Belo Monte e Xingu interessam ao mundo inteiro

Diretor do filme Xingu, Cao Hamburger afirma que o debate atual sobre a construção da usina hidrelétrica Belo Monte mostra a necessidade de se recontar a história dos irmãos Villas-Bôas. Sertanistas, os irmãos eram Cláudio, Leonardo e Orlando, idealizadores do Parque Nacional do Xingu.

Abaixo, entrevista de Cao a Camila Estephania, do Diario de Pernambuco:

Como surgiu o desejo de fazer esse filme? 

A partir da leitura do livro Marcha pro Oeste (de Cláudio e Orlando Villas-Bôas). Quando descobri quem eram os irmãos Villas-Bôas, fiquei encantado. A partir disso, fui ao Xingu. Foi uma revelação descobrir os índios daquele região, pois eles têm uma cultura muito desenvolvida e sofisticada. Logo no primeiro contato, você percebe o grau forte de civilização deles.

O filme começou a ser gravado há cinco anos. Ano passado, após a aprovação da construção da usina de Belo Monte, no Xingu, a produção assumiu um sentido? 

Só reforçou o sentido que o filme já tinha. Apesar de ser um trabalho de época, tive a necessidade de mostrar como o tema continua atual e urgente. Toda essa discussão sobre Belo Monte só mostra que essa história precisa ser recontada, não só para resgatar, mas também para lançar luz sobre o século 21, sobre nossos desejos enquanto sociedade e país. Que progresso queremos alcançar.

Seu filme anterior (O ano em que meus pais saíram de férias) traz um olhar diferenciado da ditadura militar, do ponto de vista de uma criança. Em Xingu, a questão da terra também passa por esse período. Qual deve ser o papel do cinema em apresentar essa visão extra-oficial de um momento? 

O papel não deve ser só do cinema, mas também da literatura, da televisão e de outros meios de mídia. Revisitar os momentos marcantes do Brasil rende muita história que dá certo, se for trabalhada com o olhar aguçado, ou seja, sem o rabo preso, com liberdade e responsabilidade com o país.

Como foi ver uma temática tão nacional ser bem recebida no Festival de Berlim?

Demonstrou que o assunto interessa ao mundo inteiro. Essa questão dos rumos da civilização e dos limites do planeta estão na pauta global. A visão dos irmãos Villas-Bôas foi de vanguarda. Eles mudaram todo o paradigma da política. O triste é reconhecer que o precisamos de alguém como eles novamente, pois estamos vivendo um momento político muito perigoso na questão.

Xingu, um filme que remete à hidrelétrica Belo Monte

O filme Xingu, que estreou hoje em circuito nacional, não trata da hidrelétrica Belo Monte, em construção no Pará, mas jogo luzes sobre o empreendimento.

Desde seu anúncio em 2001, o projeto da hidrelétrica tornou-se controverso.

De modo especial, pelo impacto ambiental e pelo direito do estado executar grandes projetos em terras indígenas ou com influência sobre elas.

Belo Monte usará águas da bacia do Rio Xingu, que corre para o Parque Nacional do Xingu, para gerar energia.

O parque nacional, diga-se, existe há 51 anos.

E não foi fácil conseguir a aprovação do parque, que se tornou a primeira terra indígena homologada pelo governo federal.

A ideia nasceu com os irmãos Villas-Bôas, cuja peleja pelo projeto é retratada no filme de Cao Hamburguer.

O filme pode ser visto nos cinemas dos shoppings Recife, Tacaruna e Boa Vista, no Recife, e no Guararapes, em Jaboatão.

No parque do tamanho da Bélgica, vivem mais de cinco mil índios de 14 etnias.

Ambientalistas afirmam que os impactos ambientais de Belo Monte serão irreparáveis. O governo diz ser projeto é imprescindível para o país.

Eis o problema em alguns números:

A dimensão do lago da usina, quando em pleno funcionará, corresponde a cerca de 2% do tamanho do parque nacional.

É uma relação aparentemente pequena, mas o 516 quilômetros quadrados a serem inundados equivalem a 2,3 vezes o tamanho do Recife.

Belo Monte será a terceira maior hidrelétrica do mundo, ficando atrás de Três Gargantas (China) e Itaipu (Brasil e Paraguai).