Por Jornal da USP

Em geral, quem se interessa por Letras tem sensibilidade para literatura, facilidade em aprender idiomas e vontade de passar seu conhecimento à frente — seja como docente, pesquisador, revisor, tradutor ou intérprete.

“O estudante de Letras ama conhecer novas culturas”, observa Lica Hashimoto, professora de japonês da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Por isso mesmo, ele consegue dialogar com o outro, tem empatia por outros povos e está mais preparado para viver em um ambiente globalizado”, avalia.

Durante a graduação, o aluno de Letras passa por uma série de etapas como o ciclo básico, a escolha da habilitação, o ranqueamento e a licenciatura.

O ciclo básico se refere ao primeiro ano do curso, quando todos os estudantes têm uma grade curricular comum, com aulas de Introdução aos Estudos Clássicos, Introdução aos Estudos Literários, Introdução ao Estudo da Língua Portuguesa e Elementos de Linguística.

Ao final do primeiro ano, o aluno deve escolher ao menos uma das 16 habilitações que o curso oferece: alemão, árabe, armênio, chinês, coreano, espanhol, francês, grego, hebraico, inglês, italiano, japonês, latim, linguística, português e russo.

Desafios

Com exceção do inglês — que presume que o aluno tenha um nível intermediário do idioma —, as habilitações de língua estrangeira não cobram conhecimento prévio. Os primeiros semestres do curso são voltados para a aquisição da língua, um desafio geral da graduação em Letras.

No caso do italiano, as disciplinas de literatura se adaptaram a esse aprendizado. Ao invés de o aluno começar os estudos da literatura italiana pelo textos clássicos, cuja linguagem é mais arcaica, as aulas partem de obras contemporâneas, como Umberto Eco e Italo Calvino, pois a linguagem é mais atual e próxima do que o estudante vai usar no dia a dia. “Com o passar dos semestres, ele vai acumulando bagagem para ler as principais obras clássicas italianas no original”, explica Maria Cecilia Casini, professora de italiano.

Em línguas orientais, cuja escrita também difere da nossa, os alunos passam algumas semanas aprendendo uma nova forma de pensar a linguagem.

Para aperfeiçoar o processo de aprendizagem, as habilitações possuem convênios com universidades do exterior. “Apesar de ser um país muito aberto e diversificado, o Brasil ainda tem uma tradição monolinguística”, analisa John Milton, professor de literatura inglesa. “Isso dificulta o aprendizado de novas línguas porque, fora da sala de aula, o aluno só ouve e fala português.”

“Em alguns casos, somente a internacionalização pelo intercâmbio dará ao aluno a imersão e a fluência na língua que ele precisa”, acrescenta Lica Hashimoto.

Outra ação em direção a uma melhor aprendizagem é a flexibilização do curso, uma tentativa de diminuir a carga de disciplinas obrigatórias para aumentar a de optativas. Os professores esperam que assim os alunos tenham mais tempo para cursar disciplinas focadas na área na qual querem atuar, dando ênfase em matérias de tradução, cultura ou licenciatura, por exemplo.

Mercado de trabalho

Apesar da grande procura pela habilitação em inglês, outras línguas também oferecem um mercado de trabalho promissor.

Qualquer empresa multinacional, por exemplo, requisita intérpretes para fechar negócios no exterior. “Apesar do inglês ser uma língua universal, as empresas ainda preferem fechar negócios em sua língua materna”, diz Lica.

Além disso, o profissional de Letras ainda ocupa a maior parte das vagas no mercado editorial, como revisor, crítico ou tradutor literário. “Tendo cursado Letras, os estudantes são hábeis leitores e produtores de texto. Podem exercer funções de editores, revisores, professores e escritores”, afirma Deize Crespim Pereira, professora de armênio.

Ainda sim, a docência na educação básica e no ensino superior continuam recebendo a maior parte dos formados. “Recomendamos que os alunos façam pós-graduação para ampliar o campo de atuação profissional”, sugere Gabriel Steinberg Schvartzman, professor da habilitação em hebraico.