Boca Juniors x Náutico

a grama, ao menos, está tão ruim quanto a dos Aflitos

Por Rômulo Nava

Dia 2 de agosto de 2010. Eu e minha esposa havíamos acabado de chegar em Bariloche, cidade turística da Patagônia argentina, bastante freqüentada durante o inverno, principalmente por causa da famosa estação de esqui. Do lado de fora do aeroporto, frio de arrepiar a espinha. Pegamos um táxi até o centro. O taxista (de nome Victor) nos mostrava alguns pontos turísticos, como o lago Nahuel Huapi e a cordilheira dos Andes. De forma despretensiosa, iniciei uma conversa sobre futebol:

- Pra que time torces? Boca Juniors?
- Boca Juniors! Y usted?
- Náutico! Conheces? – perguntei ao argentino (apesar de já esperar uma resposta negativa).
- No. – respondeu (óbvio).

A viagem prossegue. Alguns minutos de silêncio. Continuamos a falar sobre futebol:

- Ano que vem, quando o Náutico jogar a Libertadores… quer dizer, em 2012…
- Leggó? (‘Chegou?’) – perguntou ele se o Náutico chegou à Libertadores (sacanagem!).
- Não… na verdade, ele já jogou a libertadores… – respondi, em meio a algumas risadas do taxista e, como se não bastasse, da minha esposa, piauiense, onde o futebol tem como maiores representantes o Flamengo do Piauí e o River.
- No llegó… – interrompeu o hermano, já com ironia.
- O Náutico joga a segunda divisão, diz pra ele. – minha esposa jogou água quente.
- Peraí, é o seguinte… – retruquei (naquela hora, já fiquei aflito tentando lembrar as ‘conquistas’ mais importantes do Náutico).
- … hum… (pausa)… meu time já ganhou do Santos de Pelé, certo? Já jogou a Libertadores da América, e tal… Já foi vice-campeão brasileiro! – apelei.
- Há quanto tempo? Tu não tinhas nem nascido! – minha esposa pegou pesado (ah, quando chegarmos ao hotel… o bicho vai pegar!).
- Há, eu não sei… O que importa é que já aconteceu. – fuleiragem minha, pois eu sabia que o Timbu é o vice-campeão da Taça Brasil de 1967 e jogou a Libertadores da América em 1968 (meus pais ainda nem se conheciam naquela época).
- Dos veces, campeón? – (o hermano já estava avacalhando).
- Não, vice-campeão quer dizer segundo lugar. – respondi, meio sem graça e mudando de assunto.

Alguns poucos minutos de silêncio se passaram. Um argentino sacaneando um brasileiro exatamente no quesito futebol. Quem diria. Definitivamente, não dava pra deixar barato. Alfinetei:

- Quer dizer que você quis assassinar Palermo quando ele perdeu os três pênaltis? – quis me referir ao famoso atacante Palermo, do Boca, que chegou a perder três pênaltis em um só jogo (quem disse que perder pênaltis é exclusividade do Náutico?).
- No. – respondeu Victor, tranquilamente.

E lá se vai mais uma tentativa inútil de sacanear o argentino. Na verdade, Palermo não perdeu os três pênaltis jogando pelo Boca. Isso ocorreu com a seleção argentina, durante a Copa América de 1999. Foi então que Victor disparou:

- Palermo fue tres veces campeón de la Libertadores… Boca tiene seis Libertadores! – disse o fanático torcedor boquense (não vou nem mais traduzir esta p…).
- Veintitrés veces campeón del campeonato nacional!
- Mundial interclubes, três!
- Dos veces campeón de la copa Nissan, Sudamericana! – finalizou.
- Amor, troca de time… vira a casaca! – minha esposa encerrou o papo com ‘chave de ouro’ (divórcio?).
- Não, não! Pra não dizer que vou me fazer de rogado, vou pelo menos comprar uma camisa do Boca, de recordação – respondi e terminei a conversa falando do penta mundial brasileiro contra o ‘bi’ argentino.

Dia 12 de agosto de 2010. Eu e minha esposa, em Buenos Aires, capital do país, aproveitamos para fazer alguns passeios. Quando estávamos na rua Florida, no centro, pesquisei o preço da camisa oficial do Boca Juniors. Custava uns $ 260 pesos, ou seja, cerca de R$ 130 reais. Desisti da compra. Uma visita ao estádio Alberto J. Armando (mundialmente conhecido como “La Bombonera”) e algumas fotos com minha camisa do Náutico já estão de bom tamanho.

Victor, em 2012, a gente se encontra na Libertadores. E, então, veremos quem vai rir por último (sonhar não custa nada, né?).

A Gauchada é Bi!

Celso Roth 1 x 0 CorinthiansCássio Zirpoli, blogueiro aqui do Diario de Pernambuco, fez o levantamento da carreira de Celso Roth e encontrou números impressionantes. Impressionantemente escassos. Até a conquista do título da Libertadores, ontem, o ex-treinador do Sport aguardou mais de 3.600 dias.

Em 2000, Roth (o “Burroth”) pegou um elenco recheado de estrelas, como Leonardo, Bosco, Adriano, Sangaletti, Nildo e Leomar. E conquistou a Copa do Nordeste.

Dez anos depois, finalmente outra taça além das conquistas de autorama. E o técnico chegou a comandar mais de dez clubes de Série A após vencer a competição regional.

Contudo, Libertadores é Libertadores (da mesma lógica do “jogo é jogo”, “treino é treino” e “jogo-treino é jogo-treino”). Dez anos ouvindo chacota. Agora, pode tirar onda, Roth!

Foto: Kibeloco