Futebol em Marte

comentários de ETasa Grande e ETzaldo César Coelho

Por Rômulo Bourbon

O ano é 2100. As viagens espaciais já se tornaram uma rotina diária. Os extraterrestres já se comunicaram conosco e os países instalaram uma estação em Marte com a presença de vários astronautas. Tudo bem… É apenas uma utopia. Mas já imaginou como seria chato ficar meses e meses no Planeta Vermelho sem nada pra fazer? Ficar olhando aquele enorme deserto cheio de rochas e pedregulhos?! Foi assim que um grupo de astronautas brasileiros reuniu o pessoal para formar um time de futebol e jogar contra os marcianos.

E o jogo vai começar! Os times entram no grande Campo de Marte. Os hinos terráqueo e marciano são executados. A escalação dos times é confirmada.

Do lado dos astronautas, o selecionado conta com o goleiro Oliver (EUA), os zagueiros Alexander (Rússia) e Wang (China), os laterais Johnson (Inglaterra) e Pietro (Itália), os volantes Michael (Alemanha) e Jardel (França), os meias Ramon (Espanha) e João (Brasil). No ataque, Neto (Brasil) e Ronald (Brasil).

Do lado dos marcianos, o time de ET’s conta com o goleiro Pegajoso, os zagueiros Esquisitão e Feioso, os laterais Duas Cabeças e Alien, os volantes Monstrengo e ETzão, os meias Meleca Cósmica e Ciclope. No ataque, a dupla Homenzinho Verde e Marcianinho.

Quer saber como vai terminar a partida? Acesse o blog A Lua Tristonha.

Em tempo: o autor do blog sobre astronomia, cujo público-alvo é o infantil, vai lançar o livro A Lua Tristonha no próximo dia 17 de agosto, às 19h, no Colégio Exponente, em Casa Forte.

ETzão Bueno narra o jogo

“O Veríssimo dos Cronistas”

"o chivas regal dos whiskys" o mestre

Internacional e Chivas (o Guadalajara, time de futebol) em campo, para a decisão da Libertadores. E, dentro das quatro linhas do universo das palavras, todo mundo abusou de trocadilhos com outro Chivas (o Regal, whisky). Eu mesmo, via Twitter, dei uma forçadinha de barra, ao ver as cores do uniforme do adversário dos brasileiros e o fato de a equipe mexicana ter sofrido a virada: “A camisa vermelha e branca não deixa dúvida: é um Chivas paraguaio, mesmo!”, anotou o @paiaqui.

Passada a partida (com vibrante vitória dos Colorados: 2 x 1), lembrei de algo mais criativo relacionado ao nome do whisky. “Sim, uma crônica do mestre Veríssimo”, recordei. Intitulado “A Frase”, o texto fala do criador do slogan “O Chivas Regal dos Whiskys”, considerado por Veríssimo como a maior sacada publicitária de todos os tempos.

Segundo a crônica, o criador da frase “não recebe mais telegramas, não atende mais nem a porta, não se mexe da cadeira, não lê mais nada, não vê televisão, não vai a cinema e fala somente o indispensável, passa o dia sentado, de pernas cruzadas, com o olhar perdido, alimenta-se de coisas vagamente brancas e bebe champanhe Brut em copos de tulipa, com um leve sorriso nos cantos da boca”. (Clique AQUI para ver o texto completo).

Eu sei. Estou derivando, viajando, “traveling on the maionese”. São 02h45. Insônia. Só aproveitei a deixa do Chivas para enaltecer uma fonte da qual sempre bebi. Não estou falando de aguardente barata, mas sim, de Luís Fernando Veríssimo. Um dia, quem sabe, eu consiga escrever algo duas léguas próximo deste contículo abaixo:

Desmoronou uma ponte de gelo no Himalaia. No mesmo instante, dentro da sua cozinha, no Rio, abrindo uma lata de pêssegos em calda, Marisa sentiu uma leve inquietação, como se alguma coisa tivesse acabado em sua vida. Não existe qualquer ligação conhecida entre os dois fatos.

(Pois É. VERÍSSIMO, Luís Fernando. Comédias da Vida Privada)

Pão, Cão, Taça, Traça… bah! É Tudo a Mesma Coisa!

"aqui, Bobinho, vem cá pro papai, vem..."

A tarefa simples para a Dona Fernanda soou como difícil missão ao marido, ex-tenente do Exército. Participar da guarda do Papa João Paulo II durante a visita do pontífice ao Recife parecia fichinha frente ao árduo desafio de comprar pão, depois de uns goles de cerveja e aguardente, ao lado do Pai Aqui.

- “Pão, viu, Guerra?”, instruiu a esposa, por telefone.
- “Ok. Cão”, balbuciou, após encerrar a chamada.

Seu Guerra pintou o rosto com a tradicional marca de guerra (o sobrenome traçou o destino do guerreiro). Levantou-se da mesa. Pagou a conta. E rumou, a passos trôpegos, à padaria. “Onde já se viu comprar cão em padaria? Eu, hein?”, pensou, coçando o queixo.

À frente do local de destino, a miragem. Uma senhora, visivelmente aborrecida, caminhando com um belo cachorro.

- “Que lindo Cocker Spaniel!” (claro, depois da birita, a pronúncia saiu “cosquispendius”)
- “Pois é. Mas é um danado. Muito trabalhoso. Você não o quer?”
- “Quem me dera ter um cão bonito como este…”
- “Então, já é seu. Eu não quero mais. Não tem volta. Se você não o quiser, eu deixo o cão aqui na rua.”

Guerra jamais abandonaria um companheiro. E iria matar dois cães… ou melhor… dois coelhos com uma única cajadada: retornar ao lar com um cachorro e impedir a barbárie da senhora. Pegou a coleira, o saco de ração e a carteira de vacinação de Bob. Missão cumprida da velhinha. Missão cumprida de Guerra. Até chegar em casa, óbvio.

- “Guerra. O que este cão está fazendo aqui?! Você endoidou?”
- “Ué. Eu estou bêbado ou você me passou a lista de compra errada?”
- “Adivinha.”
- “Eh… estranhei o lance da padaria… brinquei até com o Pai Aqui, dizendo que, amanhã, compraria queijo e mortadela no Pet Shop. Ok, desculpe. Vou procurar outro dono.”

(E Bob, com cara de bobo, rindo de tudo.)

Dunga é mais teimoso do que BobVocê deve estar se perguntando: “Sim, e o que este texto tem a ver com esporte para o Pai Aqui escrever aqui neste blog?”. Eu respondo. Dunga e os 23 jogadores convocados partiram para a África do Sul com a missão de faturar o hexa. Trazer alegria ao povo brasileiro, faminto por comida, futebol e arte. Trouxe decepção, o bagaço da Laranja e Felipe Melo. Uma bagagem cheia de malas sem alça. Pedimos “taça”. Ele entendeu “traça” e destroçou o sonho.

Enfim. Dunga é passado. Assim como Bob. Só restaram as piadas. Fico tentando imaginar o que Seu Guerra traria se Dona Fernanda pedisse uma feira completa…

(dores) Crônicas: Contagem Regressiva

esse aí está literalmente amarrado, com a corda até o pescoço

Faltam 20 minutos. Melquíades percebe. “Apenas 20 minutos”. Mal espera o passar de 60 segundos. Olha atento ao relógio, por repetidas vezes. Vinte, vinte, vinte. O padre inicia a leitura do capítulo 19 de Coríntios.

– “Meu Deus! Dezenove minutos”, e rói as unhas.

Após 18 anos de convivência, Geórgia vai sentir o almejado gosto de se tornar esposa de Melquíades, dentro de 19 minutos. Ou melhor, 18. Melquíades sente que a sua vida está para mudar daqui a…

– “Dezessete minutos. Ai, ai. Liguei 17 vezes para a Carminha e ela não atendeu. Será que esqueceu do plano? Tem que lembrar”.

Os 16 padrinhos estranham o suor e os movimentos bruscos do noivo. Tcham, tchanran! Melquíades dá um pulo com o repentino toque do pianista, que começa a executar a marcha nupcial n° 15 de Brahms.

– “As coisas estão indo rápidas demais”, desespera-se.

Não bastasse a responsabilidade carregada por um compromisso que não ansiava, Melquíades se arrepende pelos R$ 14 mil investidos na cerimônia.

– “Ô, mulher detalhista, gastadora e gulosa! Fiquei pasmo com a ordem de comprar vestidos para 13 daminhas de honra, contratar 12 garçons para a festa e selecionar 11 tipos de torta”, balbucia o noivo em um canto da boca – no outro lado, um sorriso encabulado para Geórgia.

Faltam 10 minutos. O pensamento de Melquíades vagueia o passado. Garotas que ele transava após os shows de sua banda de rock, partidas de futebol regadas à cerveja com os amigos, filmes pornôs, bilhetes de bares. As lembranças são substituídas pelo desolador e iminente futuro, onde as mulheres só serão vistas no salão de beleza freqüentado pela esposa e o futebol de botão com o sogro tomará conta da rotina. Noves fora! O jogo chegando perto do fim e o noivo perdendo de goleada.

– “T-Ô F-E-R-R-A-D-O! Vejam só, são 9 letras. Coincide com os minutos restantes para a minha morte”, resigna-se o pobre coitado.

Há 8 anos, Melquíades notou que Geórgia não era a mulher de sua vida. Mas não poderia ser da vida de ninguém. Embora demonstrasse antipatia, o cidadão era só ciúmes. Sempre quis saber quem teria encaminhado uma cesta de bombons 7 Belos à companheira, em pleno Dia dos Namorados.

– “Se eu descubro quem foi o safado…”, prometia.

Mas não havia tempo para pensar nisso. Os ponteiros badalavam em seus ouvidos. Ressoavam mais do que o coro do público. Apenas 6 minutos. Melquíades chora e berra. Geórgia se compadece.

– “Fica assim não, amor. Eu sei que é uma tortura esperar esse tempo todo. Então, vamos encurtar o processo e dizer logo o ‘Sim’. Pode ser, padre? Ótimo. Vamos lá. No 5, hein? 5, 4, 3, 2, 1… Melquíades?!”

Melquíades desabou no chão. As iniciais tentativas de ressuscitação foram frustradas. Paramédicos aportaram e transformaram a igreja em hospital. Na tela, os batimentos cardíacos não paravam de cair. 20, 19… 10… 5, 4, 3, 2, 1… 0! Morte. Sucedida de milagre. Por um fio, Melquíades não partiu dessa para, na opinião dele, melhor. Acordou. Mas o número zero continuou escancarado à sua frente. Pois é. A redonda aliança. Sucumbiu às artimanhas do destino. O padre vos declarou marido e mulher. Segundos após o beijo que selou o matrimônio, a cena de novela mexicana.

– “Parem tudo! Esse homem é o pai do meu filho”.

Melquíades finge uma convulsão. Carminha se dá conta de que precisa, urgentemente, ajustar o horário do relógio.

Ilustração: Araceli

(dores) Crônicas: Homem-Comum

homem-comum

Destro, torcedor do Flamengo, usuário de transporte coletivo e camisetas em promoção, apreciador de cerveja gelada, dominó, futebol e Fórmula 1, leitor de gibis do Maurício de Souza e observador de revistas Playboy. Não era só o nome que José tinha de comum. Caia no samba aos sábados, tomava ‘caldo’ nas ondas do mar aos domingos, conferia o bicho às segundas-feiras. O restante da semana era dividido entre o trabalho como tabelião de um cartório no centro da cidade e os almoços obrigatórios na casa da avó. As ‘peladas’ de quinta com os amigos o renderam o apelido de Zé Manhoso. Bastava alguém encostar, que a cena estava feita:

- “Porra, juiz! Foi falta, cacete!”, xingava José, após gritos de dor e sete cambalhotas pelo chão.

- “Nem para ator tu serve! Vai aprender a jogar bola”, retrucavam o árbitro, a torcida, os adversários e até os próprios companheiros de equipe.

Certo dia, Zé Manhoso conheceu uma das mulheres mais gostosas até então já vista. Não faltaram ‘bilhetinhos’, buquês de flores e convites para assistir o Fla x Flu das cadeiras. Após charmes e resistência, Jacilene cedeu. Deu namoro… por duas semanas.

- “Você não me ama mais? Por quê? O que eu fiz?”, indagou Zé.

- “Justamente. O que você fez? Você é muito comum. E, ainda mais, essas manias de limpar os ouvidos com tampa de caneta Bic, juntar recortes de jornal sobre o Romário e ficar cantarolando Zeca Pagodinho no karaokê. Saco! Seja homem e pare de chorar!”, rebateu Jaci.

Zé Manhoso murchou. Aos 35 anos de idade, perdeu o gosto pela vida. Já não jogava mais dominó, bicho, nem cantadas para as mulheres do pagode. Passou a beber café e freqüentar livrarias. Praia? Só para leves caminhadas, com o intuito de manter a forma física. No rádio? Ivan Lins, Kenny G, Richard Clayderman e Oswaldo Montenegro. Quinze anos depois, quando as coisas iam começando a correr bem com a mudança de hábitos, eis que Jacilene bate na porta de sua casa. ‘Toc-toc’:

- “Toma que o filho é teu! Não consigo mais dar conta das despesas”, revelou Jaci.

- “Mas, mas…”, surpreendeu-se José Silva Oliveira Brasileiro, avistando a ex-namorada ir embora, com uma ponta de saudosismo por aqueles largos quadris.

Com um misto de euforia, ansiedade, medo, alegria e tristeza, Zé Manhoso encarou o jovem por alguns minutos. Era a primeira pessoa - à exceção do dono da padaria, da livraria e da clínica que realizava o check-up mensal – com quem iria ter contato depois de muitos anos. Gaguejadamente, José perguntou:

- “Qu-qu-qu-qual é o se-se-se-seu no-nono-nome?”

- “ãn, ãn, ãn, ãn…”

O rapaz era mudo. Pegou um papel e escreveu: Meu nome é Alcebíades. Ao ler, Zé se espantou. “Que raios de nome é esse?! Como uma mãe faz uma maldade dessas?! Vou ao cartório desfazer isso e colocar uma alcunha decente. Algo do tipo, Highlanderson”, pensou. O garoto insistiu para continuar com aquela denominação. Estava acostumado. O pai aceitou.

Ambos se deram bem. Convivência alegre e pacífica. Não era só o nome que Alcebíades tinha de incomum. Com a incessante busca de Zé pela auto-transformação de personalidade, colaborou o fato de o filho ser canhoto, gostar de ir a pé aos locais, vestir roupas sociais de adulto, apreciar chá de camomila, xadrez, tênis e corrida de cavalo, ler Machado de Assis e dizer – redigir, na verdade – que o que mais o atraia nas mulheres era o sorriso.

Mas como “nem tudo eram flores” (Zé jamais conseguira abandonar jargões e lugares-comuns), a paz familiar foi cessada. Foi durante um domingo de Fla x Flu na televisão. Aos 47 minutos do segundo tempo, Antônio Carlos, centroavante do Fluminense, marcou um gol no rebote do goleiro.

- “%&@#*! Miserável!!!”, chorou Zé.

- “ãn, ãn, ãn, ãn…”

- “Deixa, deixa… não precisa falar nada. Droga! Perdemos o título! Que desgraça! No ‘finalzinho’. Mas, quer saber? Pelo menos temos o ‘baixinho’. O melhor do mundo! Diz aí, diz aí. Existe algum jogador melhor do que o Romário?”

- “ãn, ãn, ãn, ãn-tônio Carlos!”