O padre Vito Miracapillo, em Pernambuco desde terça-feira, concedeu entrevista nesta quarta. Leia matéria de Claudia Eloi, publicada no Diario.
Exílio “foi o mesmo que sentir a morte”
Com a voz calma, demonstrando serenidade e paz de espírito, o padre italiano Vito Miracapillo, expulso do Brasil pelo regime militar, revelou ontem, no Recife, que seu desejo sempre foi de retornar ao país para continuar o trabalho interrompido há 31 anos em favor dos menos favorecidos.
Ele conta que no instante em que o avião decolava rumo à Itália, o primeiro pensamento que lhe veio à mente foi o de quando poderia voltar ao Brasil.
“Foi mesmo como sentir a morte. Aquilo para mim foi um grande sofrimento. Não apenas para mim, mas para o povo. Eles colocaram em suas casas e na igreja sinal de luto”, lembrou.
O religioso foi expulso durante os anos de chumbo, após decreto do então presidente João Baptista Figueiredo.
Pesava contra ele a acusação de ter se recusado a celebrar uma missa em homenagem ao Dia da Independência, na cidade de Ribeirão, na Mata Sul do estado, por não considerar o Brasil um país livre.
O movimento de expulsão foi encabeçado pelo na época deputado estadual e atual prefeito de João Alfredo, Severino Cavalcanti.
Questionado ontem sobre como analisava o fato do mesmo Severino Cavalcanti fazer parte da aliança do governador Eduardo Campos (PSB), um governo socialista, Vito Miracapillo, evitou polemizar.
“O problema não é meu. É dele, é do governo. Não sei o que passa nessas coisas”, enfatizou. O religioso foi recebido pelo governador no final da tarde, a quem presenteou com uma imagem de Nossa Senhora de Medjugorge.
Vito Miracapillo disse que de sua parte não tinha nenhum problema em reencontrar Severino Cavalcanti e que não guarda mágoa de ninguém que contribuiu para a sua expulsão. “Eu o perdoei desde aquele dia quando Pedro Eurico (seu advogado) e eu saímos do interrogatório da Polícia Federal, no Recife. Não guardo mágoa de ninguém. Acho que o problema não era de relacionamento pessoal, mas uma questão de regime”, ponderou.
Questionado se participaria de alguma atividade política, o religioso foi enfático ao dizer que nunca pertenceu a partido ou sindicado e que seu trabalho era voltado para a pastoral. “O que me preocupava era a vida do povo e aquilo que precisava transformar para as pessoas terem uma vida digna. O pecado foi aquilo”, destacou.
Veja os tópicos:
“Eu perdoei desde aquele dia (da expulsão)”
Perdão
Eu perdoei (quem trabalhou pela minha expulsão) desde aquele dia, quando Pedro Eurico (ex-deputado) e eu saímos do interrogatório da Polícia Federal no Recife. Disse para o capitão que me interrogou que não tinha nada contra ele. Não guardo mágoa de ninguém. Acho que o problema não era de relacionamento pessoal, mas uma questão de regime.
Severino Cavalcanti
Não tenho problema (em conversar). Nesse período eu soube que ele continuava falando contra mim. Me chamando de subversivo, mas a gente nunca se encontrou. Para mim, não havia nenhum problema em encontrá-lo e apertar sua mão. Sou padre e sou pessoa humana. É claro que a fragilidade muitas vezes é de se entender. Mas não guardo raiva, rancor ou ódio de ninguém.
Candidatura
Quando fui expulso disseram que eu estava preparando uma greve de camponeses. Eu nunca pertenci a partido, a sindicato ou qualquer outra coisa pública. O que me preocupava era a vida do povo e aquilo que precisava transformar também para que todo mundo pudesse gozar de uma vida digna. Agora, o pecado foi aquilo. Mesmo voltando não vou entrar em política. Agora acho que todo o cidadão faz política. É claro que a ação pastoral pode ser ao mesmo tempo ação política se ela torna-se transformadora da realidade. Não precisa ser político de profissão para fazer política. Muitas vezes, é claro, isso pode desagradar governo ou quem tem o poder na mão, mas o problema é ver o que precisa naquela organização para melhorar a vida do povo.
Perda
Estava pensando quando o avião estava aterrissando (de volta ao Recife) que na hora da saída, quando fui expulso, no momento em que o avião se levantava (para a Itália) estava pensando quando poderia voltar. Aquilo foi um grande sofrimento não apenas para mim, mas para o povo todo. Eles colocaram o sinal de luto, na igreja e nas casas. Foi mesmo como sentir a morte. Mas depois com as visitas que tive de centenas de brasileiros, mesmo os que não me conheciam diretamente e foram para minha casa. Eu sentia que continuava essa comunhão com o país e com o povo brasileiro.
Ação na Justiça
Temos que ver. Não conheço a situação jurídica agora. Além do sofrimento do afastamento do país, não tive problemas maiores de depressão, medo ou pânico. Continuei meu trabalho lá na diocese da Itália. Logo que cheguei, o bispo (italiano) me disse: lhe expulsaram no Brasil, vou mandá-lo para Montevidéu. De que Montevidéu se trata? Perguntei. Era um bairro que tinha surgido na Itália, na periferia, sem qualquer estrutura ou serviço. Comecei lá meu trabalho pastoral, sentado no chão, vivendo a vida com o povo. Fizemos lá um bom trabalho.