O verde que resta… no Recife

Árvores derrubadas no Recife nem sempre estão "doentes". Foto:  Alcione Ferreira/DP/D.A Press

Árvores derrubadas na cidade nem sempre estão “doentes”. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

Comentários como o da colunista Luce Pereira, publicado hoje Diario de Pernambuco e reproduzido abaixo, evidenciam o estágio da política de preservação do verde no Recife. Temos leis. Essas, porém, não passam de letras mortas em sua maioria:

“A diminuição do número de árvores no Recife, uma cidade desde sempre necessitada de aumentar seu patrimônio verde, intriga bastante. Aquelas condenadas pela implantação de novos projetos urbanos já seriam suficientes para motivar lamentos e queixas, mas o corte no “varejo”, pela constância e falta de clareza sobre as causas, esse consegue deixar uma pulga ainda maior atrás da orelha. Ontem mesmo, uma das mais antigas de Boa Viagem desapareceu da Rua dos Navegantes deixando inquietas pessoas que a conheciam há décadas. Por exemplo, o fundador do Parque dos Coqueiros, Edson Campos, que quis saber do cortador qual a razão da sentença de morte e ouviu que o exemplar estava “oco”. Sem se conformar com o diagnóstico, o engenheiro foi tirar a prova dos nove e descobriu que a resposta simplesmente não condizia com o estado de saúde da árvore, alegado pelo homem. Como assim? É claro que interessa à sociedade conhecer as causas de tantos cortes e em áreas as mais distintas, quando fica muito mais evidente que os programas de plantio e replantio não ocorrem na mesmas velocidade. Em cidades desenvolvidas de alguns países acima da Linha do Equador é possível acessar o mapeamento/inventário de árvores que elas possuem, o estado em que se encontram, o trabalho de diagnóstico e manutenção dos parques, além de explicações detalhadas do poder público acerca dos motivos que levarão (ou levaram) ao corte de uma ou de algumas. Mas como esperar algo parecido de uma cidade que há pouco menos de um ano ainda tinha sua Secretaria de Meio Ambiente à imagem e semelhança de uma espelunca, sem saber nem mesmo o que era um terminal de computador em funcionamento? Daí, imagine como se processava a emissão de licenças ambientais e de todos os documentos que poderiam proteger um pouco o Recife de virar terra de ninguém. Neste caso, também neste, o silêncio é a maior das ameaças.”

Igreja é multada por crime ambiental

jmjCom o fim da Jornada Mundial da Juventude, a Igreja Católica avalia os resultados do evento. A maioria soa como positivo para a instituição religiosa.

Mas a Igreja, ou melhor, uma de suas paróquias no estado do Rio de Janeiro, terá que corrigir, em tempos de um papa com nome do patrono da ecologia, São Francisco, o que fez contra o meio ambiente.

A Paróquia de São Sebastião de Itaipu, em Niterói, foi autuada e multada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, por derrubar 334 árvores e suprimir uma área de restinga da Praia de Itaipu sem o aval da prefeitura.

Por isso, a paróquia recebeu multa de R$ 10 mil e terá que replantar as árvores e recuperar a restinga até o dia 16 de setembro. A paróquia assumiu o compromisso de fazer o replantio das áreas.

As árvores por não serem centenárias e não estarem entre as espécies da Mata Atlântica, bioma preponderante na região, poderiam até ser derrubadas, mas desde que se tivesse a autorização do governo municipal.

O crime ambiental ocorreu para que no lugar devastado fosse celebrada uma missa campal durante a Jornada Mundial da Juventude.

Morador versus morador?

Aposentada, Cassilda Delgado criticou o corte de "forma indiscriminada". Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A.Press

Aposentada, Cassilda Delgado criticou o corte de “forma indiscriminada”. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A.Press

A poda em oito árvores em Parnamirim, que revoltou moradores do bairro recifense, foi preventiva.

A afirmação é da Emlurb, uma das empresas responsáveis pelos cortes no Recife..

Eles foram feitos na Praça Doutor José de Mello.

E os pedidos para ação, segundo a empresa, foram feitos através do número 156.

Três solicitações de poda constam nos registros da Emlurb.

A ação de ontem contou com uma equipe de técnicos e engenheiros agrônomos.

Isso, completou a nota da Emlurb, “para evitar riscos de quedas de galhos e árvores, principalmente neste período de chuvas”.

Corte de árvores deixa moradores do Recife revoltados

Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A.Press

Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A.Press

A poda de oito árvores, na Praça Doutor José de Mello, gerou o protesto de moradores de Parnamirim, bairro do Recife.

Para eles, a poda era desnecessária porque as árvores não atrapalhavam a rede elétrica, não estavam secas e não ameaçavam a segurança das pessoas.

“O serviço está apenas tirando a sombra”, criticou a psicóloga Otília Maia.

A crítica foi reforçada pela aposentada Cassilda Delgado. Para ela, seria compreensível a derrubada de alguns galhos, mas não boa parte das árvores.

A poda envolveu cerca de dez homens da Emlurb, uma das empresas que, por lei municipal, cabe executar esse tipo de serviço nos espaços públicos.

Com informações de Anamaria Nascimento, repórter do Diario de Pernambuco

Cadê as espirradeiras?

Foto: Wilson Firmo/Divulgação

Quem trafega pela PE-60, no Cabo, levou um susto nesta semana.

Em lugar das espirradeiras frondosas, também conhecidas como flor de São José e loureiro rosa, restam pequenos caules.

As plantas foram podadas de tal modo que muitas, antes com até dois metros de altura, ficaram com aproximadamente 50 centímetros.

Os motoristas ganharam em visibilidade, mas a paisagem, em uma cidade muito quente e bastante poluída, ficou ainda mais árida.

E fica a pergunta: não seria possível uma ação menos drástica?

O lamentável é que, além das espirradeiras, algumas árvores foram cortadas pela prefeitura local.

Daí, o temor de moradores da área de que a motoserra seja acionada contra árvores plantadas em um dos canteiros da rodovia.

Devagar com o andor

O projeto do Corredor Leste-Oeste, que liga Camaragibe ao centro do Recife, já chamou atenção por vários motivos. Desde a importância da via para um transporte público de passageiros às questões ambientais.

E esse aspecto, como mostra a colunista do Diario de Pernambuco, Luce Pereira, tem sido acompanhado de perto pelo Ministério Público. E com o rigor exigido pela lei. Abaixo, o comentário de Luce publicado hoje:

“Bem feito: o Ministério Público de Pernambuco deu, ontem, belo puxão de orelha na CPRH por permitir a erradicação de árvores que estavam no caminho do projeto corredor Leste-Oeste. Isso porque a Agência Estadual de Meio Ambiente tomou a decisão em terreno alheio sem dar a mínima para a opinião do administrador, neste caso, a Secretaria de Meio Ambiente do Recife. A questão não é a indiferença do órgão municipal com a ingerência cometida, mas o fato de não ser possível o órgão estadual se dar o direito exclusivo de condenar árvores de acordo com esse ou aquele projeto. Se trâmites legais existem é para serem cumpridos, ainda que a outra parte não se mostre minimamente interessada em questionar o pleito. A propósito, não foi apenas absurdo o fato de a CPRH se comportar como se não precisasse ouvir nada nem niente. Aquela história da compensação, também, revelou-se de uma esquisitice que só cabe em províncias onde o surrealismo já faz parte da rotina (como gente virando anjo que voa, gordos que explodem, essas coisas …). Imagine que a proposta era, como forma de compensar a erradicação, plantar novas árvores em Carpina, na Mata Norte. Quer dizer, os interessados em pegar uma sombrazinha (e daqui a muitos anos) precisariam viajar quilômetros até o município, e ainda ter que sair muito cedo de casa, porque o trânsito caminha para se tornar penitência braba em todos os recantos de Pernambuco. A isso, também, o Ministério Público disse “não” e recomendou que as árvores sejam plantadas perto da Caxangá. Nada mais lógico, porque a área é uma das mais áridas do Recife, pela falta de verde. Talvez a pequena lição de obediência sirva para que a CPRH não esqueça que desenvolvimento e meio ambiente não podem se divorciar impunemente.”

Árvores frutíferas por árvores nativas

Dois pontos do projeto do Código Florestal, aprovado nesta semana pelo Senado, vão provocar muito debate até o veto ou aprovação da presidente Dilma Rousseff.

Um deles é permitir que áreas degradadas sejam recuperadas com árvores frutíferas, quando a proposta do governo federal previa apenas árvores nativas.

O segundo ponto, que vem recebendo críticas, foi a mudança feita pelos parlamentares sobre a metragem da mata ciliar dos mananciais a ser recomposta.

Na medida provisória encaminhada por Dilma ao Congresso, a recomposição da mata ciliar seria de 20 metros para cursos d’água de até 10 metros de largura.

Essa medida valeria para propriedades rurais de 4 a 10 módulos. O tamanho de um módulo varia, segundo a legislação nacional, entre as regiões do país.

O texto aprovado pelos deputados e senadores, no entanto, reduz para 15 metros o tamanho da mata ciliar a ser recomposta.

As mudanças apresentadas pelos parlamentares são elogiadas pela bancada e entidades ligadas ao agronegócio, mas é criticadas pelos ambientalistas.

O desfecho sobre o projeto do novo Código Florestal, aprovado em primeira versão em maio do ano passado, depende da caneta da  presidente Dilma. É só esperar.

50 mil árvores deixarão de ser derrubadas

Quando se fala na informatização dos processos judiciais costuma-se exaltar o ganho de tempo para os usuários. O ganho ambiental fica esquecido.

Mas a redução dos danos para a natureza não é pequena.

Vejamos o caso da Justiça do Trabalho, que começou a implantar o processo judicial eletrônico em 15 dos 24 tribunais do Brasil.

Em Pernambuco, o sistema funciona desde ontem em Igarassu e no serviço de mandados de segurança do Tribunal Regional do Trabalho (TRT).

A meta é  alcançar 10% de todas as varas do país até o fim deste ano. Esse percentual deve ser superado no estado. Em 2013, pretende-se chegar a 40%.

Ao fazer isso, o uso de papel será bastante reduzido na Justiça do Trabalho.

“50 mil árvores deixarão de ser derrubadas por ano quando atingirmos 100%”, disse o ministro João Orestes Dalazen.

O ministro é presidende do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT).

Um dos sinais da necessidade de se cortar tantas árvores está no número de processos trabalhistas que tramitam em Pernambuco.

Segundo o TRT, 121.774 processos foram protocolados no estado em 2011.

Se cada processo tivesse 20 páginas teriam sido gastas, no ano passado, 2.435.480 folhas ou 4.870,96 resmas de papel.

Menos papel reflete gasto menor de energia e de água. E também menor custo com transporte, pois será desnessário o transporte dos processos.

Vamos precisar de leques

O texto abaixo é de Luce Pereira, publicado em sua coluna deste domingo do Diario de Pernambuco. Com uma ironia peculiar, a colunista atenta para um aspecto importante no processo de compensação ambiental: o tempo para que as mudas cresçam e atinjam o tamanho das árvores derrubadas. São necessários anos, décadas. E, como alerta Luce, muitas morrem antes de atingir a fase adulta.

OS SEM-SOMBRA

É para chorar mesmo diante do comportamento do poder público quando quer abrir espaço para algum projeto e encontra árvores nesse caminho. Em compensação por colocá-las abaixo, garante plantar outras numa quantidade muito maior, sem considerar o tempo que levam para crescer e sem dar garantia nenhuma quanto a isso. Não existindo fiscalização ou havendo (quando muito) apenas arremedo disso, tanto as novas podem nunca serem plantadas, de fato, como, em caso de promessa cumprida, elas jamais conseguirem chegar à fase adulta. Sabe-se lá: ante a conhecida falta de cuidado, sem olhos vigilantes e tantos animais à solta, as pobrezinhas reúnem chances mínimas de sobrevivência. E enquanto as poucas que davam sombra somem e as candidatas a substituí-las têm destino incerto, a cidade vai se transformando em purgatório. Essa matemática que atenta contra um presente um pouco mais fresquinho acaba de acontecer de novo, com uma pitada de esquisitice, o que é pior. Para justificar a derrubada de 15 delas, na Avenida Caxangá, caminho do projeto Corredor Leste-Oeste, a CPRH e a Secretaria das Cidades se entenderam nesses termos: as árvores serão plantadas em número dez vezes maior (150), só que … Em Carpina. Isso mesmo, em Carpina, o que significa que vamos precisar  percorrer 54 quilômetros atrás de uma sombrazinha. E ruim mesmo vai ficar se o Cirque du Soleil resolver mudar de endereço para uma área mais verde da cidade, na próxima visita. Aí a população do Recife pode ser obrigada a tomar ar fresco em outro município da Zona da Mata, dando à China oportunidade de estreitar as relações comerciais com Pernambuco, através do incremento das exportações de leques.

Recife perde árvores e quem ganha é Carpina

Fica difícil entender, às vezes, a lógica  da compensação ambiental.

Vejamos o caso da Avenida Caxangá.

Para construir plataformas do Corredor Leste-Oeste, a Secretaria Estadual das Cidades derrubou 15 árvores e deve plantar 150.

O número, do ponto de vista da compensação, é muito bom.

Curioso é que as mudas serão plantadas em Carpina, na Mata Norte e a cerca de 54 quilômetros da capital pernambucana.

O corte foi autorizado pela Agência Pernambucana de Meio Ambiente (CPRH), com quem a secretaria firmou acorda para compensar as perdas.

Interessaria mais ao Recife, a meu ver, se as árvores ficassem por aqui.

A paisagem da nossa cidade, cada vez mais tomada por concreto e asfalto  e com menos áreas verdes, respaldam o argumento.

Sem árvores, ruas e avenidas ficam mais quentes. É contra isso que dezenas de internautas protestaram contra a derrubada na Caxangá.