Marcelo Alcoforado, publicitário
Um dos problemas cruciais do ambientalismo é o uso perdulário do papel, uma indesejável causa de muitas e trágicas consequências. Além de destruir florestas para poder existir, o papel é ― acredite ― poluente, porque, apesar de reciclável, só tem reaproveitamento da ordem de 70%.
Ainda bem que, pelo que se pode deduzir de notícia recente, o problema está praticamente resolvido ou, no mínimo, consideravelmente minorado.
Para isso, de certa forma estamos voltando à Idade da Pedra, embora não nos tornando trogloditas.
Explica-se: o grupo italiano Ogami acaba de criar um papel que não é feito a partir de celulose, mas de pedra. Sim, é o que você leu. Papel feito de carbonato de cálcio, um subproduto de calcário, reaproveitado de pedreiras e dos desperdícios da indústria de construção.
Você pensa que fica só nisso? Fica não! Além de poupar as árvores, o Repap (papel em inglês, escrito ao contrário) dispensa o uso de petróleo, reduz o desperdício de água, emite menos gás carbônico no processo de produção, não contém nenhum tipo de ácido ou cloro e, por fim, ao contrário do papel comum, é impermeável e pode ser apagado para posterior reutilização.
Você acha pouco? Então anote: tem consistência macia e é mais econômico porque a quantidade de tinta, que seca com mais facilidade e rapidez, é reduzida.
Por fim, o Repap, é mais resistente do que os papéis atuais e não precisa ser reciclado. É fotobiodegradável em um período de catorze a dezoito meses, com sua degradação ocorrendo a partir da luz solar, por um processo chamado fotólise. Em outras palavras, transcorrido pouco mais de um ano o papel desaparece completamente, podendo-se prever sua larga utilização nas promessas políticas.
Claro que tantas vantagens esbaram em problemas. Dúvidas, melhor dizendo.
Será que escritas em pedra as palavras mais ásperas ferirão mais profundamente.? Será mais difícil carregar uma longa carta recheada dessas palavras que se reputam, digamos, pesadas?
E os livros, será que pesarão mais? Pesando, haverá um perigo maior a ser ponderado, porque, segundo dizem, quem quiser ferir o ex-presidente Luiz Inácio da Silva atire-lhe um livro á cabeça.
Pensando bem, para a grande solução subsiste mesmo um grande problema. Afinal, volumosos como costumam ser, os pétreos dicionários se tornarão armas fatais. Não só para o analfabetismo, mas também para a própria vida.
Pobre ex-presidente…




