Um ano do Código: tudo dito, nada feito

Paulo Moutinho e André Lima, do Ipam

Crédito: INMA/Divulgação

Crédito: INMA/Divulgação

A poucos dias do aniversário de um ano da aprovação do novo Código Florestal, muita coisa foi dita, mas pouco foi feito. A Lei Federal nº 12.651 (de 26 de maio de 2012) ainda não disse a que veio. Parece que bastou a anistia do passivo ambiental de aproximadamente 40 milhões de hectares de cerrados e florestas desmatados ilegalmente antes de julho de 2008.

O que temos até agora é o Decreto Federal nº 7.830/12, genérico, que não tem o condão de nortear os Programas de Regularização Ambiental (PRA) que os estados devem desenvolver para regularizar, na prática, as propriedades rurais.

Os PRAs devem indicar, com fundamentação técnica, onde serão consolidadas as ocupações ou onde deverão ser recuperadas as áreas ilegalmente desmatadas. Devem também indicar as bacias hidrográficas críticas nas quais a recomposição de áreas de preservação permanente deverá ocorrer segundo parâmetros técnicos mais rigorosos do que os previstos na lei. Devem, ainda, indicar a localização das áreas críticas para recomposição e conservação florestal para fins de compensação de reserva legal. Um ano se passou e nenhum PRA, até agora, foi aprovado no país.

Embora tenha sido um dos elementos mais comemorados pelos parlamentares da base do governo, não há ainda nenhum incentivo econômico concreto (previstos no artigo 41 do Código) ou movimento real iniciado para tanto.

A falta de movimento afeta também a implementação do mercado nacional de redução de emissões de CO2, previsto em lei desde dezembro de 2009. Tal mercado poderia direcionar investimentos para conservação ou recuperação de florestas, já que o desmatamento, apesar da redução expressiva de suas taxas na Amazônia, ainda é responsável pela maior parte das emissões de carbono brasileiras.

A falta de ação parece também ser seguida pela falta de vontade para com o diálogo público e transparente. Tanto é assim que o Ministério de Meio Ambiente recusou a proposta feita em novembro de 2012 pelo Instituto O Direito por um Planeta Verde e pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) para a criação de um grupo assessor, no âmbito do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), para acompanhamento e avaliação da implementação da nova lei.

Em contrapartida, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) propôs a criação de um comitê, fora do Conama, para monitoramento da implementação da nova lei florestal, supostamente com a participação da sociedade. Até o momento, tal comitê não foi criado, não se sabe qual a sua composição, como serão indicados seus membros, enfim não há previsão para que isso aconteça. Não se trata mais de questionar o que foi aprovado, mas de buscar a melhor maneira de implementar, sem mais retrocessos, o que foi aprovado há um ano pelo Congresso.

Atentas a esse processo, algumas organizações da sociedade — entre elas, Ipam, Instituto Socioambiental (ISA), Instituto Centro de Vida (ICV), Conservação Internacional (CI), Fundo Mundial para a Natureza (WWF), The Nature Conservancy (TNC) e S.O.S. Mata Atlântica — lançarão este mês, no Congresso Nacional, o Observatório do Código Florestal. O propósito da iniciativa é promover seminários, audiências públicas, reuniões técnicas, debates e avaliações independentes e multi-institucionais sobre os melhores caminhos e meios para uma boa e transparente implementação do Código.

Espera-se que esse esforço encontre abrigo nos espaços institucionais existentes, em especial no Congresso Nacional, nas assembleias legislativas, nas câmaras de vereadores, nos conselhos de meio ambiente e conte com o apoio dos órgãos ambientais, inclusive do Ministério do Meio Ambiente.

Pretende-se, assim, contribuir com a implementação da nova lei, impulsionando o Cadastramento Ambiental Rural dentro de parâmetros de transparência e eficácia aceitáveis e tornando os anunciados incentivos econômicos, para aqueles que vêm cumprindo a lei e continuam protegendo seus ativos florestais, uma realidade no menor espaço de tempo possível.

Sem colocar o Código em operação já, não será de estranhar que, mais à frente, uma “atualização” na consolidação de áreas rurais desmatadas ilegalmente (leia-se, mais anistia) após julho de 2008 seja requerida por aqueles que lutaram para obter tal benefício na atual lei.

Árvores frutíferas por árvores nativas

Dois pontos do projeto do Código Florestal, aprovado nesta semana pelo Senado, vão provocar muito debate até o veto ou aprovação da presidente Dilma Rousseff.

Um deles é permitir que áreas degradadas sejam recuperadas com árvores frutíferas, quando a proposta do governo federal previa apenas árvores nativas.

O segundo ponto, que vem recebendo críticas, foi a mudança feita pelos parlamentares sobre a metragem da mata ciliar dos mananciais a ser recomposta.

Na medida provisória encaminhada por Dilma ao Congresso, a recomposição da mata ciliar seria de 20 metros para cursos d’água de até 10 metros de largura.

Essa medida valeria para propriedades rurais de 4 a 10 módulos. O tamanho de um módulo varia, segundo a legislação nacional, entre as regiões do país.

O texto aprovado pelos deputados e senadores, no entanto, reduz para 15 metros o tamanho da mata ciliar a ser recomposta.

As mudanças apresentadas pelos parlamentares são elogiadas pela bancada e entidades ligadas ao agronegócio, mas é criticadas pelos ambientalistas.

O desfecho sobre o projeto do novo Código Florestal, aprovado em primeira versão em maio do ano passado, depende da caneta da  presidente Dilma. É só esperar.

Margens de rios intermitentes podem perder proteção

A bancada ruralista não está para brincadeira. Deputados e senadores do grupo conseguiram retirar, na comissão que analisa o projeto do Código Florestal, o status de Área de Persevação Permanente (APP) dos rios intermitentes.

Caso a decisão venha prevalecer no texto final do código, os proprietários de terra nas margens de rios como o Pajeú, que fica seco durante parte do ano, ficarão desobrigados a recompor a mata ciliar.

O Rio Pajeú, no Sertão do estado, mede 353 quilômetros de extensão e é um dos afluentes do Rio São Francisco.

A vitória dos ruralistas irritou os ambientalista. Para esses, a derrubada do status de APA dos rios intermitentes deve prejudicar as bacias hidrográficas. Os ruralistas discordam, alegando que os rios da Europa não são considerados áreas de proteção.

Os rios intermitentes, segundo a Agência Nacional das Águas (ANA), são importantes na geração do escoamento direto em uma microbacia. “A proteção destes canais é imprescindível para a manutenção da saúde da microbacia”, ressaltou a agência em nota técnica, publicada em maio deste ano.

No minuto final

A novela para a aprovação do Código Florestal está em seus capítulos finais.

O processo como mostra a charge de Jarbas, do Diario de Pernambuco, rendeu sentimentos diversos ao longo dos últimos meses.

Ouvi-se elogios e questionamentos. Sobraram críticas.

E o Congresso Nacional precisa correr para ver o projeto aprovado.

Termina no dia 8 de outubro a validade da Medida Provisória (MP) 571, que trata do novo Código Florestal.

Deputados e senadores serão rápidos para votação?

Se prevalecer a lógica, a votação deve acontecer na virada do dia 8 para o dia 9.

Isso sob o risco da parte derrotada recorrer à Justiça para mudar o projeto.

Disputa pelo Código Florestal deve terminar na Justiça

Não era o que ambientalistas e ruralistas queriam, mas a presidente Dilma Rousseff procurou dar ao projeto do Código Florestal a cara do governo.

Ou melhor, dar uma forma que governistas chamam “equilibrada”.

Mas equilíbrio, tanto para ambientalistas quanto para ruralistas, não houve. Os dois lados criticam os vetos da presidente.

E como poucos se contentam com o tal equilíbrio no mundo da política, eis que os ruralistas já anunciam a intenção de recorrer à Justiça.

Querem os ruralistas saírem vitoriosos em tudo.

Sabendo da força política que têm, a maior parte dos parlamentares do agronegócio desconsideram  possibilidades apontados pela ciência para melhorar a produção no campo.

Exemplo disso é priorizarem em suas propostas o aumento da área produtiva em lugar de investirem mais em tecnologia.

Isso tem explicação. A princípio, tecnologia seria mais caro.

A peleja em torno do Código Florestal deve ser, então,  judicializada. E a decisão ficará com o Supremo Tribunal Federal (STF).

Até lá, a presidente Dilma, que vetou 32 pontos do projeto do Código, vai editar Medidas Provisórias para evitar o que alguns chamam de”vácuo legal”.

Os vetos da presidente foram no projeto aprovado pelos deputados federais, que derrubaram um acordo firmado entre governo e senadores.

Artistas pedem veto ao Código Florestal

A pressão pelo veto da presidente Dilma Rousseff ao projeto do Código Florestal, aprovado pela Câmara dos Deputados, está aumentando.

Se os ruralistas têm voto no Congresso Nacional, os seus críticos são muitos.

O vocalista da Banda Capital Inicial,  Dinho Ouro Preto,  é um deles.

Ao fazer show no Recife, segunda-feira, Dinho pediu para que a presidente impedisse “a derrubada de nossas florestas”.

Por trás da devastação, entende o vocalista, estariam empresários com seus interesses comerciais.

O cantor e compositor Gilberto Gil também defende o veto de Dilma.

Ao participar da reunião preparatória da Rio Clima, no Recife, no mês passado, Gil vê o projeto do novo Código como um retrocesso.

A campanha do veto tem crescido no meio político.

O secretário estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Sérgio Xavier, também integra a lista composta por Gil e Dinho.

Xavier sempre que pode lembra a necessidade do veto.

Ao discursar na cerimônia de lançamento do Programa Caatinga Sustentável, no Palácio do Campo das Princesas, na semana passada, o secretário classificou como equívovo a aprovação do novo projeto.

“Um equívovo que cria inseguranças para o futuro do país”, disse.

Bem perto do secretário, estava o governador Eduardo Campos (PSB), que, nos últimos meses, tem reforçado o discurso em favor da preservação ambiental.

E agora presidente Dilma?

A charge de Samuca, publicada hoje no Diario de Pernambuco, retrata bem o  problema que a presidente Dilma Rousseff terá em relação ao projeto do Código Florestal.

A derrota do governo na Câmara dos Deputados era crônica anunciada. E não é de hoje. O que ocorreu ontem repete o que se viu em maio do ano passado, quando ruralistas impuseram suas posições pela primeira vez na Câmara.

Agora a encruzilhada chega, de fato, à Presidência da República.

Se vetar as mudanças propostas pelos ruralistas, a presidente pode manter votos no Congresso Nacional. Uma das mudanças reduziu a exigência do tamanho das áreas a serem reflorestadas nas margens dos rios.

O sim aos ruralistas pode resultar em muitas críticas internacionais. Elas virão especialmente dos ambientalistas. Com um agravante, o sim virá às portas da Rio+20, conferência da ONU que discutirá desenvolvimento sustentável.

Se disser não à bancada ruralista, o apoio parlamentar pode diminuir no Congresso. Em contrapartida, os aplausos internacionais virão. A  imagem de pulso firme da presidente será fortalecida. Desta vez, em favor do planeta.

E agora presidente?

Projeto do novo Código Florestal é um atraso, diz Gilberto Gil

O cantor e compositor Gilberto Gil é um ambientalista de longa data. Em 1989, fundou o Fundação Onda Azul, uma  ONG preocupada com o estudo e a conservação dos recursos hídricos.

O ex-ministro da Cultura esteve  no Recife, para  reunião preparatória da Rio Clima,  convenção que ocorrerá paralelamente à Rio+20, em junho.

Em seu discurso, Gil apontou para os desafios ambientais, como reflexos sociais e econômicos, que a humanidade será obrigada a enfrentar daqui para frente. “Teremos que enfrentar problemas extraordinários”, frisou.

Abaixo, entrevista concedida ao o blog Meio Ambiente e Sustentabilidade:

Melhoramos ou pioramos, se comparado o ano de criação da Onda Azul e hoje, em relação ao meio ambiente?

A consciência do brasileiro melhorou. Há 30 anos, poucas pessoas tinham  noção dos problemas. Hoje existe um compromisso maior da sociedade para a preservação do meio ambiente.

O que o levou a ser um militante do meio ambiente?

Nos anos 80, os assuntos comuns, quando se tratava do meio ambiente, eram a preservação das florestas e os riscos de extinção de espécies. A preocupação com  a água era menor. Ingressei nessa luta por entender, como algumas pessoas, a exemplo do Alfredo Sirkis (hoje deputado federal), a necessidade de colocar a conservação hídrica no centro do debate. E como algo importante para a preservação da vida e do planeta.

E o cuidado com a água está como vocês sonhavam?

Ainda não, mas tem melhorado.

A questão da água está intimamente ligada ao Código Florestal. O que o senhor acha do projeto que tramita no Congresso Nacional?

O projeto do Código Florestal está aquém do preciso. Sinaliza, com uma aprovação que acho possível, para uma coisa atrasada.

Atrasada que significaria  retrocesso?

Sim. Se o projeto for aprovado como está terá retrocesso.

Onde vou amarrar meu cavalo?

Nove meses devem separar as votações do novo Código Florestal na Câmara dos Deputados. A primeira ocorreu em maio. A segunda, conforme acordo de líderes de partidárias, acontecerá apenas em março de 2012.

Serão, daqui para frente, longos dias de negociações. Enquanto os deputados tentarão derrubar mudanças propostas pelos senadores, parcela dos brasileiros continuará se perguntado o que se pretende com o novo projeto.

Jarbas Domingos, em charge publicada no Diario, mostra seu olhar sobre o assunto. Ele toca em uma das feridas. Tem muita gente que vê a floresta como empecilho ao crescimento econômico. Ou simples apoio aos seus planos.

Dilma ficará com a conta

A Câmara dos Deputados e o Senado aprovaram, mas não é sobre eles que recairá a maior pressão sobre o novo Código Florestal.

Quem pagará a conta será a presidente Dilma Rousseff.

A governante começou a ser cobrado no exterior, leia-se organizações ambientalistas e cientistas, pelo que os deputados e senadores votaram.

É certo que a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, negociou com os parlamentares o texto aprovado do Código.

A negociação e discuros da ministra, entretanto, foram insuficientes até agora para convencer que o novo Código não provoca reprocessos ambientais.

Bom exemplo é o que foi batizado de anistia aos desmatadores.

E o que pesa para a descrença é a própria experiência brasileira.

A fiscalização ambiental dos governos inexiste ou é  frágil. Imagine, com leis que deixam brechas, como apontam os críticos do projeto do novo Código.

O projeto retornará para a Câmara, mas terminará nos braços de Dilma.