A verdade sobre o aquecimento global

Felipe Bottini, economista e consultor especial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Já experimentou a sensação de entrar em um carro que ficou muito tempo exposto ao sol? O calor que se sente é resultado do “efeito estufa” dentro do veículo. O calor entra, mas não pode sair e assim, o interior do automóvel fica aquecido. Nosso planeta está sujeito à mesma lei da física e graças aos gases de efeito estufa (que promovem a retenção do calor), podemos viver!

A falta de vapor de água e gases de estufa e até mesmo da própria atmosfera, leva outros planetas a terem diferenças de temperatura de 200 graus Celsius das áreas expostas ao sol para as áreas de sombra. Assim, o dia é escaldante e a noite gélida, sendo a vida impossível.

O aquecimento global possibilita extremos mais próximos e homogeneização das temperaturas, sendo condição fundamental para a manutenção da vida. O problema que se vive hoje é que, o ideal projetado de concentração de CO2 na atmosfera para a manutenção da vida é da ordem de 250 a 280 ppm (partes por milhão) – níveis verificados antes da revolução industrial.

A revolução industrial nos ensinou, entre outras coisas, a obter energia pela queima de combustíveis fósseis e em pouco mais de cem anos a concentração de CO2e na atmosfera passou para 390 ppm. Estima-se que a partir da concentração de 450 ppm existe o risco de entrarmos em um ciclo irreversível, chamado de “feedback positivo”. Nele o aumento de temperatura impede que mares e florestas absorvam CO2 da atmosfera, consequentemente a temperatura aumenta, o que leva a dificuldade maior da natureza sequestrar o carbono e assim por diante.

O assunto é de extrema urgência. Desde o estabelecimento da UNFCCC e do Protocolo de Quioto – criados internacionalmente para combater o aquecimento global, as emissões de gases de efeito estufa não diminuíram.

As previsões do IPCC são de que as emissões médias do planeta durante esse centenário, não sejam superiores a 18 GToneladas ano a ano. As emissões atuais são superiores a 40 Gtoneladas. Esse é o tamanho do desafio que os negociadores enfrentam ano a ano na Conferência das Partes.

Para piorar, o efeito não é sentido uniforme ou regularmente. Ao contrário de colocar o dedo na tomada, onde facilmente aprende-se a lição, nas questões climáticas, quando se sente o choque pode não haver mais tempo para reagir.

Fato é que o mundo não vai acabar. A decisão que devemos tomar é se queremos aprender com nossos próprios erros e agir racionalmente para aumentar nossas chances como espécie de sobreviver ou se vamos lançar à sorte nossa própria existência e continuar negando os fatos.

Copa 2014: Recife é a cidade-sede que menos emitirá CO2

Das 12 cidades-sede da Copa 2014, o Recife é a que emitirá a menor quantidade de gás carbônico na atmosfera para receber os jogos.

O dado consta no Estudo de Impacto de Emissões em CO2 Equivalente da Copa 2014, elaborado pela consultoria Personal CO2Zero.

Segundo a pesquisa, o Recife lançará 104.794 toneladas de CO2 equivalente (tCO2e), que é a medida para calcular a emissão de gases de efeito estufa.

A emissão do dióxido de carbono é referente à construção dos estádios e aos investimentos em infraestrutura.

Estima-se que o Brasil emitirá 11.173.210 tCO2e por conta das obras da copa. Isso equivale a 46.946 hectares de floresta ou 34,5% do Pantanal.

A produção de gases durante a copa será de 3.017.440 tCO2. Ou seja, 12.678 hectares de florestaou 9,3% da área do Pantanal.

E o maior emissor de dióxido de gases será o transporte aéreo. As viagens de avião correspondem a 60% do lançamento de CO2.

O ranking de poluição por estádio indica o Castelão, que está sendo erguido em Fortaleza (CE), como o maior emissor de gases.

A Arena do Pantanal, em Cuiabá (Mato Grosso), é estádio que poluirá menos. Previsto para receber quatro jogos, ele emitirá 37,70 tCO2e.

Fonte: Agência Brasil

Um time de futebol, os fazendeiros e o verde

Um time de futebol pode ser mais do que objeto de apaixonados. Pode ser
publicidade do seu lugar de origem e de boas práticas.

Veja o que escreveu o blogueiro Cassio Zirpoli, do Diario de Pernambuco:

“Esporte e meio-ambiente, em interação absoluta.

No pequeno município Lucas do Rio Verde, a 350 quilômetros da capital do
Mato Grosso.

São apenas 45 mil habitantes, conscientizados com o “verde”.

O Luverdense, adversário dos pernambucanos Santa e Salgueiro na Série C,
ostenta o título de “primeira equipe a neutralizar a emissão de CO² em uma
partida de futebol”.

Uma não, todas.

Os jogos do Luverdense têm uma média de público de 2.500 torcedores.

Isso significa uma emissão de 35 toneladas de gás carbônico através do
público a cada 90 minutos. Em tese, cada árvore plantada cidade neutraliza
aproximadamente 350 quilos de gás carbônico, segundo estudos internacionais.

As árvores vêm sendo plantadas em áreas degradadas da cidade, em uma
parceria com a secretaria ambiental do município. Mais de mil já foram
plantadas.

Saiba mais sobre o compromisso “verde” do clube mato-grossense clicando aqui.

A ideia encampa o cenário atual da sociedade, voltado para a preservação do meio-ambiente. Aos grandes clubes do estado, uma luz verde para futuros projetos.”

O que está por trás dos dados trazidos por Zirpoli?

O Luverdense retrata a nova consciência dos moradores de Lucas do Rio Verde,
um dos municípios que mais produz soja no Brasil e mais exporta o produto.

A exportação foi elemento decisivo para tal mudança.

Ou melhor, a exigência crescente dos estrangeiros de preservação do meio
ambiente. E em Lucas do Rio Verde, anos atrás, essa preocupação quase não
existia.

Desmatava-se, descuidava-se das margens dos rios. Contava mais produzir.

Também foi importante a pressão dos órgãos reguladores brasileiros, que
embora capengas, estão mais atentos ao tema ambiental.

O bom é que os fazendeiros de Lucas do Rio Verde entenderam os recados,
transformando-se em oportunidades.

Eles são ambiciosos. Querem reservar 1/3 de suas terras para vegetação
nativa. Por um motivo simples: a floresta ajuda na produção.

E o Luverdense integra essa lógica.

Calor insuportável e fome

Ciro A. Rosolem, professor titutar da FCA/Unesp/Botacutu (SP).

O que temas aparentemente tão diferentes como aquecimento global e produção de alimentos podem ter em comum? Há algo que possa ser feito que resulte em melhorias nesses dois aspectos?

Sugiro pensarmos em como a agricultura – uma das atividades econômicas mais importantes no Brasil – pode e deve contribuir para a solução desses dois problemas.

Segurança alimentar, mais do que socorro emergencial às populações com deficiência nutricional, implica em se praticar uma agricultura que seja, ao mesmo tempo, econômica, competitiva e sustentável.

Econômica porque é necessário assegurar renda aos que a praticam.

Competitiva porque há que se produzir alimentos cada vez mais baratos, mais acessíveis às camadas mais carentes da população e, além disso, produzir os dólares imprescindíveis à economia brasileira.

Sustentável porque é fundamental que se pratique agricultura indefinidamente na mesma área, evitando o desmatamento desnecessário. E somente se consegue isso praticando uma agricultura que não cause danos permanentes ao ambiente.

De acordo com estimativas da FAO, nos próximos 20 anos será necessário dobrar a atual produção de alimentos, além da necessidade de se produzir agroenergia.

Essa meta somente pode ser atingida por dois caminhos: aumentar a área cultivada ou aumentar a produtividade das terras já em cultivo.

O aumento da área cultivada é praticamente impossível na maior parte do mundo, principalmente na Ásia, área mais populosa do planeta, pois todas as regiões agricultáveis já estão em uso. Pior, boa parte delas se encontra em risco de degradação.

O Brasil é um dos poucos países do mundo onde existe área a ser ocupada, com regime de chuvas e temperaturas adequadas à agricultura. Mas o aumento da área cultivada implicaria em desmatamento, uma vez que a agricultura ocuparia terras atualmente sob vegetação natural, o que, certamente, encontra restrições nos anseios dos ambientalistas.

O segundo caminho é o aumento da produtividade, através do uso de variedades geneticamente melhoradas, mais produtivas e através do melhor manejo do solo e dos cultivos, o que tornaria a agricultura competitiva, sustentável e econômica, ajudando a se satisfazer a crescente demanda por alimentos, tanto em quantidade como em qualidade, a demanda por matérias primas e por agroenergia.

O aquecimento global tem como uma de suas causas a emissão atmosférica de gases, entre eles o CO2. A principal emissão desse gás vem da queima de combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão, nos países mais desenvolvidos, mas a queima de vegetação e a agricultura tradicional também contribuem para o problema.

Entretanto, o manejo do solo sem aração, sem revolvimento, ou seja, o sistema de manejo conhecido como semeadura direta fixa o carbono atmosférico na matéria orgânica do solo, pelo menos temporariamente.

Estima-se que um hectare (área correspondente a um campo de futebol) pode fixar em torno de uma tonelada de carbono por ano na região sul do Brasil, se o solo for bem manejado, se for praticada uma agricultura moderna, econômica, competitiva e sustentável. Sim, porque o aumento da matéria orgânica do solo melhora suas propriedades, conservando melhor a água e os nutrientes.

Não é uma boa idéia transformar o carbono, que aqueceria o ambiente, em alimentos, matérias-primas e energia, contribuindo para a segurança alimentar, para a resolução do problema da fome e de energia do planeta Terra?