares, parte da história do Sertão e da construção do imaginário popular retratada nas obras de Ariano Suassuna vão sendo expostas em detalhes construtivos, esculturas coloridas e xilogravuras de artistas locais, em ambiente que virou símbolo do movimento armorial na arquitetura.

Clique e confira as dependências do castelo em 360º

Festival de cores num Sertão quase desconhecido

Castelo de São José do Belmonte é um dos mais próximos de ser considerado 100% concluído, mas segue fechado a visitação, segundo o dono, Clécio Barros, por falta de interesse do poder público

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