Por Jornal da USP

Os mistérios dos mares e suas razões sempre estiveram presentes no imaginário das civilizações humanas, desde os deuses usados para explicar fenômenos naturais no Egito e na Grécia até hoje. Passado o tempo das mitologias, hoje, quem assume o papel de desvendar os segredos marítimos é a oceanografia.

Realizando a ponte entre diferentes ciências dentro da exploração de fenômenos físicos, químicos e biológicos dos oceanos, a oceanografia é um campo de estudo que congrega desde a zoologia à astronomia. O monitoramento da dinâmica do terreno dos mares, por exemplo, é feito por meio de satélites, ao mesmo tempo em que existe uma grande quantidade de seres vivos ainda não descobertos a muitos metros abaixo do nível do mar.

Graduação
O Bacharelado em Oceanografia possibilita ao aluno identificar e compreender os processos oceanográficos, além das inter-relações entre o oceano e seus principais compartimentos de contorno: a atmosfera, as áreas emersas e os fundos marinhos atuais.

O aluno Henrique Batistuzzo, que está em seu último semestre, conta que um dos grandes atrativos para escolher o curso foi a interdisciplinaridade. “Acredito que, justamente, o fato de trabalhar com diferentes áreas do conhecimento é o que me trouxe para a oceanografia”, conta, após dizer que durante a graduação chegou a entrar em contato com laboratórios de biologia e física, áreas em que realiza seu trabalho de conclusão da graduação.

Nas disciplinas do curso, há um enfoque para física, química, geologia e biologia, direcionadas ao entendimento dos processos e à interpretação e previsão de fenômenos que ocorrem nos oceanos. Henrique, que havia estudado na Escola Politécnica (Poli) da USP antes do IO, revela ter sido surpreendido nessas matérias. “Eu não esperava a dificuldade que encontrei nas disciplinas do ciclo básico [dois primeiros anos do curso], mas saímos de lá com uma boa base para o restante do curso.”

Prática
Os laboratórios e viagens também são apontados por Polito e Henrique como uma das melhores partes da graduação. O IO conta com barcos e bases marinhas no litoral de São Paulo, possibilitando aos estudantes entrar em contato com seu objeto de estudo e cumprir as 150 horas de embarcação obrigatórias para a formação.

Porém, viver navegando não é obrigação para quem deseja seguir na área: satélites têm facilitado bastante a vida de pesquisadores de algumas áreas da oceanografia. Há laboratórios de campo nas bases de pesquisa Clarimundo de Jesus, situada na cidade de Ubatuba, e Dr. João de Paiva Carvalho, no município de Cananeia. Existe ainda a possibilidade de expansão das atividades em Santos. Em relação às embarcações, o instituto possui o navio oceanográfico Alpha Crucis e os barcos oceanográficos Alpha Delphini, Veliger II e Albacora.

Carreira
A interdisciplinaridade da graduação permite aos formados seguir para diferentes campos do conhecimento, inclusive fora da oceanografia. A pesquisa acadêmica também é uma opção de carreira. Este, aliás, é um dos desejos do estudante Henrique, que pretende seguir estudando oceanografia e ingressar no mestrado após concluir a graduação.

Na iniciativa privada, a aquicultura e a pesca, ambas centradas na área biológica, e a engenharia oceânica e exploração mineral, na área física e geológica, são exemplos de setores que representam um grande potencial de emprego para oceanógrafos.

As consultorias ambientais, que realizam estudos de impacto e de monitoramento ambiental, geram oportunidades para todas as áreas da oceanografia. O profissional também pode atuar na gestão ambiental, articulando ações visando à adequação dos meios de exploração dos recursos naturais às especificidades e fragilidades socioculturais e do meio ambiente.

Tanto o professor como o estudante apontam que, apesar da interdisciplinaridade, após o ciclo básico os alunos se dividem entre as áreas de estudo possíveis dentro do leque de possibilidade abertos. “É claro que o diploma é o mesmo para todo mundo, mas é inevitável que cada um acabe rumando para uma dessas áreas: biologia, física, química e geologia. Até uma quinta área, de oceanografia humana”, explica Batistuzzo.