Carta de Itacuruba critica governos de “grandes obras”

A Carta de Itacuruba, assinada por 52 instituições de caráter regional e nacional, foi lida durante a Marcha das Águas.

A marcha reuniu em Itacuruba, no Sertão pernambucano, cerca de três mil pessoa vindas de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.

O documento, transcrito abaixo, será encaminhado aos governos estadual e federal e à organização da Rio+20:

“A Cúpula dos Povos começa hoje!

Entre os dois eixos da Transposição de águas do Rio São Francisco, em direção ao território indígena Pankará, onde o governo pretende instalar a primeira usina nuclear do Nordeste, no coração do Semiárido em tempo de seca, nós, cidadãos, cidadãs, indígenas, quilombolas, movimentos sociais, populações urbanas, igrejas, homens, mulheres, idosos, jovens e crianças, reunidos na Marcha das Águas, juntos com as entidades promotoras e participantes deste Ato Público, inauguramos a Cúpula dos Povos em pleno sertão de Pernambuco, neste dia 03 de junho.

Marchamos para protestar e afirmar que as grandes obras não resolveram o problema do povo; uma usina nuclear só tende a piorar o que já é ruim. Não queremos mais uma obra que destrói a biodiversidade, contamina as águas, polui o ar, ameaça as pessoas e ainda pode deixar lixo atômico para as gerações futuras, nos próximos 100 mil anos.

O POVO NÃO QUER USINA NUCLEAR! Pois, até hoje centenas de famílias sofrem com os desmantelos causados pela Barragem de Itaparica, hoje denominada Luiz Gonzaga; são marcas profundas que o tempo não apaga. Não precisamos da energia termonuclear, porque ela é suja, cara e perigosa. Sob qualquer ponto de vista – social, ambiental, político, econômico e cultural – ela é insustentável e indefensável. Depois do acidente de Fukushima, no Japão, a maioria dos países dela desiste. Por que o Brasil insiste no obscuro Programa Nuclear? Exigimos a imediata suspensão deste programa. Temos, como nenhum outro país, muitas e diversificadas fontes de energia: a biomassa, solar, eólica, das marés – a serem desenvolvidas com respeito às pessoas e ao meio ambiente.

Tudo o que nos prometeram falhou. Nenhuma grande obra nos ajudou. Resultados reais tivemos, em algumas políticas sociais que chegaram dentro de nossas casas, em nossas comunidades e ajudaram a melhorar nossas vidas, boa parte delas em consequência da ação organizada da sociedade.

A hora grave vivida pela humanidade e pelo planeta exige de nós, mesmo ao revés de interesses econômicos, posturas éticas, de responsabilidade mútua pelo Bem-Comum das atuais e futuras gerações. A presença ainda numerosa de povos originários nesta região nos possibilita o resgate de suas tradições culturais, junto com a demarcação de seus territórios, para um diálogo intercultural e afirmação de utopias de “um outro mundo possível”, sem a ameaça nuclear.

Nossa região não precisa de mais uma megaobra problemática, carecemos de investimentos públicos em educação, saúde, segurança, soberania alimentar e hídrica, economia popular e solidária, reforma urbana que humanize a cidade, reforma agrária verdadeira, agilidade no processo de identificação e demarcação dos territórios tradicionais. Queremos investimentos na Convivência com o Semiárido, na agroecologia, queremos água através das adutoras para as populações das cidades e a revitalização do nosso grande manancial que é o rio São Francisco. USINA NUCLEAR NÃO!

A hora grave vivida pela humanidade e pelo planeta exige de nós, mesmo ao revés de interesses econômicos, posturas éticas, de responsabilidade mútua pelo Bem-Comum das atuais e futuras gerações. A presença ainda numerosa de povos originários nesta região nos possibilita o resgate de suas tradições culturais, junto com a demarcação de seus territórios, para um diálogo intercultural e afirmação de utopias de “um outro mundo possível”, sem a ameaça nuclear.

Por isso reafirmamos, a Rio+20 – particularmente a Cúpula dos Povos – começa aqui em Itacuruba, neste dia 03 de junho, em pleno sertão de Pernambuco. Dia que vai ficar marcado para sempre em nossa memória como Dia de Luta, afirmação da vontade popular!”

Em lugar de uma usina nuclear, Marcha das Águas defende a revitalização do São Francisco

Os organizadores e apoiadores da Marcha das Águas usam os mesmos argumentos contra a instalação de uma usina nuclear no Sertão.

Para eles, as grandes obras não resolveram o problema do povo na região.

“Uma usina nuclear só tende a piorar o que é já ruim”, reforça Heitor Scalambrini, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Scalambrini aponta entre os males de uma usina a destruição da biodiversidade, a contaminação da água, a poluição do ar e o lixo atômico.

O lixo atômico tem poder de contaminar ao longo de 100 mil anos. E a usina, segundo projeto federal, seria erguida próximas ao São Francisco.

Em lugar da política de grandes obras, a rede de Articulação Popular do Rio São Francisco Vivo, organizadora da marcha, defende investimentos em ações de convivência com o semiárido.

Quais seriam essas ações?

Entre elas, a rede aponta investimentos na revitalização do rio, agroecologia, educação, saúde e na construção de adutoras para as áreas urbanas.

“Só temos alguns resultados nas políticas sociais simples, que chegaram dentro de nossas casas, que ajudaram a melhorar nossas vidas”, frisa.

E que boa parte dessas ações, diga-se, não chegou ao sertanejo diretamente dos governos, mas via ONGs e igrejas.

Milhares de pessoas protestam, em Itacuruba, contra a instalação de uma usina nuclear

A cidade de Itacuruba é, neste momento, um ponto de protesto contra o projeto do governo federal de instalar uma usina nuclear no  Sertão.

Cerca de três pessoas participam da Marcha das Águas, promovida pela rede Articulação Popular do Rio São Francisco Vivo.

O evento reúne representantes dos movimentos sociais, indígenas, quilombolas e de igrejas dos estados de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.

A marcha começou às 6h deste domingo no trevo de Itacuruba, distante 465 quilômetros do Recife, e seguiu até o centro da cidade.

Foram necessárias cerca de duas horas e meia de caminhada, sob o sol escaldante do Sertão, para vencer um percurso de 12 quilômetros.

Agora, no centro de Itacuruba, estão sendo feitas apresentações culturais e será feita a leitura da carta contra o projeto de implantar usinas nucleares no país.

“Estamos lutando não só contra uma usina em Pernambuco. Também não queremos usinas no Nordeste e no Brasil”, disse Maria José Araújo.

Ela coordena o Projeto Cultura Paz, que integra a rede promotora da Marcha das Águas. A rede, por sua vez, é composta de 45 instituições.

Por enquanto, um Sertão sem usina nuclear

O Sertão pernambucano está livre, por enquanto, de uma usina nuclear.

O Ministério de Minas e Energia anunciou não haver necessidade de energia nuclear no Nordeste até 2021.

A possibilidade de implantação de uma unidade desse tipo, no Sertão, estava sendo estudada pelo Eletronuclear.

Os municípíos de Itacuruba e Belém do São Francisco apareciam entre os lugares considerados ideais.

Isso porque possuem áreas distantes de aglomerados urbanos e têm uma boa fonte de água. No caso, o Rio São Francisco.

As usinas nucleares exigem muita água para operação.

Pelo projeto da União que vinha sendo discutido, o Nordeste teria a primeira usina funcionando em 2019 e a segunda em 2021.

Apesar da afirmação do ministério, os movimentos sociais contrários à construção da usina em Pernambuco estão atentos.

Por uma razão.

A usina pode não entrar  em operação em 2021, contudo pode ser construída antes. Uma vez que o tempo para se erguê-la é de 10 anos.

Com informações da repórter Mirella Falcão, do Diario de Pernambuco

Um cordel contra uma usina nuclear

 

A possibilidade de instalação de uma usina nuclear no semiárido nordestino atiçou a imaginação dos sertanejos. Em especial os de Pernambuco, onde se especula construir a unidade em Itacuruba.

O projeto da usina vem servindo de mote aos poetas populares. De Jatobá, no Sertão vizinho ao lago de Itaparica, o cordelista Climério Lima escreveu o Nosso Sertão não merece uma usina nuclear.

Abaixo, algumas  estrofes do texto que pode ser lido completo no site do Movimento Ecossocialista de Pernambuco (Mespe):

 

“Porque querem construir

Nessa terra renegada

Uma usina nuclear

Pelo mundo condenada?

Porque não constroem mais

 

Hospital, escola, estrada?

Venham melhorar os níveis

Da nossa educação

Melhor salário, emprego

Projetos de irrigação

Proteger o São Francisco

Veia de amor do Sertão

 

Uma usina nuclear

É um perigo constante

Na União Soviética

Numa explosão gigante

Matou e espalhou câncer

Numa área bem distante

 

O lixo dessas usinas

É um resíduo fatal

Não pode ser reciclado

Jogado em qualquer local

Se posto na natureza

É perigoso e mortal

 

Esse tipo de energia

É, por demais, perigosa

A causa de uma explosão

É ligeira e desastrosa

A energia do Sol

É muito mais vantajosa

 

A região vai sofrer

Belém, Floresta e Jatobá

Petrolândia, Paulo Afonso

Sem dever irão pagar

Se o rio São Francisco

Vier se contaminar

 

Projetos de agricultura

Terão que paralisar

Sergipe também Bahia

Preços altos vão pagar

De Pernambuco a Alagoas

Até descambar no mar

 

O problema, como sempre

Sobra pro povo sofrido

Precisamos nos unir

Criar um grande alarido

Político só tem medo

Do povo que está unido”.

“Energia nuclear é suja, perigosa e cara”

As instituições que promoveram a Caravana Antinuclear no Sertão do estado, concluída na última segunda-feira,  divulgaram hoje a Carta de Itacuruba.

Abaixo, o texto que foi assinado por 54 movimentos sociais, igrejas, entidades de classe, ONGs e comunidades indígenas.

CARTA DE ITACURUBA

Nós, cidadãos, cidadãs e entidades promotoras e participantes da Caravana Antinuclear que percorreu, entre os dias 28 e 31 de outubro de 2011, as cidades de Belém do São Francisco, Floresta, Itacuruba e Jatobá, em Pernambuco, ameaçadas pela possível instalação de uma usina nuclear, ao concluir a Caravana, dirigimo-nos às autoridades e a toda sociedade da região, do Nordeste e do Brasil. Através desta carta compartilhamos o resultado destes dias intensos de intercâmbio, aprendizagem e compromisso. Música, poesia, teatro, feira de ciências, fotos, cartazes, oficinas de desenho com crianças, palestras e debates foram oportunidades de informação farta e segura, que o povo da região soube aproveitar, já que não obtém das autoridades.

Uma conclusão cristalina fica da Caravana: O POVO NÃO QUER USINA NUCLEAR! Suas razões, se já eram suficientes após os desmantelos vividos com a megaobra da Barragem de Itaparica, ficaram ainda mais claras com as informações disponibilizadas pela Caravana. Não precisamos da energia termonuclear, porque ela é suja, perigosa e cara. Sob qualquer ponto de vista – social, ambiental, político, econômico e cultural – ela é insustentável e indefensável. Por que retomá-la neste momento, após o acidente de Fukushima, quando a maioria dos países dela desiste? O Programa Nuclear Brasileiro, até hoje desconhecido da sociedade, tem que ser imediatamente suspenso. Neste sentido, apoiamos a recém lançada Proposta de Emenda Constitucional Antinuclear de Iniciativa Popular.

Temos, como nenhum outro país, muitas e diversificadas fontes de energia: biomassa, solar, eólica, das marés – a serem desenvolvidas com respeito às pessoas e ao meio ambiente. Suspeita-se que a motivação da construção das usinas nucleares no Brasil é a produção bélica, nos levando a repudiá-las ainda mais.

O que a nossa região precisa não é de mais uma megaobra problemática, reavaliada e rejeitada pelas grandes potências mundiais, as mesmas que financiam o programa nuclear no Brasil. Carecemos de investimentos públicos como: educação, saúde, segurança, soberania alimentar e hídrica, economia popular e solidária, convivência com o semiárido, agilidade no processo de identificação e demarcação das terras tradicionais, revitalização do São Francisco, dentre outros. Para isso, contem com nosso apoio e participação. USINA NUCLEAR NÃO!

A hora grave vivida pela humanidade e pelo planeta exige de nós, mesmo ao revés de interesses econômicos, posturas éticas, de responsabilidade mútua pelo Bem-Comum das atuais e futuras gerações. A presença ainda numerosa de povos originários nesta região nos possibilita o resgate de suas tradições culturais, junto com a demarcação de seus territórios, para um diálogo intercultural e afirmação de utopias de “um outro mundo possível”, sem a ameaça nuclear.

Sertanejos assinam manifesto contra usina nuclear

Os sertanejos aderiram ao manifesto contra a energia nuclear. E assinaram, junto com instituições nacionais e regionais, a Carta de Itacuruba.

Quarenta entidades subscreveram o documento, que é uma crítica ao projeto de instalação de usinas nucleares no país.  Em particular, em Itacuruba.

Situado às margens do Rio São Francisco, o município foi apontado pela Eletronuclear como um dos possíveis pontos para se construir uma usina.

“Escolhemos Itacuruba por ser cidade-símbolo”, explicou o físico e coordenador da Caravana Antinuclear, Heitor Scalambrini.

A carta foi uma das ações da Caravana Antinuclear, iniciada na última sexta-feira e com desfecho, em Jatobá, nessa segunda.

A caravana começou em Belém de São Francisco, passou por Floresta e por Itacuruba, onde houve o lançamento da carta.

Entre as instituições que assinam o manifesto estão a Articulação Brasileira Antinuclear, Greenpeace, Cáritas e Associação Brasileira de Geógrafos.