por Rosália Vasconcelos

Uma das áreas que mais preocupam os que vão se submeter às provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) são os assuntos relacionados a atualidades, que podem ser cobrados tanto em questões objetivas quanto na redação. Primeiro porque não são conteúdos estáticos. Também não são ministrados de forma programática em sala de aula. Esses assuntos exigem que os alunos estejam conectados com o que está acontecendo no país e no mundo nos últimos dois anos e quais os efeitos desses acontecimentos para a sociedade como um todo.

Assuntos como os motivos e as consequências dos movimentos migratórios da população de diversas nacionalidades estão entre as apostas dos professores, porque suscitam temas relevantes para a humanidade como a configuração da nova geopolítica mundial, xenofobismo, direitos humanos e crises humanitárias.

“O Enem trabalha reflexões críticas para avaliar as habilidades e competências dos alunos. Os fatos em si não são cobrados de forma direta, mas de maneira interpretativa. Na prova, são inseridos textos, imagens que abordam assuntos que estão sendo discutidos no Brasil e no mundo e pede-se que o aluno observe, reflita e tire conclusões para que possa responder as questões”, alerta o professor de história do Colégio Damas, Lula Couto. Temas que possam envolver pautas partidárias não devem ser motivo de preocupação dos alunos, segundo o professor.

Como a prova do Enem é fechada até o meio do ano, fatos pontuais do segundo semestre também não aparecerão na prova, a menos que sejam desdobramentos do que tem acontecido ao longo dos dois últimos anos .

A professora de produção textual do Colégio e da Faculdade Damas, Sandra Lima, lembra que o aluno tem que estar atento às discussões no Brasil e no mundo. O estudante precisa contextualizar fatos econômicos, sociais, políticos e culturais com a grade curricular vista ao longo do Ensino Médio nas aulas de história, geografia e literatura, por exemplo. “O poder das redes sociais na mudança de comportamento das pessoas em relação às vacinas pode ser um tema a ser explorado tanto na redação quanto na prova de conhecimentos.

O aluno pode ser intimado a mostrar conhecimentos adquiridos ao longo da sua formação, como a Revolta das Vacinas, que é um assunto puramente histórico mas que hoje ganha novas conotações. O direito à moradia e à cidade, o futuro das metrópoles e os problemas da mobilidade são pautas que podem cobrar conhecimentos históricos e geográficos. E o aluno que mostrar conteúdo em seu texto será o diferencial nas provas”, completa Sandra. Ouvir músicas, assistir documentários, ler poesias e entender as metáforas das palavras são estratégias que ajudam o estudante no processo de construção e contextualização das ideias.

A vestibulanda Mariana Cyreno, 17, está no terceiro ano do ensino médio do Colégio Damas, e confessa que sempre achou difícil acompanhar os fatos e dar conta do conteúdo visto em sala de aula. Mas que, por conta da prova do Enem, tem buscado constantemente as notícias para não ficar “defasada” em relação aos outros. “Além dos sites e aplicativos de notícias, uso o Guia do Estudante – Atualidades para me dar essa base. Ele é lançado semestralmente e traz resumos e questões das temáticas globais. Também evito redes sociais neste momento para não cair nas fake news”, afirma a estudante que tenta uma vaga no curso Engenharia de Produção. Já Cecília Magalhães, 17, que estuda no Colégio Damas.

Cecília vai prestar vestibular para medicina, um dos cursos mais concorridos e diz que a preparação para as questões de atualidades começou desde que ingressou no ensino médio. “Tento ver os reflexos dos assuntos abordados em sala com o que está acontecendo no dia a dia em jornais, revistas e redes sociais. Também faço muitas pesquisas na internet para esclarecer tópicos que não entendo. E assisto a filmes que abordem as temáticas trabalhadas pelos professores”, conta a estudante.

Temas da atualidade que podem ser cobrados no Enem 2018

Questões imigratórias

Aqui podem se desdobrar assuntos tanto dos movimentos migratórios do centro europeu como nas américas. Entre eles, destacam-se a crise na Venezuela, as novas políticas de imigração de Donald Trump, a crise humanitária na África, a guerra civil na Síria e refugiados, a nova relação entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, a questão palestina, geopolítica atual a partir desses eventos, xenofobia, avanço do conservadorismo e populismo de direita.

Direitos humanos

Temas como crise econômica e social no Brasil, diminuição dos investimentos em infraestrutura, violência urbana, violência contra a mulher, violência contra a população negra no Brasil e o papel da militância das minorias estão entre as principais apostas.

Futuro da democracia no Brasil

Podem se desdobrar assuntos como eleições, 50 anos do Ato Institucional número 5 (AI-5), 30 anos da promulgação da Constituição Cidadã (Constituição Federal de 1988), 50 anos das manifestações de Maio de 1968, da Contracultura e da Passeata dos 100 mil e 130 anos da assinatura da Lei Áurea. Nesse contexto, as discussões recentes sobre o papel da arte na democracia também pode estar incluso.

Papel das redes sociais e fake news

No campo da sociologia e da filosofia, o estudante precisa estar preparado para discussões sobre as novas tecnologias de informação, a pós verdade e disseminação nas redes sociais de notícias, sobretudo no WhatsApp, de conteúdo sem nenhum crivo científico. Entram aqui, por exemplo, os boatos envolvendo a ineficiência e/ou o perigo das vacinas contra gripe, sarampo e poliomielite. Muitos grupos políticos no Brasil também foram acusados de espalhar conteúdo falacioso em áreas da economia, saúde, segurança e educação. Algumas páginas chegaram a ser deletadas das redes sociais.

Meio ambiente

Temas da contemporaneidade que sempre podem estar na pauta das provas do Enem são aquecimento global, destinação do lixo, saneamento básico, desmatamento e uso de animais para testes de produtos, com questões envolvendo ética e filosofia.

Greve dos caminhoneiros

Aqui pode-se exigir do aluno conhecimentos históricos sobre os problemas de infraestrutura do país e a dependência do Brasil pelo transporte rodoviário e pelo uso dos combustíveis fósseis. Os motivos que levaram o país a essa dependência e o que é possível ser feito para mudar este cenário.