Seca reduziu em 80% a coleta de sementes da Mata Atlântica

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Sementes de “orelha de burro”. Foto: Paulo Paiva/DP/D.A.Press

As chuvas chegaram nas últimas semanas na Região Metropolitana e Zona da Mata, mas nem todas as perdas pela estiagem serão revertidas de imediato.

Os projetos de reflorestamento, como o do Viveiro Florestal de Suape, onde se produziu 323 mil mudas em 2012, ainda sentem os efeitos da seca.

Nos últimos meses, os mateiros tiveram dificuldade de colher sementes de espécies da Mata Atlântica.

“De 20 tipos ou mais de sementes que devíamos colher, nos últimos meses, conseguimos coletas produtivas de cinco espécies”, revelou o técnico agrícola Moisés Inácio do Nascimento.

Coleta produtiva, esclareceu Moisés, é aquela em que a quantidade de sementes colhidas é suficiente para atingir a meta planejada.

A meta por espécie é de cinco mil no Viveiro de Suape, por exemplo.

Mas algumas espécies tiveram coleta “zero” devido à falta de chuvas. Foram os casos da pitomba, do tamboril e do chixá, conhecido como mandiocão.

Outras espécies tiveram coletas irrisórias, como o Jacarandá, com menos de 300 sementes até o começo de abril, e o Babatimão, com menos de 200.

“A estiagem mudou o ciclo das espécies e dificulta o nosso trabalho”, afirmou Enio Teixeira, gestor do viveiro.

Em 2012, a meta anual de 250 mil mudas foi alcançada em agosto, sendo possível a produção extra de 73 mil mudas no ano.

Agora, com a meta de 450 mil para 2013, o viveiro ficou, de certa forma, mais refém da natureza. Ou melhor, dos recados do clima.

Que tal tombar os umbuzeiros?

A história é conhecida. Basta a seca reaparecer para surgirem “grandes” projetos. Há sempre um superlativo para vencer a estiagem.

Passadas décadas, os males da seca persistem, mas essa velha conhecida continua  a dar sinais de que a saída para o problema não está fora do Sertão e do Agreste.

“A solução é visível na terra seca. Está na natureza. Não vê quem não quer”, disse-me um sertanejo, há poucos dias, no Sertão das Alagoas.

O senhor, enquanto falava, apontou para um umbuzeiro.

Em torno da árvore quase tudo estava estava cinza e coberto de poeira. Ela permanecia verde.  E melhor: florida e carregada de frutos.

Aquilo era e é, no entender do sertajeto, a prova de que os “falantes” governos deveriam investir mais nas ações de convivência com a seca.

A tristeza dele é com a destruição dos umbuzeiros.

“Tudo para criar bois, plantar capim e lascas de lenha”, lamentou.

Ao contrário disso, ele lembrou que as árvores produzem não apenas sombras, mas matéria-prima para bebidas e doces. Falta incentivo.

Então, cadê os governos?

Para minha surpresa, o sertanejo veio com uma proposta ainda mais interessante: tombar os umbuzeiros do Sertão. De pronto, concordei.

Correndo atrás do prejuízo

Antes tarde do que nunca.

Esse ditado cai bem para ações de monitoramento dos eventos climáticos extremos no Brasil, que há mais de uma década vê aumentar a frequência e a intensidade de secas e enchentes.

Apesar disso, o governo federal somente agora criou um Grupo de Trabalho para monitorar o clima e antecipar informações para os produtores rurais.

Agindo de maneira preventiva, espera-se dois resultados:

Primeiro, reduzir  a quantidade crescente de recursos destinados às consequências dos eventos climáticos.

Segundo, diminuir os gastos para a recomposição dos mercados afetados por fenômenos como alagamentos, estiagens, erosões e vencavais.

Espera-se, em outras palavras, minimizar os impactos das alterações do clima.

O Grupo de Trabalho foi instituído por uma portaria, a de número 294, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A proposta é que o grupo, formado por especialistas de órgãos como o Inmet e Embrapa, forneça informações semanais ao ministério.

E pelo que aponta as enchentes no Sudeste e a seca no Nordeste, os técnicos envolvidos nos trabalhos terão muito a fazer.

Cisternas levam agricultora a cuidar do meio ambiente

A relação da agricultora Ivanilda Maria Tavares, 45 anos, com a natureza pode ser dividida entre antes e depois de ganhar duas cisternas.

“Descobri que a terra assim como as pessoas precisa ser alimentada, bem cuidada. Sem isso, pode não produzir”, disse.

Essa percepção nasceu em 2003, quando Ivanilda teve direito ao primeiro reservatório, conhecido popularmente como “cisterna de beber e cozinhar”.

A cisterna foi a primeira de São Caetano, no Agreste pernambucano.

Construída graças à parceria entre o governo federal e a Articulação do Semi-Árido (ASA), ela armazena até 16 mil litros de água.

Seis anos depois, Ivanilda ganhou a segunda cisterna.

Do tipo calçadão, por dispor de uma calçada por onde a água das chuvas escoa,  esse reservatório tem capacidade para 52 mil litros de água.

A segunda cisterna tem como função garantir água para produção de alimentos, como frutas e verduras, e manutenção dos animais.

Começou aí o que Ivanildo chama de “grande mudança na cabeça”.

Ao ser incluída no programa, a agricultora passou a participar de treinamentos e de  intercâmbios promovidos pela ASA.

E essa experiência das cisternas está sendo levada pela ASA para a Cúpula dos Povos, evento paralelo à conferência  Rio+20.

“Vi que dava para ter alimento sem maltratar a natureza”, relembrou.

Por maltratar a natureza, explicou a agricultora, estava o uso de agrotóxicos, as queimadas frequentes e a monocultura.

Hoje na propriedade, de apenas um hectare, o plantio é variado, o adubo é orgânico e o fogo sumiu das práticas que antecediam o preparo do solo.

São técnicas, frisou Ivanilda, que aprendeu com a agroecologia.

A propriedade fica no Sítio Boqueirão. Ali, embora seja tempo de seca, existem plantações de macaxeira, banana, maracujá e uva.

Na seca, cacto alimenta o gado

É triste ver a caatinga sendo destruída, no Nordeste, sem que muitos estudos sejam feitos para atestar a riqueza de sua flora.

A riqueza pode ser comprovada com o xiquexique.

Nesse tempo de estiagem, o cacto é um dos poucos sobreviventes da flora sertaneja. E alimenta o gado faminto.

Para essa tarefa, os agricultores agem cuidadosamente.

Antes de servi-lo aos animais, queima-se o cacto para acabar com os espinhos, que são muitos.

“O gosto não é lá dos melhores”, diz o vaqueiro Cláudio Olímpio de Sá, 58 anos, morador de Floresta, no Sertão pernambucano.

Mas na ausência de outros vegetais, completa o vaqueiro, o xiquexique torna-se a salvação para os bichos sujeitos à fome.

Eis um motivo para se investir na proteção da caatinga.

Animais morrem vítimas da seca

Os estragos da seca estão por quase todo Pernambuco. Mas são percebidos principalmente no Sertão e Agreste.

Depois da vegetação esturricada, os animais entram na lista das vítimas da estiagem.

Em Floresta, a 434 quilômetros do Recife, os exemplos são muitos.

Desde o início deste ano, quatro reses morreram na fazenda de Ulisses de Souza Ferraz, 83 anos, vítimas da falta de água e de alimentos.

O quinto animal, lamenta o fazendeiro, pode morrer a qualquer momento. É a vaca Lavrada, que perdeu as forças.

De tão fraco, o animal ficou de pé durante oito dias graças à uma tipoia.

Ulisses, ao ver que o quadro de  Lavrada era irreversível, resolveu cortar os panos e desatar os nós das cordas que sustentavam a vaca.

O uso da tipoia também acontece no sítio de Juviniana Constança de Jesus, 73.

A agricultora dedica parte do dia para salvar três vacas.

São horas cortando palma, comprada a “preço de ouro”, e colocando água para manter de pé os animais.

“As vacas não valem nem metade do que já gastei. Gasto para não ver os bichos morrerem à míngua”, desabafa.

Se deixarem os animais deitarem, contou Ulisses, as pernas adormecem e, aos poucos, eles perdem a força por completo. E morrem.

Rios e barragens secaram devido à estiagem

Os rios, riachos, açúdes e barragens do Sertão, Agreste e na Zona da Mata retratam bem o tamanho da estiagem em Pernambuco.

As unidades que ainda não secaram estão perto disso.

Em Triunfo, conhecido pelo clima ameno e distantes 402 quilômetros do Recife, até poços estão secando. A água deixou de correr no Riacho Canaã.

“É muito difícil ver o Canaã desse jeito. A água do riacho não parava de correr há cinco anos”, disse o motorista Sidney Rufino, 37 anos.

O Canaã desemboca no Rio Pajeú, que também secou.

Imagem semelhante pode ser vista no Riacho do Chinelo, em Carnaíba, município sertanejo a 399 quilômetros da capital.

Grande parte do Chinelo está vazia.  Isso porque a barragem com o nome do riacho não sangrou neste ano.

A Barragem Barra de Juá de Floresta, longe 434 quilômetros do Recife, encontra-se em nível considerado crítico. Menos de 30% de sua capacidade.

Sem água doce por perto, os sertanejos compram água a “peso de ouro”.

A aposentada Antonia Matos, 87, de Serra Talhada, distante 412 quilômetros do Recife, paga R$ 10,00 por um tonel de 200 litros de água.

Falta água doce no Sertão

A seca está deixando o Sertão cinza. E a água doce virando artigo de luxo para  moradores da região, como a agricultura Maria Ivanete dos Santos, 37 anos. Ela mora no município de Flores, a 384 quilômetros do Recife.

Há semanas, Maria Ivonete prepara os alimentos e toda a família – nove pessoas – toma banho com água salobra. A água de boa qualidade desapareceu de açudes, rios e riachos com a estiagem. Não chove forte no município há meses.

Na casa da agricultora, a água salobra chega graças à boa vontade de um vizinho que permite o acesso a um poço artesiano. Mas o poço deu sinais de que pode secar a qualquer hora caso não chova.

“Tirar uma lata d’água tem sido coisa trabalhosa”, lamenta.

Banho tem que ser com pouca água. Difícil também tem sido lavar roupa. Maria Ivanete, ao menos uma vez por semana, vai ao Rio Pajeú. Ou melhor, anda até as poças que sobraram do curso d’água. O Pajeú está seco.