
Destro, torcedor do Flamengo, usuário de transporte coletivo e camisetas em promoção, apreciador de cerveja gelada, dominó, futebol e Fórmula 1, leitor de gibis do Maurício de Souza e observador de revistas Playboy. Não era só o nome que José tinha de comum. Caia no samba aos sábados, tomava ‘caldo’ nas ondas do mar aos domingos, conferia o bicho às segundas-feiras. O restante da semana era dividido entre o trabalho como tabelião de um cartório no centro da cidade e os almoços obrigatórios na casa da avó. As ‘peladas’ de quinta com os amigos o renderam o apelido de Zé Manhoso. Bastava alguém encostar, que a cena estava feita:
- “Porra, juiz! Foi falta, cacete!”, xingava José, após gritos de dor e sete cambalhotas pelo chão.
- “Nem para ator tu serve! Vai aprender a jogar bola”, retrucavam o árbitro, a torcida, os adversários e até os próprios companheiros de equipe.
Certo dia, Zé Manhoso conheceu uma das mulheres mais gostosas até então já vista. Não faltaram ‘bilhetinhos’, buquês de flores e convites para assistir o Fla x Flu das cadeiras. Após charmes e resistência, Jacilene cedeu. Deu namoro… por duas semanas.
- “Você não me ama mais? Por quê? O que eu fiz?”, indagou Zé.
- “Justamente. O que você fez? Você é muito comum. E, ainda mais, essas manias de limpar os ouvidos com tampa de caneta Bic, juntar recortes de jornal sobre o Romário e ficar cantarolando Zeca Pagodinho no karaokê. Saco! Seja homem e pare de chorar!”, rebateu Jaci.
Zé Manhoso murchou. Aos 35 anos de idade, perdeu o gosto pela vida. Já não jogava mais dominó, bicho, nem cantadas para as mulheres do pagode. Passou a beber café e freqüentar livrarias. Praia? Só para leves caminhadas, com o intuito de manter a forma física. No rádio? Ivan Lins, Kenny G, Richard Clayderman e Oswaldo Montenegro. Quinze anos depois, quando as coisas iam começando a correr bem com a mudança de hábitos, eis que Jacilene bate na porta de sua casa. ‘Toc-toc’:
- “Toma que o filho é teu! Não consigo mais dar conta das despesas”, revelou Jaci.
- “Mas, mas…”, surpreendeu-se José Silva Oliveira Brasileiro, avistando a ex-namorada ir embora, com uma ponta de saudosismo por aqueles largos quadris.
Com um misto de euforia, ansiedade, medo, alegria e tristeza, Zé Manhoso encarou o jovem por alguns minutos. Era a primeira pessoa - à exceção do dono da padaria, da livraria e da clínica que realizava o check-up mensal – com quem iria ter contato depois de muitos anos. Gaguejadamente, José perguntou:
- “Qu-qu-qu-qual é o se-se-se-seu no-nono-nome?”
- “ãn, ãn, ãn, ãn…”
O rapaz era mudo. Pegou um papel e escreveu: Meu nome é Alcebíades. Ao ler, Zé se espantou. “Que raios de nome é esse?! Como uma mãe faz uma maldade dessas?! Vou ao cartório desfazer isso e colocar uma alcunha decente. Algo do tipo, Highlanderson”, pensou. O garoto insistiu para continuar com aquela denominação. Estava acostumado. O pai aceitou.
Ambos se deram bem. Convivência alegre e pacífica. Não era só o nome que Alcebíades tinha de incomum. Com a incessante busca de Zé pela auto-transformação de personalidade, colaborou o fato de o filho ser canhoto, gostar de ir a pé aos locais, vestir roupas sociais de adulto, apreciar chá de camomila, xadrez, tênis e corrida de cavalo, ler Machado de Assis e dizer – redigir, na verdade – que o que mais o atraia nas mulheres era o sorriso.
Mas como “nem tudo eram flores” (Zé jamais conseguira abandonar jargões e lugares-comuns), a paz familiar foi cessada. Foi durante um domingo de Fla x Flu na televisão. Aos 47 minutos do segundo tempo, Antônio Carlos, centroavante do Fluminense, marcou um gol no rebote do goleiro.
- “%&@#*! Miserável!!!”, chorou Zé.
- “ãn, ãn, ãn, ãn…”
- “Deixa, deixa… não precisa falar nada. Droga! Perdemos o título! Que desgraça! No ‘finalzinho’. Mas, quer saber? Pelo menos temos o ‘baixinho’. O melhor do mundo! Diz aí, diz aí. Existe algum jogador melhor do que o Romário?”
- “ãn, ãn, ãn, ãn-tônio Carlos!”