Ética a partir do aquecimento global

Leonardo Boff, filósofo e teólogo

Em alguns lugares da Terra se rompeu, há dias, a barreira dos 400 ppm de CO2, o que pode acarretar desastres socioambientais de grande magnitude.

Se nada de consistente e coletivamente fizermos, podemos conhecer dias tenebrosos. Não é que não podemos fazer mais nada. Se não podemos frear a roda, podemos no entanto diminuir-lhe a velocidade. Podemos e devemos nos adaptar às mudanças e nos organizar para minorar os efeitos prejudiciais. Agora se trata de viver radicalmente os quatro erres: reduzir, reutilizar, reciclar e rearborizar.

Precisamos de uma orientação ética que nos ajude alinhar nossas práticas para a superação da crise atual. Nesse quadro dramático, como fundar um discurso ético minimamente consistente que valha para todos?

Até agora as éticas e as morais se baseavam nas culturas regionais. Hoje na fase planetária da espécie humana precisamos refundar a ética a partir de algo que seja comum a todos e que todos a possam entender e realizar. É o que propunha Paulo Freire com sua Ética Universal do Ser humano que nós acrescentaríamos do ser humano e da Mãe Terra.

Olhando para trás, identificamos duas fontes que orientaram e ainda orientam ética e moralmente as sociedades até os dias de hoje: as religiões e a razão.

As religiões continuam sendo os nichos de valor privilegiados para a maioria da humanidade. Elas nascem de um encontro com o Supremo Valor, com a Última Realidade. Desta experiência nascem os valores de veneração, respeito, amor, solidariedade, compaixão e perdão, fundamentais para a preservação da vida.

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Brasil foge à regra se o assunto é aquecimento global

De 155 países pesquisados pela American Security Project (ASP), o Brasil é um dos 45 que não consideram as mudanças climáticas como questão de segurança nacional.

O Brasil, assim como a Índia, considera as mudanças climáticas somente como um problema ambiental.

A argumentação brasileira, segundo a APS, é de que os impactos ambientais não ameaçam a paz internacional ou a segurança em si mesma.

Estados Unidos e Rússia veem uma relação mais clara, ao contrário do Brasil, entre alterações no clima e a segurança nacional.

Para o governo americano, o aquecimento global poderá contribuir para a instabilidade e para conflitos no mundo.

A Rússia acredita que as reservas mundiais de água, de recursos biológicos e de minerais sofrerão efeitos negativos com o problema.

Apesar das evidências das mudanças climáticas, há países como o Chile e o Uruguai, que não se mostraram preocupados com o tema.

É objetivo da ASP publicar um mapa online, que deve ser atualizado com frequência, sobre os posicionamentos dos países.

Esses posicionamentos é que levarão os governos a definir estratégias para enfrentar o assunto tanto internamente quanto no âmbito internacional.

A verdade sobre o aquecimento global

Felipe Bottini, economista e consultor especial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Já experimentou a sensação de entrar em um carro que ficou muito tempo exposto ao sol? O calor que se sente é resultado do “efeito estufa” dentro do veículo. O calor entra, mas não pode sair e assim, o interior do automóvel fica aquecido. Nosso planeta está sujeito à mesma lei da física e graças aos gases de efeito estufa (que promovem a retenção do calor), podemos viver!

A falta de vapor de água e gases de estufa e até mesmo da própria atmosfera, leva outros planetas a terem diferenças de temperatura de 200 graus Celsius das áreas expostas ao sol para as áreas de sombra. Assim, o dia é escaldante e a noite gélida, sendo a vida impossível.

O aquecimento global possibilita extremos mais próximos e homogeneização das temperaturas, sendo condição fundamental para a manutenção da vida. O problema que se vive hoje é que, o ideal projetado de concentração de CO2 na atmosfera para a manutenção da vida é da ordem de 250 a 280 ppm (partes por milhão) – níveis verificados antes da revolução industrial.

A revolução industrial nos ensinou, entre outras coisas, a obter energia pela queima de combustíveis fósseis e em pouco mais de cem anos a concentração de CO2e na atmosfera passou para 390 ppm. Estima-se que a partir da concentração de 450 ppm existe o risco de entrarmos em um ciclo irreversível, chamado de “feedback positivo”. Nele o aumento de temperatura impede que mares e florestas absorvam CO2 da atmosfera, consequentemente a temperatura aumenta, o que leva a dificuldade maior da natureza sequestrar o carbono e assim por diante.

O assunto é de extrema urgência. Desde o estabelecimento da UNFCCC e do Protocolo de Quioto – criados internacionalmente para combater o aquecimento global, as emissões de gases de efeito estufa não diminuíram.

As previsões do IPCC são de que as emissões médias do planeta durante esse centenário, não sejam superiores a 18 GToneladas ano a ano. As emissões atuais são superiores a 40 Gtoneladas. Esse é o tamanho do desafio que os negociadores enfrentam ano a ano na Conferência das Partes.

Para piorar, o efeito não é sentido uniforme ou regularmente. Ao contrário de colocar o dedo na tomada, onde facilmente aprende-se a lição, nas questões climáticas, quando se sente o choque pode não haver mais tempo para reagir.

Fato é que o mundo não vai acabar. A decisão que devemos tomar é se queremos aprender com nossos próprios erros e agir racionalmente para aumentar nossas chances como espécie de sobreviver ou se vamos lançar à sorte nossa própria existência e continuar negando os fatos.

Aquecimento global acelera floração das plantas

O aquecimento global tem provocado mudanças curiosas e preocupantes.

Pesquisadores constataram que algumas plantas, devido ao aumento da temperatura média do planeta, tiveram as florações e o crescimento das folhas acelerados.

A velocidade das florações chegou a ser 8,5 vezes mais rápida se comparada com 40 anos atrás, enquanto alguns tipos de folhas, no mesmo período, cresceram quatro vezes mais.

Um dos casos analisados foi a floração das cerejeiras de Washington, nos Estados Unidos. As árvores estão com ciclo adiantado em uma semana em relação a 1970.

A mudança tem alterado o comportamento de algumas espécies, a exemplo de pássaros, que anteciparam seus ciclos migratórios.

Isso, segundo os estudiosos, pode estar afetando a polinização e outros serviços dos ecossistemas considerados importantes para a agricultura.

E aqui o que está acontecendo com a natureza? Infelizmente, estudos para mostrar as mudanças não existem ou são raros.

O estudo publicado na revista Nature teve a participação de 20 instituições. Entre elas, as universidades da Columbia Britânica  e de Maryland.

Até 2,5 mil espécies de aves podem desaparecer, neste século, devido aos desmatamento e aquecimento global

A combinação desmatamento e mudanças climáticas pode levar à extinção de 100 a 2,5 mil espécies de aves tropicais. Isso antes do final deste século.

O número é estimado pelo Biological Conservation.

Alguns estudiosos apontam como provável o desaparecimento entre 10% e 14% das aves tropicais, o que representaria entre 600 e 900 espécies.

As espécies de altitudes estão na lista das aves que mais sofrerão com as mudanças climáticas. Com secas e tempestades, elas terão o habitat cada vez menor.

Outros fatores podem contribuir para extinção das aves. Entre eles, o aumento do nível do mar, de doenças, de furacões e de períodos de estiagem.

Desde a Revolução Industrial, a temperatura do planeta subiu 0,8 graus Celsius.

Se a temperatura aumentar mais um grau Celsius, segundo estudiosos, a quantidade de espécies extintas pode ser bem maior do que se estima agora.

Frio na Europa é provocado pelo aquecimento global

O frio extremo na Europa, que já provocou a morte de cerca de 500 pessoas, não desmente o processo de aquecimento global.

Ao contrário, as nevascas seriam sintoma da mudança no clima.

A tese é de cientistas alemães, do Instituto Alfred Wegener para Pesquisa Marinha e Polar. 

Eles afirmam que as baixas temperaturas refletem o rápido degelo do Ártico.

O degelo estaria provocando o aquecimento no oceano, que, por sua vez, não conseguiria impedir que o calor retorne para a atmosfera.

Desse modo, o ar sobre o oceano se aquece provocando o aumento de pressão.

E quando essa pressão é capaz de gerar ventos úmidos, que sopram em direção ao continente europeu, as nevascas aparecem.

O fenômeno ocorre principalmente entre o outono e o inverno.

Nas últimas três décadas, segundo o centro de pesquisa alemão, o Mar do Norte perdeu 20% das geleiras.

Cidades passíveis de inundações, devido ao aquecimento global, vão se reunir no Recife

O Recife vai sediar, no primeiro semestre de 2012, o encontro mundial das cidades passíveis de inundações por conta do aquecimento global.

A reunião está prevista para ocorre dias antes da Conferência da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a chamada Rio+20.

O encontro deve ser organizado dias antes da Rio+20, programada para junho do próximo ano, no Rio de Janeiro.

“A ideia é aproveitar a vinda de representantes dessas cidades ao Rio para trocarmos experiências e buscar soluções”, adianta o secretário estadual de Meio Ambiente e Sustentatibilidade, Sérgio Xavier.

Idealizado pelo governo do estado, o encontro das chamadas Aquacities deve reunir cidades de todos os continentes.

Veneza (Itália), Nova Orleans (Estados Unidos), Amsterdã (Holanda) e Dakar (Senegal) estão entre as cidades a serem convidadas.

Olho do Céu, imagens para se refletir

As imagens da exposição Olho do Céu provocam duplo sentimento.

Encantamento pela beleza do que é mostrado.

Reflexão pelo tamanho das intervenções humanas sobre a natureza.

São 30 painéis com fotografias de satélite.

A maior parte das imagens – cada uma medindo cerca de quatro metros quadrados – foi captada pelo Centro Aeroespacial Alemão (DLR).

Os painéis retratam quase todos os continentes do planeta.

Algumas das paisagens têm relação com o aquecimento global, a exemplo do crescimento desordenado das cidades e o desmatamento.

Outras, como a cadeia de montanhas vulcânicas do Havaí e os campos agrícolas do Kansas, ambos nos Estados Unidos, impressionam pelas cores e formas.

O mesmo se pode dizer dos painéis com a desembocadura do Rio Jaú no Rio Negro, na Amazônia, e o traçado urbano da cidade do Rio de Janeiro.

Para se chegar ao formato da exposição, as fotografias de satélite foram submetidas a técnicas de computador e a cores artificiais.

Olho do Céu foi um presente do governo alemão ao brasileiro dentro da programação do Ano Brasil-Alemanha de Ciência, Tecnologia e Inovação 2010/2011.

A exposição pode ser vista na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), bairro de Casa Forte, até o dia 22 de dezembro. Sempre no horário comercial.

“As igrejas são cúmplices da devastação ambiental”

Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação, é um intelectual de posições firmes. Foi assim ao enfrentar o processo do Vaticano que resultou no “silêncio obsequioso” do teólogo em 1984. Está sendo agora com seus escritos e posições sobre ecologia. Confira abaixo trechos da entrevista que fiz com Boff, hoje afastado das funções sacerdotais, e publicada no Diario de Pernambuco.

CUMPLICIDADE
Só recentemente o papa (Bento 16) falou da importância e da contribuição que a Igreja dá à ecologia. Mas é muito superficial. A instituição não se dá conta que é cúmplice da crise ecológica porque, durante séculos, sua evangelização foi dizer que o homem é o rei do universo, que está acima da natureza.

DÉBITO
Todas as igrejas abraâmicas – judeus, cristãos e muçulmanos, cuja raiz é a mesma – têm um déficit com respeito à ecologia.

NATUREZA
A natureza fala. Vemos isso nos eventos estremos: enchentes, secas,terremotos, vulcões, mas não escutamos porque nos julgamos fora da natureza. Pior, acima da natureza.

CAPITALISMO
O capitalismo como tal e o ideal moderno, que vem do século 16, do progresso, do desenvolvimento ilimitado,  são profundamente antiecológicos porque partem de dois pressupostos falsos: que os recursos são infinitos e podemos levar esse progresso infinitamente para o futuro. Mas hoje nos damos conta que um planeta finito não suporta um projeto infinito.

AQUECIMENTO
Acho que passamos do ponto crítico e vamos ao encontro de uma grance catástrofe social e ambiental. Vamos sofrer muito, com o risco de que grande parte da humanidade desapareça. Porque pesa uma grande ameaça sobre a humanidade, a de um aquecimento global abrupto, como falam cientistas norte-americanos há cinco anos. Não vamos ao encontro do aquecimento, estamos dentro. Só que ele ainda é progressivo, lento.

CEGUEIRA
Os governos brasileiros, especialmente o PT, não têm acumulação suficiente ecológica. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) não insere o item ecologia. Insere o item impacto ecológico porque a lei exige, mas não como o projeto se relaciona com a natureza, como vai integrar as pessoas e como vai ser a biodiversidade. Isto porque há uma insuficiência teórica dos nossos governos. Diria, uma verdadeira cegueira.