Até a última eleição, era senso comum entre políticos, marqueteiros e até mesmo na própria imprensa de que o guia eleitoral, de TV principalmente,poderia ter um caráter decisivo na campanha. Agora, em 2010, o horário eleitoral gratuito continuará a ter lá o seu valor.
No entanto, a intensidade com que ferramentas da internet vêm interferindo nessa pré-campanha, principalmente a presidencial, indica que já já o guia pode ficar obsoleto.
O que se viu no último sábado, durante o lançamento da pré-candidatura de José Serra à Presidência, é só uma amostra do poder que a tecnologia conquista a cada dia no processo eleitoral.
Blogs e microblogs, acessíveis de norte a sul do país, ofereciam a todo momento informações e imagens do que acontecia no interior do centro de convenções onde a oposição se reuniu para anunciar que o tucano está na briga pelo Palácio do Planalto.
O curioso é nesse caso e assim será na campanha, as informações eram divulgadas pelos cidadãos (políticos incluídos) que acompanhavam o evento.
Ou seja, nessa era em que todo mundo acessa a internet e capta imagens pelo celular, quem quiser se transforma em ‘cameraman’, ‘videasta’,'marqueteiro’e principalmente ‘repórter’.
Isso quer dizer que aquilo que vier a acontecer num comício, num debate ou mesmo numa entrevista na TV, poderá, instantaneamente, ser criticado, captado em imagens e propagado na internet.
Em outras palavras, o poder de interação oferecido pela web,particularmente pelas redes sociais, permitirá ao eleitor se manifestar ativamente, interferindo de maneira cabal para o bem e para o mal nos scripts das campanhas.
Tal possibilidade já leva especialistas em internet a prever que esta será a primeira ‘eleição em rede’ da história. E como na tal rede as coisas acontecem longe de qualquer previsibilidade, os estrategistas de marketing das campanhas devem estar de cabelo em pé com o que promete vir por aí.
Câmera na mão… // A possibilidade de as pessoas se posicionarem, via web, sobre o que acontece diante dos seus olhos, é classificado por especialistas de ‘comunicação participativa’. O fenômeno está em curso no mundo há alguns anos mas foi intensificado nos últimos meses com os terremotos do Haiti e do Chile e as tempestades de São Paulo e Rio de Janeiro.
…verdade crua // Diante das catástrofes, a população foi ao mesmo tempo vítima e porta-voz das tragédias. A cobertura das TVs e de sites de notícias, ficou, num primeiro momento, a reboque do material ‘preparado’pela população. Vídeos produzidos por quem estava no olho do furacão pipocaram nas redações e deram, com veracidade extrema, a dimensão da gravidade do que ocorria.
Provas online // É essa capacidade de captar com extrema agilidade o mundo real, sem a maquiagem e a técnica – às vezes conveniente – da TV o que preocupa os ‘pensadores’ das campanhas. Afinal, imagens feitas a partir de celulares a todo momento se transformam em provas de deslizese de crimes, muitos deles cometidos por políticos.
Liberou // Por falar em internet, o TSE aprovou, na semana passada, mudança em resolução (23.191) liberando a realização de debates entre candidatos na internet e deixando de equiparar a rede mundial de computadores a emissoras de rádio e TV para esse fim.
Como fazer? // O texto original estendia para a web as regras aplicadas aos dois veículos. O TSE, por enquanto, não fala em normas específicas para debates na internet. Mas elas existirão? É possível estabelecer tais regras?
É honesto // Ninguém pode dizer que o slogan “Nossa cidade é a gente quem faz”, que simboliza a gestão de João da Costa (PT) na Prefeitura do Recife, é desonesto. De fato, a ocupação de calçadas e outros espaços públicos pela população, sem que haja repressão de órgãos fiscalizadores, indica que a cidade é feita, de fato, pelo povo ou pela “gente” do slogan.
Desvio de foco // A estratégia do PT de realizar evento em São Bernardo (SP) para chamar a atenção da mídia no dia do lançamento da pré-candidatura de José Serra (PSDB) em Brasília, sábado, não deu lá a visibilidade pretendida para a presidenciável do partido, Dilma Rousseff. As imagens de Lula ironizando o slogan dos tucanos – ‘o Brasil pode muito mais’ – e tentando amenizar o seu ranço com a Justiça foram mais fortes que o discurso da pré-candidata.
Animadinhos // Já na festa de Serra, não teve pra ninguém. Nem mesmo a beleza da chefe de cerimônia Ana Hickman foi páreo para o ex-governador de Minas Gerais. Aécio Neves (PSDB) fez um discurso forte, com críticas ao PT/Lula, e demonstração que se engajará na campanha (o tucanato teme que ele faça ‘corpo mole’). Disse que “das montanhas de Minas a candidatura de Serra ecoará para o Brasil” e de quebra afirmou que seguirá qualquer determinação do partido. No frenesi da festa houve quem interpretasse tamanha disposição como um sinal de que Aécio aceitará a vice.