Quatro anos após fechamento, Lixão da Muribeca terá chorume tratado

Parece perto do fim o crime ambiental que resulta no lançamento diário de 150 metros cúbicos de chorume, um líquido poluente, no Rio Jaboatão.

O controle do líquido gerado pelo antigo Lixão da Muribeca, segundo um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado em 2008, caberia à Prefeitura do Recife.

De lá para cá, nada foi feito nesse sentido.

Em reunião na CPRH, nesta terça-feira, a Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) apresentou um plano para tratar do chorume.

A proposta é transportar o líquido, via dutos, até à Central de Tratamento de Resíduos (CTR) Candeias, localizada a metros do antigo lixão.

Na CTR, o chorume receberá o tratamento adequado.

“Isso estava previsto para fevereiro, mas não foi possível por problemas operacionais”, disse o presidente da Emlurb, Antônio Barboza.

A nova data para o começo da operação é 2 de maio.

Segundo Barboza, o chorume não está sendo lançado no rio desde o último dia 9, quando o produto começou a ser estocado em lagoas de decantação.

“A solução apresentada pelo Recife é bastante razoável e possível de ser executada”, avaliou o Rodolfo Aureliano, gerente de Planejamento da Secretaria de Serviços Urbanos de Jaboatão dos Guararapes.

Uma das preocupações, argumentou Rodolfo, é se o plano evitaria despejos de chorume em tempos de chuva. O assunto será discutido nos próximos dias.

O TAC para o fechamento e posterior monitoramento do Lixão da Muribeca foi firmado pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE), governo do estado e as prefeituras do Recife e de Jaboatão dos Guararapes.

O destino do lixo na selva amazônica

Se os governos fizessem o que cobram das empresas, as cidades seriam outras.

Essa regra vale para o Brasil e também para o Peru.

A maioria das cidades peruanas, assim como grande parte dos municípios  brasileiros, não dispõe de aterros sanitários.

Em contrapartida, as cobranças às empresas são muitas, mas explicáveis.

Exemplo disso são cidades como Huánaco e Tingo Maria, no Peru, e as obras da Hidrelétrica de Chaglla, construída pela Odebrecht.

Nas duas cidades,  o lixo pode ser encontrado em quase todos os recantos: no meio das ruas, em encostas e nas margens de rios.

As obras da hidrelétrica, na floresta amazônica, estão no sentido contrário.

Há lixeiras em todos os canteiros de Chaglla para a separação de resíduos e posterior tratamento e destino adequados.

Em setembro,  mais de 10 toneladas de resíduos foram coletadas nos canteiros.  Foram 8,3 toneladas em agosto.

Os produtos orgânicos, em sua maior parte, são transformados em compostagem e essa distribuída para moradores da região.

Parte da madeira também é entregue aos agricultores do entorno da obra.

Papel e metal, por exemplo, são levados de caminhão para Lima, a mais de 500 quilômetros da obra.

Por que viagem tão longa?

Lima é a cidade mais próxima – e única no Peru – com estrutura apropriada para tratar e destinar adequadamente dos resíduos.

A poucos metros, fora da obra, os moradores da região fazem das margens do Huallaga um depósito de lixo.

O contraste incomoda, mas pode ter efeito didático.

Afinal, habitantes e governantes da região podem aprender com o que a empresa anda fazendo na hidrelétrica.

E o que a Odebrecht segue, sob o olhar do governo peruano e do  BID, são as regras de sustentabilidade exigidas pelas leis brasileiras.

Desse modo, não apenas se respeita as normas do Peru como se vai além.

Explica-se: nossa legislação é mais  avançada do que as do país vizinho.

O maior e-lixão do mundo

Onde está o maior lixão de eletrônicos do mundo?

Se usarmos a lógica da produção e do consumo pensaríamos em países como  Estados Unidos e  Japão. Errado. Mas o lixão fica em Gana, na África.

O e-lixão cresceu na favela de Agbogbloshie, em Acra, capital de Gana. Ali, cerca de 40 mil pessoas sobrevivem do material reciclável.

Para garantir o sustento, as famílias de Agbogbloshie convivem diariamente com produtos perigosos, a exemplo do mercúrio e do chumbo.

Jogados a céu aberto ou incinerados, como costuma ocorrer no e-lixão, esses produtos contaminam o solo, a água e as plantas, rebatendo no ser humano.

A realidade de Acra chamou a atenção do cineasta David Fedele, que produziu o filme e-wasteland. Em português, terra do descartável.

Nos últimos anos, a África tornou-se um depósitos de resíduos eletrônicos do mundo. O continente recebeu cerca de 50 milhões de toneladas de e-lixo.

Sertanejos desconhecem destino do lixo que produzem

Imagem: Célio Cruz /Divulgação

Imagem: Célio Cruz /Divulgação

O destino adequado ao lixo está longe das principais preocupações de grande parte dos pernambucanos.

Peguemos o caso do Sertão. A Caravana Cremepe/Simepe 2011, cujo relatório final foi divulgado hoje, mostra que os moradores de 52 cidades aprovam a coleta de lixo local.

“Mas poucas pessoas entrevistadas sabiam do destino dado pelas prefeituras aos resíduos”, revelou Fernanda Soveral, coordenadora executiva do Centro de Estudos Avançados do Cremepe.

Ao não procurar saber do destino do lixo, a população abre brechas para o que a caravana encontrou em Mirandiba.

A coleta do município recebeu a nota 9, a maior entre as 25 reveladas ontem, mas no lixão da cidade a caravana encontrou material hospitalar misturado ao doméstico.

Além de contaminar o solo, o lixão de Mirandiba era uma porta para contaminação dos catadores. “Ouvimos relatos de pessoas  que adoeceram por se ferirem em seringas e outros materiais hospitalares”, disse a coordenadora.

Fernanda integrou o grupo da caravana que esteve em Mirandiba, Carnaubeira da Penha, São José do Belmonte, Cedro, Serrita, Parnamirim, Terra Nova, Verdejante.

Nenhuma das 25 notas atribuídas à coleta de lixo ficou abaixo de 5, tendo mais da metade superado a média 6. A nota poderia ser de zero a 10.

A realidade dos lixões, no entanto, estava longe do ideal dos aterros sanitários.