Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação, é um intelectual de posições firmes. Foi assim ao enfrentar o processo do Vaticano que resultou no “silêncio obsequioso” do teólogo em 1984. Está sendo agora com seus escritos e posições sobre ecologia. Confira abaixo trechos da entrevista que fiz com Boff, hoje afastado das funções sacerdotais, e publicada no Diario de Pernambuco.
CUMPLICIDADE
Só recentemente o papa (Bento 16) falou da importância e da contribuição que a Igreja dá à ecologia. Mas é muito superficial. A instituição não se dá conta que é cúmplice da crise ecológica porque, durante séculos, sua evangelização foi dizer que o homem é o rei do universo, que está acima da natureza.
DÉBITO
Todas as igrejas abraâmicas – judeus, cristãos e muçulmanos, cuja raiz é a mesma – têm um déficit com respeito à ecologia.
NATUREZA
A natureza fala. Vemos isso nos eventos estremos: enchentes, secas,terremotos, vulcões, mas não escutamos porque nos julgamos fora da natureza. Pior, acima da natureza.
CAPITALISMO
O capitalismo como tal e o ideal moderno, que vem do século 16, do progresso, do desenvolvimento ilimitado, são profundamente antiecológicos porque partem de dois pressupostos falsos: que os recursos são infinitos e podemos levar esse progresso infinitamente para o futuro. Mas hoje nos damos conta que um planeta finito não suporta um projeto infinito.
AQUECIMENTO
Acho que passamos do ponto crítico e vamos ao encontro de uma grance catástrofe social e ambiental. Vamos sofrer muito, com o risco de que grande parte da humanidade desapareça. Porque pesa uma grande ameaça sobre a humanidade, a de um aquecimento global abrupto, como falam cientistas norte-americanos há cinco anos. Não vamos ao encontro do aquecimento, estamos dentro. Só que ele ainda é progressivo, lento.
CEGUEIRA
Os governos brasileiros, especialmente o PT, não têm acumulação suficiente ecológica. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) não insere o item ecologia. Insere o item impacto ecológico porque a lei exige, mas não como o projeto se relaciona com a natureza, como vai integrar as pessoas e como vai ser a biodiversidade. Isto porque há uma insuficiência teórica dos nossos governos. Diria, uma verdadeira cegueira.