Corte ilegal de lenha ameaça a caatinga

A erosão é uma das consequências do desmatamento irregular na caatinga. Foto: Alexandre Gondim/DP/D.A.Press

A erosão é uma das consequências do desmatamento na caatinga. Foto: Alexandre Gondim/DP/D.A.Press

Apenas 4% da lenha retirada da caatinga têm como origem projetos sustentáveis.

O número apresentado pela organização The Nature Conservancy (TNC), em Brasília, dimensiona o quanto a caatinga vem sendo devastada.

E para onde vai essa lenha?

Parte é transformada no carvão que abastece residências, estabelecimentos comerciais e de serviços, bem com a indústria.

A TNC estima que 1/3 da matriz energética do Nordeste é a lenha, sendo que 40% das indústrias da região recorre à madeira para fabricar seus produtos.

Nessa conta, a caatinga vem perdendo sua riqueza. Espécies correm o risco de desaparecer sem ao menos serem estudadas.

Suelma Santos, representante da TNC, ressalta que o bioma caatinga ocupa 11% do território brasileiro, mas é o menos protegido do país.

Distribuído ao longo do semiárido, o bioma possui 591 espécies de aves, 241 de peixes, 221 de abelhas, 178 de mamíferos, 177 de répteis e 79 de anfíbios.

Com informações da Agência Câmara de Notícias.

Qatar, a caatinga das ararinhas-azuis

Extinta na natureza desde o ano 2000, a ararinha-azul ainda pode ser encontrada em cativeiro. Há 79 aves dessa espécie no mundo.

O curioso é que menos de 10% desses pássaros, de nome científico Cyanopsitta spixxi, vivem fora do  Brasil.

Por aqui preserva-se apenas 5 ararinhas-azuis, cujo habitat era a caatinga e matas ciliares de afluentes do Rio São Francisco.

Mais de 60% das 79 aves vivem no Qatar, Oriente Médio, sendo cuidadas pela Al Wabra Wildlife Preservation, organização mantida pelo xeque Saoud Bin Mohammede Bin Ali Al Thani.

Depois de adquirir aves em vários países, essa milionário passou a financiar um projeto de reprodução em cativeiro.

A história mostra que a ararinha sempre despertou interesse dos ricos.

No século XVII, Maurício de Nassau tinha a ave na sua coleção. O mesmo fez o Marechal Tito, líder da Iugoslávia, no século XX.

De tão cobiçada por colecionadores, uma Cyanopsitta spixxi era negociada, na década de 1980, por R$ 30 mil.

O tráfico, aliado à devastação da caatinga, foram os principais motivos para o desaparecimento da ararinha-azul da natureza.

Do cinema para a natureza

A história do filme de animação Rio, do cineasta brasileiro Carlos Saldanha, pode se tornar realidade em menos de quatro anos.

No desenho, que concorreu ao Oscar 2012 de melhor canção original, duas ararinhas-azuis são reintroduzidas na natureza.

A ararinha-azul é considerada extinta na natureza desde 2000.

Nesse ano, foi visto o último indivíduo na caatinga, em Curaçá (Bahia).

A possibilidade da reintrodução acontecer antes de 2017 cresce com a repatriação, ainda neste mês, de três aves mantidas em cativeiro na Espanha e na Alemanha.

No último dia 4, duas aves que estavam na Espanha foram transferidos para a Alemanha, onde estão em quarentena.

Outras repatriações, segundo o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave), devem acontecer em maio.

O Cemave coordena o Plano Nacional de Conservação da Ararinha-Azul.

No mundo, existem apenas 79 ararinhas-azuis mantidas em cativeiro.

Algaroba, um perigo para o semiárido nordestino

Das plantas invasoras da caatinga, a algaroba talvez seja a mais emblemática.

A espécie ocupa atualmente cerca de um milhão de hectares do semiárido nordestina.

Em algumas áreas, as algarobeiras formam grandes “florestas”, a exemplo das margens do Rio São Francisco no município pernambucano de Itacuruba.

“A algaroba é uma ameaça à biodiversidade”, afirma o biólogo e professor da Universidade do Vale do São Francisco (Univasf), José Alves de Siqueira Filho.

Segundo o professor, a invasão da algabora no semiárido é resultado de erros de políticas públicas do passado.

“Procurou-se soluções fora do semiárido, quando ele tem as respostas”, disse.

Atribui-se a Delmiro Gouveia, empresário e construtor da primeira hidrelétrica do Brasil, a plantação das primeiras algarobas. Isso em Serra Talhada (PE).

A partir daí, a planta espalhou-se pelo semiárido.

Hoje a algaroba pode ser encontrada desde os lugares mais secos da caatinga até as margens do São Francisco, como em Itacuruba, no Sertão pernambucano.

O aumento acelerado de áreas com algarobeiras tem duas razões.

A primeira razão é que os sertanejos encontraram na árvore uma boa fonte para a produção de lenha e forragem para os animais.

A segunda foi a facilidade de reprodução e crescimento das árvores. Isso ocorre porque a algaroba, ao contrária das plantas nativas, não possui inimigos naturais.

O problema consta no artigo Plantas exótivas e invasoras das caatingas do Rio São Francisco, publicado por José Alves e Juliano Ricardo Fabricante.

O artigo está no livro Flora das Caatigas do Rio São Francisco – História Natural e Conservação, que resultou dos programas ambientais do Projeto de Integração do São Francisco.

Esse projeto, conhecido popularmente como transposição do São Francisco, vem sendo desenvolvido pelo governo federal.

Plantas invasoras ameaçam a caatinga

A caatinga, ecossistema genuinamente brasileiro, vem sofrendo com a presença de plantas invasoras.

O problema é apontado por Juliano Ricardo Fabricante e José Alves de Siqueira Filho em um dos 13 artigos do livro Flora das Caatingas do Rio São Francisco – História Natural e Conservação.

No estudo, feito na área do Projeto de Integração do São Francisco (Pisf), os pesquisadores apontam a existência de 62 espécies exóticas.

Dessas 62, seis espécies são consideradas invasoras. Ou seja, 9,7% do total.

O que, afinal, é uma espécie invasora?

Para os estudiosos, invasora é uma espécie exótica, de origem acidental ou intencional, capaz de expandir naturalmente suas populações. E essas são visualmente adensada e monodominante.

As invasoras são consideradas uma ameaça à biodiversidade.

Segundo os estudiosos, elas exigem a elaboração de políticas públicas e a adoção de estratégias para o controle ou manejo com urgência.

Municípios pouco preservam a Caatinga e a Mata Atlântica

A participação dos municípios pernambucanos tem sido acanhada nas iniciativas para  proteger os biomas Caatinga e Mata Atlântica.

As unidades de conservação municipais relacionadas à Caatinga representam apenas 0,004% dos 450.925,44 hectares protegidos legalmente no estado.

Enquanto as prefeituras administram 19,24 hectares, o governo federal criou e gerencia unidades que somam 42.296,77 hectares.

A área estadual é de cerca de 2% da soma federal. São 8.609,43 hectares divididos em duas reservas. Uma em Floresta e outra em Serra Talhada.

A performance municipal melhora um pouco quando se trata da Mata Atlântica, mas não ultrapassa 1% do total. Para ser exato: 0,86%.

Pernambuco possui hoje 652.710,13 hectares de Mata Atlântica protegidos.

A União administra 79,12% das unidades de conservação criadas até o momento. Em números absolutos são 516.442,15 hectares.

O estado, por sua vez, responde por 20,02% das áreas . Isso representa 130.682,69 hectares.

Na lanterna, os municípios zelam por apenas 5.585,29 hectares.

As unidades de conservação, tanto na Caatinga quanto na Mata Atlântica, são de proteção integral ou de uso sustentável.

Faltam mudas para recompor mata ciliar do Rio Una

Se fosse implantar o projeto de recomposição da mata ciliar do Rio Una agora, o governo do estado não teria mudas suficientes para os serviços.

“Faltam mudas para os grandes projetos em andamento”,  disse o secretário estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Sérgio Xavier.

Não haveria mudas suficientes para reflorestar as margens do Una e nem para se recuperar as unidades de conservação da caatinga criadas pelo estado.

Entende-se, então, a meta apresentada pelo governador Eduardo Campos (PSB) ao Complexo Industrial Portuário de Suape.

O socialista quer que o Viveiro  Florestal de Suape aumente em 60%, até setembro deste ano, a capacidade produtiva de mudas da Mata Atlântica.

As novas plantas vão recompor a mata ciliar do Una.

O rio destruiu parcialmente, nos invernos de 2010 e 2011, as cidades de Palmares, Água Preta e Barreiros, situadas na Mata Sul do estado.

Com a meta, o viveiro, cuja estrutura atual possibilita a produção de 250 mil mudas por ano, passará para 400 mil.

É grande o desafio, mas possível de ser superado.

Possível, ressalte-se, quando a meta é do governador. E ele tem pressa para a execução das obras e pode viabilizar a estrutura de tal crescimento.

Um detalhe: os ganhos sociais e políticos serão amplamente superiores aos  investimentos  precisos para se alcançar os 60%.

O viveiro possui 11 operários e mateiros e precisaria de outros cinco, além de veículos para o trabalho diário.

Metade da caatinga já foi devastada

Os números justificam a necessidade de se agir rápido para preservar a caatinga.

Ela recobre 52% da área da região Nordeste, enquanto em Pernambuco ultrapassa cerca de 2/3 do território.

Mas a devastação tem se acentuada nas últimas décadas. As perdas do bioma representam  metade do que existia originalmente.

“Espécies podem desaparecer sem nunca se conhecer o seu potencial para curas de doenças”, exemplificou Elcio Alves de Barros e Silva, coordenador do Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Caatinga – Pernambuco.

A caatinga é o segundo maior bioma do Brasil e a mais diversificada região semi-árida do planeta em quantidade de espécies.

Uma dos objetivos do governo pernambucano, assim como já se propuseram outros estados, é proteger ao menos 10% da área da caatinga.

Esse percentual é tido como o ideal pela Organização das Nações Unidas (ONU) para as políticas de preservação dos biomas.

Em Pernambuco, a caatinga tem, com a criação do Parque Estadual Mata da Pimenteira (Serra Talhada) e da Estação Ecológica Serra da Canoa (Floresta), menos de 1% de área protegida.

Como fazer educação ambiental no semiárido

A experiência retratada no livro Educação ambiental: pesquisa e prática educativa no Sertão alagoano aconteceu no município de Delmiro Gouveia.

No entanto, ela poderia ter sido em qualquer cidade do semiárido nordestino.

O livro, de Tarcísio Augusto Alves da Silva, parte dos resultados de uma pesquisa feita com professores de Delmiro Gouveia, situado às margens do Rio São Francisco.

A partir da pesquisa, o autor traz conceitos básicos e descreve o processo de institucionalização da educação ambiental no Brasil.

E apresenta ainda um guia de sobrevivência na caatinga.

O guia reúne 15 sugestões de atividades pedagógicas.

São projetos que podem envolver de 20 a 100 alunos e com durações diferentes. Um deles pode ser feito em 20 minutos. Outro exige 6 meses.

Abaixo, três dos 15 projetos relatados por Tarcísio Augusto, que foi professor da UFAL, em Delmiro Gouveia, e hoje ensina na UFRPE, no Recife:

Disposição dos resíduos sólidos
Objetivo: Sensibilizar a comunidade escolar e a população do centro da cidade sobre a importância de dispor corretamente o lixo.
Tempo de execução: 3 meses.

Oficinas de educação ambiental
Objetivo: Desenvolver nas crianças e adolescentes hábitos de proteção e conservação dos recursos naturais presentes em nosso ambiente.
Tempo de execução: 8 horas por oficina.

A água e sua importância para o semiárido brasileiro
Objetivo: Compreender a importância da água para a sobrevivência das populações do semiárido.
Tempo de execução: 8 aulas de 50 minutos.

A difícil tarefa de manter áreas protegidas

Da lei para a prática existe um longo caminho. Isso não é novidade no Brasil, sobretudo se falarmos de meio ambiente.

Mas  é impossível negar que, no campo da ecologia, estamos à frente de vários países, embora com medidas por serem feitas.

O Mapa-múndi digital, lançado recentemente pelo IBGE, traz sinais disso. Veja o endereço http://www.ibge.gov.br/paisesat/main.php.

Com maior território da América do Sul, o Brasil é o terceiro país do continente em área protegida: 28,92%.

Venezuela, com 65,7%, e Colômbia, 30,32%, aparecem na dianteira.

Logo abaixo do Brasil está a Bolívia (21,21%). Depois, Equador (15,13%), Chile (14,04%), Peru (13,24%), Suriname (13,21%) e Paraguai (5,97%).

A pior situação é a do Uruguai, com 0,34% de áreas protegidas. O país fica atrás da Guiana, um Departamento da França, que possui 2,15% de seu território protegido por lei.

Se os números acima colocam o Brasil numa situação razoável, apontam para nossas fragilidades. Afinal, temos leis que esbarram na estrutura limitada de fiscalização do estado e na pouca cobrança da população.

Prova disso está nas derrubadas e queimadas de áreas protegidas. Sejam elas na Amazônia ou no Sertão de Pernambuco.

No semi-árido, a caatinga desaparece em muitos pontos, sem qualquer projeto de manejo, para suprir carvoarias e pequenas indústrias.