
Clóvis Cavalcanti, economista ecológico e pesquisador social
Em que medida o destino do Titanic tem a ver com a conferência da ONU no Rio de Janeiro em 20-22 de junho próximo, a Rio+20?
Nada, aparentemente, uma vez que a grande reunião que se aproxima é uma comemoração da conferência de junho de 1992, a Cúpula da Terra, também conhecida como Rio 92, cujo tema foi meio ambiente e desenvolvimento (o da que irá ocorrer é desenvolvimento sustentável, com ênfase no que se está chamando de “economia verde”). Ambas dizem respeito às possibilidades de se promover oportunidades econômicas à luz das restrições ecológicas do planeta. É aqui que o fim do Titanic no dia 15 de abril de 1912 e o encontro da ONU se cruzariam.
A ideia vem do cineasta James Cameron, diretor do aclamado filme Titanic, que declarou, em recente programa da TV a cabo National Geographic, ser o afundamento do navio uma metáfora do que acontece no mundo, hoje, em termos de arrogância, prepotência e fé na impossibilidade de dar errado o modelo econômico de crescimento que as nações do mundo consideram como solução para o progresso.
Como se sabe, do navio, que fazia sua viagem inaugural, dizia-se que jamais naufragaria. Segundo Cameron, a enorme máquina, “esse sistema humano, marchava para frente com tal dinâmica que não podia dar volta, não podia parar a tempo de evitar um desastre”. A seu ver, “isso é o que temos agora. Não podemos dar meia volta por causa da dinâmica do sistema, da dinâmica política, da dinâmica dos negócios”.
Sobre o assunto, o blogueiro Dave Gardner, no site http://steadystate.org, postou uma coluna (“O Código do Titanic”) no dia 19.4.2012 em que considera a metáfora de Cameron bastante adequada na medida em que o tamanho do navio significa que ele não era ágil. Nem podia parar bruscamente, nem mudar de curso. Era necessário que o comandante pudesse ver muito à frente para sondar o horizonte distante e planejar o curso da viagem com antecedência.
Com uma população de 7 bilhões de pessoas, um PIB de US$ 75 trilhões, cidades em toda parte (do Nepal ao Marrocos, da China ao Brasil) entupidas de carros, obras de infraestrutura monumentais que se erguem de todos os lados, o mundo vê sua máquina econômica mover-se a todo pano, com ímpeto inexorável. Com um agravante: quase ninguém deseja vê-la parar.
Em 1992, percebia-se claramente que a Terra estava com seus limites ameaçados pelo crescimento econômico (ficou pior em 2012). Daí, a noção de desenvolvimento sustentável – que a ONU conceituou como o da economia que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer as possibilidades de satisfação das necessidades das gerações que virão.
O uso excessivo da natureza conduz ao esgotamento não só de recursos não-renováveis, como também de renováveis cujas taxas de reposição não forem respeitadas. Isso é o que se vê agora, com a capacidade de assimilação de CO2 da atmosfera ultrapassada, pesqueiros esgotados, rios que secam, solos que se desertificam, biodiversidade que se extingue.
É nesse contexto que se persegue uma “economia verde”, um sistema que respeite a capacidade da natureza de prover recursos. Sentido da Rio%2b20. Para que não nos aconteça o destino trágico do Titanic.