
Faltam 20 minutos. Melquíades percebe. “Apenas 20 minutos”. Mal espera o passar de 60 segundos. Olha atento ao relógio, por repetidas vezes. Vinte, vinte, vinte. O padre inicia a leitura do capítulo 19 de Coríntios.
– “Meu Deus! Dezenove minutos”, e rói as unhas.
Após 18 anos de convivência, Geórgia vai sentir o almejado gosto de se tornar esposa de Melquíades, dentro de 19 minutos. Ou melhor, 18. Melquíades sente que a sua vida está para mudar daqui a…
– “Dezessete minutos. Ai, ai. Liguei 17 vezes para a Carminha e ela não atendeu. Será que esqueceu do plano? Tem que lembrar”.
Os 16 padrinhos estranham o suor e os movimentos bruscos do noivo. Tcham, tchanran! Melquíades dá um pulo com o repentino toque do pianista, que começa a executar a marcha nupcial n° 15 de Brahms.
– “As coisas estão indo rápidas demais”, desespera-se.
Não bastasse a responsabilidade carregada por um compromisso que não ansiava, Melquíades se arrepende pelos R$ 14 mil investidos na cerimônia.
– “Ô, mulher detalhista, gastadora e gulosa! Fiquei pasmo com a ordem de comprar vestidos para 13 daminhas de honra, contratar 12 garçons para a festa e selecionar 11 tipos de torta”, balbucia o noivo em um canto da boca – no outro lado, um sorriso encabulado para Geórgia.
Faltam 10 minutos. O pensamento de Melquíades vagueia o passado. Garotas que ele transava após os shows de sua banda de rock, partidas de futebol regadas à cerveja com os amigos, filmes pornôs, bilhetes de bares. As lembranças são substituídas pelo desolador e iminente futuro, onde as mulheres só serão vistas no salão de beleza freqüentado pela esposa e o futebol de botão com o sogro tomará conta da rotina. Noves fora! O jogo chegando perto do fim e o noivo perdendo de goleada.
– “T-Ô F-E-R-R-A-D-O! Vejam só, são 9 letras. Coincide com os minutos restantes para a minha morte”, resigna-se o pobre coitado.
Há 8 anos, Melquíades notou que Geórgia não era a mulher de sua vida. Mas não poderia ser da vida de ninguém. Embora demonstrasse antipatia, o cidadão era só ciúmes. Sempre quis saber quem teria encaminhado uma cesta de bombons 7 Belos à companheira, em pleno Dia dos Namorados.
– “Se eu descubro quem foi o safado…”, prometia.
Mas não havia tempo para pensar nisso. Os ponteiros badalavam em seus ouvidos. Ressoavam mais do que o coro do público. Apenas 6 minutos. Melquíades chora e berra. Geórgia se compadece.
– “Fica assim não, amor. Eu sei que é uma tortura esperar esse tempo todo. Então, vamos encurtar o processo e dizer logo o ‘Sim’. Pode ser, padre? Ótimo. Vamos lá. No 5, hein? 5, 4, 3, 2, 1… Melquíades?!”
Melquíades desabou no chão. As iniciais tentativas de ressuscitação foram frustradas. Paramédicos aportaram e transformaram a igreja em hospital. Na tela, os batimentos cardíacos não paravam de cair. 20, 19… 10… 5, 4, 3, 2, 1… 0! Morte. Sucedida de milagre. Por um fio, Melquíades não partiu dessa para, na opinião dele, melhor. Acordou. Mas o número zero continuou escancarado à sua frente. Pois é. A redonda aliança. Sucumbiu às artimanhas do destino. O padre vos declarou marido e mulher. Segundos após o beijo que selou o matrimônio, a cena de novela mexicana.
– “Parem tudo! Esse homem é o pai do meu filho”.
Melquíades finge uma convulsão. Carminha se dá conta de que precisa, urgentemente, ajustar o horário do relógio.
Ilustração: Araceli
A Copa do Mundo já começou, especialmente para quem só quer um leve pretexto para encher a cara de cachaça ou precisa inventar desculpa de última hora para a esposa. “Por que eu cheguei agora, às duas da manhã? Ô, amor. Eu fiquei com medo de não dar tempo e acabei vendo o sorteio dos grupos lá do trabalho… slapt! (a velha onomatopeia de tapa)”.

O atacante fez cara de menino chorão ao falar do suposto salário de R$ 20 mil (uma “esmola”). “Estou muito triste. Tem gente que vem de fora, não joga a metade do que eu jogo e recebe o triplo do que ganho. A partir de hoje, vou jogar por mim. Acabou essa história de sentimento. Não vou mais jogar para o torcedor. Vou fazer o meu, jogar por mim”, disparou.
Mal o treinador “Toninho Girafales” pôs ordem dentro da vila e já pintou a crise. Tem (Zeca) Urubu, malandro, sobrevoando a Ilha. E o time pode cair em uma gelada, tal qual o simpático Picolino. Ciro, mesmo contrariado, precisa ir treinar no CT do Sport. E onde fica o local? Fato: junto ao Sítio do Pica-Pau. Eu, hein?