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Para escrever sobre goiaba no estado que mais a produz, viajamos 1,7 mil km para oferecer perspectiva sobre a fruta que está na roça, na mata, na mesa e na imaginação pernambucanas

Os ranchos da goiabada

Por Ed Wanderley | Fotos: Rafael Martins

 

A encosta de uma ladeira de terra no bairro de Paratibe, no município do Paulista, servia de impulso até para os pés mais comedidos. As cercas baixas não impunham qualquer empecilho para a busca pelo proibido, desafiado apenas pela velocidade de mãos infantis satisfeitas a um simples “puxavão”, antes de desabalada carreira. Eram as balas de sal que a garotada temia. Vez por outra, um sentia o couro arder, mas garantir o lanche do fim de uma tarde qualquer de março com uma dose bem-vinda de adrenalina não tinha preço. O roubo dos garotos de Paratibe nunca foi tipificado como crime e era o motivo pelo qual, volta e meia, meu pai sorria na mesa de jantar, quando o suco do dia era de goiaba. Lembrava da época que “dava” o fruto pela proximidade do aniversário, sempre semanas após o carnaval. Saboreava a lembrança tanto ou mais que a fruta. Essa história já não é mais contada.

De forma discreta e marcante, a goiaba aparece, mesmo que sem convite, na memória afetiva ou gustativa do pernambucano, ainda que o estado, tradicionalmente canavieiro, só tenha recentemente se aberto para a vocação de produzir o fruto, de olho nos mercados. Segundo projeção da Universidade do Vale do São Francisco (Univasf), o estado há de desbancar São Paulo na liderança de cultivo e colheita do produto ainda este ano, mudando a face expressa das estatísticas do IBGE até então. Isso porque pelas bandas do Velho Chico, tanto do lado pernambucano quanto do baiano, é “março” o ano inteiro e os ramos de goiabeiras trabalham o ano inteiro, à vontade dos que se propõem a conduzir diariamente as águas do rio às suas raízes. No Sertão do Vale do São Francisco, os meninos não fazem algazarra para roubar goiabas; Enxergam nela uma das saídas para vidas mais prósperas.

No final das contas, Pernambuco passa a deter um “império silencioso” da goiaba, que vai muito além do fruto. De tanto romance que inspira, o lado Capuleto do mais saboroso romeu e julieta brasileiro promove a independência de pequenas famílias produtoras de doces e dão base a produtos tão representativos da “cara” do estado que viraram paixões nacionais e para além-mar. Nas próximas linhas, você apreende implicações econômicas, sociais e culturais da goiaba. Aquela, que, para mim, toma pela memória o cheiro da casa de vovó, no Paulista. A mesma a qual, no fim de tarde, às margens de um campinho improvisado, barriga quase cheia, Seu Edmilson chamava de “meu ouro rosa” – essa tal preciosidade versátil que hoje, aos poucos e discretamente, vai fazendo sua parte para mover um povo…

 

EXPEDIENTE: Diretora de redação: Vera Ogando | Edição executiva: Paulo Goethe
Edição de vídeo: Chris Oliver | Ilustrações: Samuca | Design e desenvolvimento: Bosco
Diario de Pernambuco, 26 de agosto de 2017

Uma economia em ascensão

Cultivo da goiaba só fez crescer nesta década em Pernambuco, que se tornará principal fornecedor do país que mais produz a fruta no mundo

15 kg de goiaba apenas para você. Parece muito? Imagine então que essa é quantidade produzida por pernambucano atualmente vivendo no estado. Cada um dos 9,34 milhões deles. Por ano. São mais de 140 mil toneladas da fruta, uma das riquezas mais subjugadas na terra dos altos coqueiros. De acordo com uma projeção da Universidade do Vale do São Francisco (Univasf), com base no registro de produção agrícola municipal do IBGE, ainda em 2017, Pernambuco deve ser nomeado líder nacional do cultivo de goiaba, à frente de São Paulo. Passa muito longe de ser pouco, uma vez que residirá no Nordeste a região mais frutífera do país que mais produz goiaba em todo o mundo. Sim, mais um título para a tal megalomania tipicamente pernambucana.

Uma em cada três goiabas consumidas no Brasil, in natura, em sucos ou em doces, é produzida na vizinhança de Petrolina, no Sertão do São Francisco, a 712km do Recife. Parece óbvio que a disponibilidade de água no vale irrigado, a partir do Velho Chico, favoreça a produção de frutas tropicais, mas a vocação da área para a cultura do fruto vai além. “É um conjunto de fatores. O solo é bom, a temperatura da região é elevada e a umidade, baixa. Essa realidade faz com que a produtividade dos plantios seja mais que 30% superior a outras regiões do país e não favorece o surgimento de problemas fitossanitários”, explica o doutor em agronomia da Univasf Ítalo Lucena, acrescentando projeção de que a próxima pesquisa Produção agrícola municipal, do IBGE, com divulgação prevista para setembro de 2017, atualize o ranking nacional do setor, que, até então, trazia os estados pernambucano e paulista empatados em área colhida.

Com esse conjunto de estímulos naturais, poderia parecer que a produção de goiaba – um mercado que movimenta anualmente cerca de R$ 150 milhões apenas em Pernambuco – teria uma resposta automática dos produtores. No entanto, mesmo na “Califórnia sertaneja”, as culturas popularizada e reconhecida na região ainda ficam por conta da manga e da uva. A mudança mais expressiva dos produtores tem a ver diretamente com o potencial de venda que passou a se configurar no estado – a mesma caixa, com entre 22kg e 30kg da fruta, comercializada em 2011 a R$ 20, hoje vale R$ 35, chegando a R$ 55, a depender da oferta e da época do ano.

O som da caixa registradora soou de fundo ao ler essas cifras? Foi por reação semelhante que o empresário Adriano Barbosa, tradicionalmente da área de eletrônicos e celulares, decidiu passar a investir na produção de goiaba no Sertão, há três anos. “Eu e meus familiares queríamos entrar na área, então foi todo um trabalho de pesquisa e o que pesou foi avaliar o negócio como lucrativo. É a melhor fruta em termos de rentabilidade. Começamos arrendando três hectares, hoje temos seis – e metade da colheita é feita com ela ainda verde, para exportar”, conta o produtor. Na lista de cultivos, há investimentos ainda em banana, coco e manga, mas é o controle sobre a produtividade das goiabeiras que atrai Barbosa ao negócio. “É uma planta fácil de tratar e, com estímulo e irrigação programada, dá para colher o ano inteiro”, completa, sobre o negócio próprio de R$ 300 mil anuais.

Adriano Barbosa continua com empresa de celulares, mas não pensa em parar de investir na goiaba no médio prazo: “é a fruta mais rentável”

 

Endêmica no país, ou seja, natural de nossas matas e comum antes mesmo da colonização portuguesa, o fruto da espécie Psidium guajava é verificado mais frequentemente nos tipos “paluma” e “pedro sato”, que movimentam o mercado local e nacional. Apenas nessa década de 2010, a produção de goiaba começou a deslanchar. No estado, há cultivo em todas as regiões e, entre 2011 e 2015, o crescimento atingiu quase 17%, contra uma ampliação de 10,5% de área colhida no país.

Givaldo Pedrosa, de Sairé, no Agreste, acompanhou a alta da produção da goiaba há 6 anos

Quem acompanhou essa tendência em todo o estado foi Givaldo Pedrosa, 51, morador da zona rural de Sairé, no Agreste. “Comecei há seis anos, depois de ver o entusiasmo dos vizinhos. Todo mundo começou a plantar. Hoje, tenho também maracujá e pecuária, mas não deixo a goiaba de lado porque ela virou a maior parte da minha renda. Colho duas vezes no ano, dependendo da época da poda”, explica o agricultor, justificando o 1,5 hectare de plantação que dedica à fruta. A atração pelo cultivo é fácil de explicar: a goiabeira começa a produzir a partir do 13º mês de plantada, um dos cultivos mais rápidos entre as espécies tropicais, e um único vegetal pode render até 700 goiabas – satisfazendo todo tipo de gula, por frutas e por lucro.

Irrigação pode ser mais inteligente

Produzir mais e com um custo menor de investimentos. Sonho de qualquer negócio, correto? Se depender do grupo de pesquisa Fruticultura no Vale do São Francisco, o produtor comum pode ter essa realidade nas lavouras de casa, com tecnologia simples e de baixíssimo custo. O estudo sobre fertirrigação, ou seja, irrigação enriquecida com biofertilizantes “embutidos”, promete uma redução de até 80% dos gastos com fertilização da área produtiva frente aos fertilizantes nitrogenados industrializados, padrões nesse tipo de cultura.

Desenvolvida na Univasf e já disponível à população, a pesquisa utiliza esterco bovino fresco, em tonéis de 5m³, 70% preenchidos com o material orgânico e água. A mistura passa por um processo de fermentação ao longo de 30 dias e é acoplada ao sistema de irrigação com um filtro de tela de 130 mesh. Dessa forma, as goiabeiras são naturalmente adubadas ao mesmo tempo em que recebem água para se desenvolverem.

“A aplicação é feita a cada 15 dias, ao longo de um período de dois anos. O resultado foi um incremento da produtividade desses vegetais, em cerca de 30%, quando usado fertirrigação com 7,5% de biofertilizante”, esclarece o professor Ítalo Lucena. A sede do grupo de pesquisas, no campus de agronomia da Univasf, recebe semanalmente pequenos produtores interessados em soluções tecnológicas do gênero, com o intuito de incrementar a colheita – com uma espécie de consultoria técnica gratuita, forma de retorno social do centro de ensino à comunidade local, como pontua Lucena: “o que a gente faz aqui ecoa no Vale do São Francisco todo”.

Principais áreas de incidência

Gêneros

Espécies

Principais espécies em Pernambuco

Paluma e Pedro sato

O mercado da goiaba

A goiabeira tem a vantagem de ter um tempo inicial de colheita menor
(1 ano e 1 mês) que outras plantas e ainda produz duas vezes ao ano”

Ítalo Lucena

do grupo de pesquisa Fruticultura no Vale do São Francisco e da Univasf

Um alimento que muda vidas

Destaque no ramo de geleias e doces, a goiaba é opção fácil e recorrente de quem busca, com pouco investimento, conquistar melhor condição de vida, especialmente no interior do estado

Margeando dois corredores apertados, sob uma lona plástica que reduz a claridade e multiplica o calor do asfalto, o cheiro doce estapeia as narinas, convidativo. Cada pedaço de vazio é preenchido, logo cedo, pelos passos apressados. O imaginário de quem observa de longe apostaria num forró rabecado, mas há tempos as pequenas caixinhas de som bluetooth, que substituíram o antigo mini system, só tocam sertanejo universitário – daquele feito muito, mas muito distante de qualquer Sertão de verdade. Estamos na feira livre de Gravatá, no Agreste pernambucano, a 84km do Recife. Entre turistas de finais de semana e nativos aproveitando os preços mais baixos que os dos supermercados, Luiz Alberto “Beto” Bezerra busca as goiabas do dia, a base de seu negócio familiar. “Tem o ano inteiro. Na feira, praticamente não falta, quando acontece (de não ter) ou vem mais caro, a gente dá um jeito sempre. Ela é quem faz a diferença pra gente”, resume.

Beto sabe o que diz. Por metade de sua vida, lidou com a beira do fogão em busca da perfeição. Das 38 primaveras que já pôs no fogo até agora, 12 já são dedicadas ao próprio empreendimento, a Despensa – Produtos caseiros. Antes disso, trabalhava para terceiros ou ajudava mãe e tias no preparo de compotas, cremes e geleias. Viu nas próprias mãos o talento que precisava para conquistar a emancipação financeira e na goiaba, o caminho. Hoje, 50% de seus faturamento e produção vêm da fruta. “É uma fruta diferente porque com uma mesma compra de material, consigo produzir quatro tipo diferentes de doces: geleia, compota, doce cremoso e a goiabada cascão. Dá para aproveitar tudo, polpa, carne e parte das cascas. Com outros frutos, não”, explica.

Luiz Alberto deixou de ser empregado para abrir negócio de doces, 50% deles, de goiaba

O gravataense conta com a ajuda da esposa, Rafaela Bezerra, 28, e do sócio Fernando Ferreira, 43, para garantir o sucesso da única loja do polo moveleiro dedicada a doces artesanais. Fim de tarde de quinta ou sexta-feira, é chance certa de caminhar por entre as oficinas de artefatos de madeira e se ver invadido pelo aroma, propositalmente espalhado, após o fogão da Despensa estar aceso. São entre 200 e 300 unidades de doces caseiros produzidos por mês, totalizando quase 150kg de produtos manufaturados a partir da goiaba.

Não é caso isolado. A área de alimentos derivados de frutas e vegetais cresce todos os anos e ocupa a 7ª maior fatia da indústria de alimentos no país, representando uma movimentação financeira nacional acima dos R$ 25 bilhões. Imagine apenas que apenas quando trata-se de doces e geleias, há uma geração de 35 mil empregos formais e informais no Brasil, de acordo com o Sebrae, que atesta também um crescimento anual do segmento entre 6% e 8% desde 2013. Junte essa informação ao dado de uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBPQ), que aponta para o fato de 60% dos novos negócios abertos nesta década terem sido micro e pequenas empresas com investimentos de no máximo R$ 10 mil. São esforços coletivos, familiares ou de cooperativas de mulheres, que de uma ponta a outra do estado (e do país) encontram no beneficiamento de frutas uma esperança de renda extra ou de independência econômica.

“A goiaba é excepcional quando o assunto é fabricação de doces, porque já tem substâncias, como a pectina, que facilitam o processamento. Quase toda a indústria a tem como produto básico. Mas não temos como dimensionar esse mercado de doces e geleias porque a informalidade é muito grande e qualquer um pode fazer essa produção”, explica o especialista em alimentos do Sebrae Rodrigo Carvalho. E no campo dos doces, a dependência da versatilidade da goiaba se repete junto a produtores de unidades produtivas maiores, em pequenas fábricas de Caruaru, também no Agreste, Glória do Goitá, na Zona da Mata, além de zonas periféricas do Recife, em especial na produção de doces que não terão consumo direto, mas integrarão o beneficiamento de outros alimentos, na forma de molhos ou sobremesas.

Como boa parte da população, Luiz Alberto sente os efeitos da crise econômica, que impacta diretamente no fluxo turístico da cidade de Gravatá, mas acredita no potencial dos doces, que nunca saem de moda – e nas variações, que incluem doce de leite, jaca, araçá, caju e pimentas. “O próximo plano é montar um fabrico e vender ‘para fora’, expandir, sabe? Goiaba, doce, cozinha. Tudo me dá prazer e me permitiu ter o que tenho e criar meu filho (hoje com quatro anos). O tempo é difícil, mas a saída é pelo meu trabalho mesmo”, garante, com uma esperança plena, daquelas cuja doçura goiabada nenhuma ousaria competir.

Rendimento da goiaba
por 100 kg da fruta:

compotas

goiabadas cascão

geléias

doces cremosos

Passo a passo para montar fábrica de doces e geleias

O “seguro” para a goiaba chegar às feiras?

Para ser figura carimbada nas feiras pernambucanas, a goiaba tem que sobreviver a um processo desafiador, que vai de encontro à vocação natural do Vale do São Francisco para sua produção. Andar por Petrolina é ter a certeza de, volta e meia, dar de cara com goiabeiras de galhos retorcidos, secos e de aspecto cinza. Um desavisado por associar às condições climáticas do Sertão ou arriscar tratar-se de uma área inalcançada pelos dutos de irrigação do Rio São Francisco, mas o problema é ainda maior. Na realidade cartesiana, na verdade, menor. Microscópico. Atende por nome do verme que aparenta ser: nematoide. A praga condena quase todas as plantações de goiaba a uma vida útil limitada a quatro ou seis anos. Ela infecta as raízes da planta e a destrói por dentro e, pior, se espalha por todo o terreno em que foi verificada, mantendo o solo inviável para cultivos do vegetal em longo prazo.

“Quem não foi vítima ainda, vai ser. Tem quem insista em plantar numa terra perto de outra que já foi infectada, mas não sei pra quê. Morre tudo. Não tem dúvida. O único lado bom do verme é que ele acaba controlando a oferta de goiaba, aí mantém o preço de venda bom”, explica o produtor Ronaldo Araújo, que frequentemente lida com o problema. “Mesmo assim vale a pena. Para evitar a contaminação, a gente planta goiaba e manga intercalando e ganha tempo”, diz.

“Quem não foi vítima ainda, vai ser”, diz o produtor Ronaldo Araújo

Talvez seja justamente tempo o que há de mais irônico em lidar com esse problema. Desde 2010, uma pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveu o que seria a solução definitiva para o nematoide. Trata-se de um híbrido, produzido em laboratório e já adaptado à natureza local. Na prática, o BRS Guaraçá, como foi batizado, tem as raízes de um araçazeiro e a copa de uma goiabeira comum. O cruzamento é feito numa espécie de porta-enxerto, que recebe a muda do vegetal que o produtor desejar. Quando cresce, o vegetal tem raízes resistentes ao nematoide e o restante do corpo com uma produção equivalente às goiabeiras nativas.

“Só falta chegar nas mãos dos produtores”

“Há uma resistência ao patógeno e alta compatibilidade para a produção de goiabas paluma e pedro sato, além de, sem apresentar um custo elevado para obtenção de mudas, ser viável agronômica, ambiental e economicamente”, defende o pesquisador Carlos Antônio Santos. “Só falta chegar nas mãos dos produtores”, completa.

Em processo de registro junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o porta-enxerto ainda não foi apresentado à população graças ao entrave burocrático. Procurada, a Embrapa informou que “está finalizando os trâmites exigidos pela legislação que trata da Proteção de Cultivares no Brasil”. A ideia é proteger a tecnologia antes de ofertar a solução à sociedade produtora, sem prazo para conclusão. Ainda que a praga tenha se tornado comum na região, embora não seja endêmica em outras regiões do país, a produção de goiabas segue crescendo no Vale do São Francisco, o que apenas reforça a curiosidade de qual será o cenário quando o tal nematoide não mais se configurar um problema.

Tecnologia contra as ameaças

É com um porta-enxerto de araçá, que desenvolve as raízes, e uma muda de goiabeira à escolha do produtor, que desenvolve a copa, que planta híbrida resiste à praga nematoide, que destrói cultivos no Vale do São Francisco, mas, por conta da burocracia, solução ainda não foi posta em prática e produtores ainda sofrem com a doença.

A cultura de um povo em uma “dentada”

Há quem diga que ele veio de Portugal. Outros apostam que a receita original é de Pesqueira, no Agreste pernambucano. No meio dessa discussão, ambas as partes provavelmente estão de boca cheia e satisfeitos. O bolo de rolo é uma receita que só falta ter Pernambuco no nome. Não é rocambole, não é colchão de noiva e dificilmente não seduz até o mais resistente dos paladares. Declarado patrimônio imaterial do estado desde 2008, ele encontra na goiaba sua base fundamental. A finíssima massa, diferente do pão-de-ló, recheada com goiabada e coberta de açúcar hoje excede as divisas pernambucanas e encontra em mercados como São Paulo, fábricas especializadas em seu preparo. A sobremesa virou café da manhã, virou souvenir e, acima de tudo, virou fonte de lucros expressivos.

Fernanda Dias hoje produz 17 toneladas de bolo de rolo ao mês

Com o passar do tempo, houve uma associação natural entre o bolo de rolo e a chamada Casa dos Frios, estabelecimento que começou a funcionar no bairro das Graças, como uma pequena despensa generalista, em 1949, e hoje se prepara para desembarcar em quiosques, supermercados e delicatessens de um total de 13 estados brasileiros até o final do ano. O local foi criado por um alemão, que repassou o negócio a um grupo de irmãos, em 1955, mas os moldes que se conhecem hoje, tiveram início apenas em 1969, quando os bolos, de produção coordenada por Fernanda Monteiro Dias, hoje com 82 anos, começaram a ser produzidos. Hoje tem no derivado da goiaba seu principal produto de exportação.

“Eu trabalhava com enxovais em casa e lembro quando disseram que eu não duraria dois meses. Na época, era o bolo de brigadeiro que era o preferido das crianças. Mas foi com uma receita da minha avó que o bolo de rolo fez sucesso”, conta, sem lembrar ao certo quando o estabelecimento mudou e passou a ser atrelado ao doce. “Fico feliz de ter contribuído para a construção desse patrimônio do estado, mas não tenho vaidade. Foi bom pra ‘firma’”, completa sorrindo.

“Bom” não descreve com dimensão apropriada. “Inauguramos, em 2017, a fábrica da Imbiribeira, que antes funcionava em um espaço menos, em Paratibe. Hoje, produzimos entre 800 e 900kg de bolo de rolo de goiaba por dia”, detalha o gerente de produção Ricardo Batista. Em outras palavras, são 17 toneladas mensais, comercializadas a uma média de R$ 50 por quilo – ou seja, um negócio de R$ 10 milhões anuais, que chega a 180 funcionários e acaba de negociar a abertura de 10 quiosques em aeroportos brasileiros, ampliando sua distribuição para 13 estados (com 70% dos pontos sendo próprios).

Da mistura ao resfriamento pré-embalagem, são apenas cinco minutos de manufatura. Os que não saem visualmente perfeitos, viram biscoitos ou torradas, apenas uma das variações menos bizarras do bolo de rolo, em uma lista que, no mercado em geral, já inclui sorvetes e até pizza. Tanta criatividade passa longe de oportunismo. Faça o teste: pergunte a qualquer pernambucano para elencar “coisas que representam Pernambuco” e verifique se, ao lado do frevo, o bolo-relações públicas não não terá um espaço guardado. Cultura é assim mesmo. Seja música, seja sabor, parte dos ingredientes nativos sempre será um pouco de saudade e outro tanto de carnaval…

Qual a diferença?

Com um pé em Portugal e outro em Pesqueira (PE), a receita do bolo de rolo leva a uma massa finíssima, em que, tradicionalmente, se usam quatro camadas, com goiabada, para, unidas, serem enroladas manualmente, formando o rolo que ajudou a batizá-lo.

Bolo de rolo

Também é típico do Nordeste, mas é feito com massa de pão-de-ló e recheado com inúmeros doces ou cremes. Grosso, é enrolado poucas vezes, com uma única camada e, normalmente, polvilhado com diversos tipos de coberturas, podendo ser decorado com frutas.

Rocambole

Originária de Tavira, na região do Algarve, em Portugal, essa sobremesa foi uma das primeiras a enrolar massa recheada. Pode ser uma tia-avó do bolo de rolo, mas tem massa mais grossa, é enrolado uma vez e tem recheio de amêndoas e, normalmente, polvilho de coco.

Colchão de noiva

Mais que um “frutinho” bonito

Apesar de comum, o Brasil ainda “desconhece” a goiaba. Pouca gente sabe, por exemplo, que há mais vitamina C nela que em qualquer laranja ou limão. Na verdade, poucos são os rankings de aspectos nutricionais em que o fruto não esteja acima da média e, no entanto, o consumo médio brasileiro não ultrapassa os 300g por pessoa no período de um ano.

“A goiaba tem 400mg de vitamina C a cada 100g, mais que frutas mais populares, como manga, banana, laranja ou limão. Ainda é rica em fibras, vitaminas do complexo B e é pró-vitamina A”, explica a coordenadora do programa de pós-graduação em ciência e tecnologia de alimentos da UFRPE, Maria Inês Sucupira.

Para além do consumo in natura, a fruta tem uma característica peculiar que se apresenta na cozinha e no laboratório: sua capacidade de manutenção de sabores e aromas após qualquer processamento. “Quando levada ao fogão, as características marcantes da fruta permanecem no produto processado e, por vezes, chega a ser intensificado. É algo que não se pode dizer da maioria das frutas e, por isso, ela é boa de se trabalhar”, completa Sucupira, química e doutora em ciências biológicas.

Sim, além de lucrativa para produzir, de render para beneficiar e processar e de saborosa e representativa culturalmente, a goiaba é rica em nutrientes. Se humana fosse, seria dos melhores partidos, mas daqueles, que ainda se sentem patinhos feios e, tímida e literalmente, vão ganhando terreno, semente após semente.