Chico Mendes de látex

O governo do Acre sabe bem a simbologia de Chico Mendes, assassinado há 23 anos, na luta pela preservação do meio ambiente.

Tanto sabe que costuma expor um busto de Chico nos estandes que monta em feiras regionais, nacionais e internacionais.

O busto, confeccionado com o  látex da seringueira, costuma ser um dos principais atrativos dos estandes. Foi assim na Rio+20.

Chico Mendes era seringueiro, ambientalistas e líder sindical em Xapuri (Acre), onde ocorreu seu assassinato em dezembro de 1988.

A atividade política em favor da preservação da Floresta Amazônica deu projeção mundial a Chico, batizado Francisco Alves Mendes Filho.

Recado eletrônico sobre sustentabilidade

Os recursos eletrônicos foram escolhidos por grande parte dos países, expositores, na Rio+20, para mostrar seus investimentos em sustentabilidade.

Montado pelo governo federal, o Pavilhão do Brasil retratou bem isso com várias tendas. Em cada uma, temas específicos eram exibidos em diversos telões.

Detalhe: as imagens dos telões eram diferenciadas, mas todas relacionadas ao mesmo assunto, a exemplo de agricultura e turismo.

O filme sobre agricultura incluía o cultivo de frutas às margens do Rio São Francisco, em Petrolina, Sertão de Pernambuco.

O governo da Bahia levou para a Rio+20 um dos estandes mais atraentes.

Diante do espaço baiano, os visitantes imaginavam estar diante de um telão, mas tratava-se de um jogo de cinco espelhos.

As imagens eram projetadas em um dos espelhos e refletiam nas demais, formando um caleidoscópio moderno.

Da madeira à energia solar

Alguns países, estados e cidades não apenas expuseram os seus projetos voltados para a sustentabilidade, na Rio+20, como procuram mostrar isso na confecção dos estandes.

Os italianos capricharam. Em um dos maiores estandes montados no Parque dos Atletas, na Barra da Tijuca, eles usaram produtos de fácil reuso e reciclagem.

No interior do estande, a Itália usou papelão, cordas e caixas de madeira. As centenas de caixas, usadas para o transporte de verduras, formavam paredes.

O melhor no quesito preservação ambiental do estande estava na parte externa.

Três das quatro fachadas do projeto italiano foram transformadas em painéis solares. A energia gerada era empregada no próprio estande.

O governo do estado do Rio de Janeiro também considerou a sustentabilidade.

As fachadas do estande fluminense foram montadas com paletes, que são usados por empilhadeiras nas operações de transporte e armazenamento.

Pernambuco optou pelo papelão. Paredes, cadeiras, bancos e até o mapa do estado foi feito com esse produto de fácil reuso e reciclável.

Os estantes foram montados no Parque dos Atletas, na Barra da Tijuca.

Chance perdida

A Rio+20 chega ao fim com um sentimento de frustração.

O governo brasileiro até que tentou um acordo mais “ambicioso”,  como assumiu alguns ministros, mas esbarrou nos interesses dos países ricos.

Com um documento sem grandes metas, os governos dos países pobres, cientistas e a sociedade civil tecem um rosário de reclamações.

A esperança de poucos avanços estava nos ares da Rio+20 e da Cúpula dos Povos desde a semana passada, consolidando na quarta-feira.

A conferência, segundo ambientalista, deve ficar conhecida como mais uma oportunidade de mudar o rumo do planeta.

E as críticas  estão em vários pontos do Rio de Janeiro.

Os catadores de lixo fizeram a sua em um banner. Para eles, a categoria faz mais pelo planeta do que toda a conferência das Nações  Unidas.

Uma cidade bloqueada

A cidade do Rio de Janeiro acordou em clima de prontidão.

Nos acessos à Barra da Tijuca, centenas de militares federais e estaduais fazem bloqueios.

A segurança ganhou reforço maior próximo ao Riocentro, onde neste momento ocorre a abertura oficial da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável.

A poucos metros do Parque dos Atletas, lugar dos estandes governamentais, homens do Exército impedem que manifestantes passem.

O acesso é exclusivo aos credenciados. A visitação foi aberta a todos até ontem.

No pavilhão em que se encontram os chefes de estado, o acesso é ainda mais restrito.

Resta acompanhar a cerimônia pelos telões.

A rotina dos moradores de edifícios perto do Riocentro também ficou complicada por conta das barreiras e dos engarrafamentos.

Por “sorte”, decretou-se feriado no Rio de Janeiro até sexta-feira.

Os moradores saem de casa e as comitivas nacionais e estrangeiras têm as ruas livres em uma cidade de trânsito complicado.

Cocar de homem em cabeça de mulher

A brasileira Letícia Yawanawa, 48 anos, roubou a cena nos debates sobre os direitos das mulheres da Rio+20.
  
Ao microfone, ela pediu que as autoridades brasileiras e internacionais olhassem para as mulheres indígenas.
 
Letícia carrega no sobrenome a denominacao de sua tribo, que vive no estado do Acre.
A tribo reúne 200 familias e cerca de 1,8 mil pessoas.
 
“Os governos e a sociedade olham para nós, mulheres, apenas como índio. Não percebem que é preciso ver que entre os índios existe também a questão do gênero”, afirmou.
As mulheres são as principais responsáveis pela preservação dos conhecimentos sobre a medicina e a agricultura indígenas.

E a brasileira lembrou: “plantar e curar está muito ligado ao cuidado com o meio ambiente”.

Para mostrar sua indignação na Rio+20, a mulher Yawanawa, veio para a conferëncia com o cocar do pajé Tata.

“Quem sabe assim, vestida do poder do homem, não me escutam”, completou.

O cocar do pajé, conforme a tradição Yawanawa, pode ser usado apenas pelos homens.

Mas os homens da tribo entenderam as queixas de Letícia, coordenadora do movimento de mulheres indígenas do Acre.

Resta às autoridades brancas repetirem o gesto.

O recado da arte

Na Rio+20 e nos eventos paralelos, há vários formas de se discutir a sustentabilidade do .

Zenildo Barreto encontrou uma forma peculiar.

No Aterro do Flamengo, ele montou uma exposição.

As peças são troncos e galhos queimados de árvores da Mata Atlântica.

No meio das esculturas, o artista desenhou o mapa do Brasil.

As linhas do mapa são feitas de pedras de carvão vegetal resultantes da queima da Mata Atlântica.

“Nasci no meio da mata e vi, em três décadas, quase tudo ser destruído”, contou.

A destruição de que Zenildo fala ocorreu na Bahia, estado onde nasceu e do qual foi exilado pelo regime militar nos anos 1960.

Ele retornou ao Brasil somente no começo dos anos 1980, após a Anistia.

Apesar do desmatamento, Zenildo acredita ser possível recuperar a Mata Atlântica pela diversidade genética do que existe nas áreas remanescentes.

“O recado está aí. E a natureza dá elementos para salvar a Terra”, disse.

A exposição “A estética que a natureza não pediu… Parque das árvores queimadas”, resume, é um apelo.

 

 

Corrida contra o relógio na Rio+20

Na Rio +20, uma pergunta incomoda: vai dar tempo para o fechamento de um acordo que não represente um retrocesso ambiental?

É que, a pouco mais de 24 horas do fim das negociações diplomáticas, as conversas estão empacadas em seis pontos.

Um deles é a transferência de tecnologia, que possibilitaria a implantação da economia verde, dos países ricos para os países pobres.

Como um acordo não foi selado, os debates devem virar a noite. Que não seja em vão.

Enquanto os negociadores estão a portas trancadas, palestras e seminários prosseguem no Riocentro.

Os ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, e do Chile, Michelle Bachelet participaram de debates na tarde desta segunda-feira.

Quem fala é o dinheiro

O que separa os países na Rio+20 é o dinheiro e não as ideias.

Prova está no anúncio de que o financiamento dos programas para se implantar a economia verde ficará mesmo para 2014.

Os países ricos, a grande maioria em crise financeiro, voltam-se para o próprio umbigo.

Sem isso, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável pode chegar ao fim com um documento mais enxuto.

Um  documento, no dizer dos negociadores brasileiros, que vai evitar retrocessos e até avanços.

Mas um calhamaço incapaz de colocar a economia para rodar nos novos moldes da sustentabilidade.

Isso é lamentável.

E o clima de pesar pode ser percebido nos diplomatas brasileiros que estão à frente das negociações, no Riocentro, desde a última sexta-feira.

O documento para ser apresentado aos chefes de estado deve ficar pronto amanhã.

Cúpula dos Povos: várias línguas e dois objetivos

A Cúpula dos Povos também é uma babel de línguas, como a Rio+20,  mas parece ter o poder de agregar gente com objetivos mais comuns.

Nas quase 60 tendas armadas no Aterro do Flamengo, os discursos, muitos em tom de protesto, falam de preservação do meio ambiente e justiça social.

“Estamos brigando para o desenvolvimento chegar, mas sem tanta coisa ruim”, disse o agricultor Juscelino Andrade, 53, de Minas Gerais.

O agricultor perdeu as terras para a construção de uma hidrelética.

Juscelino participou de uma das cinco plenárias realizadas até o começo desta tarde. Outras cinco estão previstas para hoje.

Algumas plenárias reúnem cerca de mil pessoas de vários países, enquanto a Cúpula deve reunir aproximadamente 50 mil pessoas.

As discussões devem gerar um documento a ser apresentado no dia 23, data de encerramento da Cúpula dos Povos, que ocorre paralelamente à Rio+20.

Até lá, os participantes da Cúpula se revezam entre debates e momentos lúdicos. No meio do aterro, alguns brincam de ter o planeta ao alcance das mãos.

“Essa Terra é nossa”, gritavam estudantes em meio a fotografias.